domingo, 1 de junho de 2008

Mais um capítulo da novela dos referendos autonômicos

Pelo que vi até agora, os referendos sobre os estatutos autonômicos nos departamentos de Beni e Pando seguem quase o mesmo roteiro que o de Santa Cruz.

Alguns enfrentamentos, urnas queimadas, abstenções, denúncias de fraude, resultados dando a “vitória” do “sim” por volta dos 80%, e, o que é mais nojento, os “jornalistas” dos canais de TV bolivianos tendo orgasmos ao “noticiar” o acontecimento, celebrando a “festa democrática”.

Enfim, uma grande papagaiada feita para servir como carta de negociação com o governo já que, pelo jeito, os estatutos não são aplicáveis, principalmente pelo fato de todos os recursos econômicos da Bolívia passarem pelo governo central.

Portanto, resta esperar o último referendo (o de Tarija, dia 22), ver se depois vai ter diálogo, e quem vai sair melhor dele (está muito claro que, pelos termos em conflito, se a direita ficar contente, isso não significa um empate ou equilíbrio, mas sim uma derrota do governo).

Evo, dois anos

Continuando a postagem de algumas matérias que fiz para a versão impressa do Brasil de Fato, abaixo, uma sobre os dois anos do governo do Evo:

Brasil de Fato, edição 253 (de 3 a 9 de janeiro de 2008)

Governo Evo Morales, reforma ou transformação da Bolívia?

Ao completar dois anos na presidência, gestão do ex-líder cocaleiro é posto em xeque por setores da esquerda

Igor Ojeda
de La Paz (Bolivia)

Era quase uma da tarde do dia 1º de maio de 2006 quando o presidente da Bolívia, Evo Morales, pôs em marcha sua medida de governo que mais repercutiu internacionalmente. O decreto supremo número 28701 determinou que as empresas petroleiras operando no país eram obrigadas a entregar à YPFB (a estatal boliviana) toda a produção. Estabeleceu, além disso, que 82% da renda obtida com os recursos iriam para o Estado, enquanto as transnacionais ficariam com 18%. Antes, ocorria o inverso.
A arrecadação, como era de se esperar, aumentou consideravelmente. Segundo dados do Ministério de Hidrocarbonetos e Energia, em 2005, o Estado recebeu 608 milhões de dólares. Em 2007, até o mês de março, o valor chegava a 1,57 bilhão de dólares. Atualmente, já se estima em mais de dois bilhões de dólares.
“O que o presidente fez até agora nenhum outro fez”, comemora Isaac Ávalos, secretário executivo da Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), referindo-se à nacionalização dos hidrocarbonetos, entre outros pontos que destaca nestes dois anos de governo.

Descontentamento

A recuperação dos recursos naturais era uma das principais promessas de Evo na campanha presidencial. O fato de ter anunciado o decreto 28701 apenas três meses depois de tomar posse animou os movimentos sociais do país, que passaram a vislumbrar anos de transformações sociais.
No entanto, pouco mais de 20 meses depois, nem todos que levaram Morales à presidência estão contentes com seu desempenho.
A questão dos hidrocarbonetos, por exemplo, é um dos temas polêmicos. “Em termos gerais, não houve nacionalização, pois as transnacionais continuam operando. A única coisa que se fez foi tirar delas umas notas a mais. No processo produtivo, não se tirou todas as atribuições e benefícios. Elas continuam tendo grandes dividendos”, explica o jornalista Julio Mamani, ligado à Central Operária Regional de El Alto (COR- El Alto).
El Alto, cidade muito pobre vizinha à La Paz, foi a protagonista da chamada Guerra do Gás, quando seus habitantes se levantaram contra um projeto do então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada de exportar gás natural para os EUA via um porto do Chile, país que “roubou” a saída para o mar da Bolívia.

Agenda de Outubro

Dos protestos, e dos mais de 60 mortos pela repressão do Estado, saiu a Agenda de Outubro. Segundo Mamani, em relação aos hidrocarbonetos, três pontos eram exigidos: nacionalização, recuperação e industrialização. Para ele, nenhum se cumpriu no governo Evo. “A nacionalização passava pela desarticulação completa das transnacionais. Na verdade, pela expulsão delas”. A volta dos investimentos da Petrobras é um dos fatores que mostram que isso não aconteceu.
Além disso, alguns setores da esquerda reclamam que os recursos adicionais arrecadados com os recursos estejam sendo usados em programas assistencialistas, e não na diversificação do aparato produtivo do país. Para piorar, não há gás para o mercado interno, e a Bolívia precisa, por exemplo, importar diesel.
Para Isaac Ávalos, da CSUTCB, isso ocorre porque o governo central fica com uma parte mínima do dinheiro dos hidrocarbonetos. Boa porcentagem vai para bolsas aos idosos e crianças, enquanto outro montante tem como destino os governos departamentais, as prefeituras e as universidades. Segundo Ávalos, nem os prefeitos, nem os governadores estão aplicando esse dinheiro no setor produtivo. “A única forma de ter mais recursos para o governo é modificando a lei do hidrocarboneto. Há a estimativa de se fazer isso no futuro”, diz.

Reformas

Para Gualberto Choque, ex-dirigente camponês e ligado ao Movimiento Al Socialismo (partido do presidente), a maneira como o governo vem lidando tanto com a questão dos hidrocarburos quanto as de outras áreas explica-se por seu próprio caráter: reformista. “Não há transformação, não há mudança”, lamenta.
Segundo ele, as principais medidas governamentais estão amparadas em políticas assistencialistas, “convertendo a sociedade boliviana em simples perseguidora de um resíduo que se chama esmola”.
Julio Mamani concorda: “Em termos gerais, é um governo burguês de poncho, não está atacando a estrutura”. Tanto para ele quanto para Choque, o grande erro de Evo Morales é fortalecer os movimentos indígenas, em vez de dar um conteúdo de classe às suas ações. “Ele anda divorciado das organizações sindicais, da Central Operária Boliviana (COB), do movimento minerador etc”, explica Mamani.
Segundo Gualberto Choque, isso ocorre porque “a burguesia burocrática se apoderou do governo Molares, e este está levando adiante o programa daquela”.

O Estado tenta retomar o controle da economia

Governo Evo vem tomando medidas contra a lógica econômica neoliberal vigente

de La Paz (Bolívia)

Assim como toda a América Latina, a Bolívia teve o sistema neoliberal como modelo econômico desde os meados da década de 1980. Nos seus dois anos de gestão, o governo do presidente Evo Morales tomou algumas medidas que confrontam os mandamentos do Consenso de Washington.
Em 1º de maio de 2006, eliminou a livre-contratação e decretou a chamada nacionalização dos hidrocarbonetos. Em fevereiro de 2007, nacionalizou a Empresa Metalúrgica Vinto, de propriedade da transnacional suíça Glencore.
Em agosto, o governo criou a Empresa de Apoio à Produção de Alimentos (Emapa) que, com um capital inicial de 24 milhões de dólares, nasceu com o objetivo de garantir a segurança e soberania alimentar. Em novembro, a nova estatal comprou carne do departamento de Beni e abasteceu os mercados de La Paz para abaixar os preços do produto.
Logo depois, o governo emitiu um decreto elevando as tarifas de importação de alguns alimentos e obrigando os exportadores a registrarem a venda de produtos básicos, como carne, arroz, milho e farinha.

Estrutura permanece

No entanto, para o jornalista Julio Mamani, apesar destas medidas, a estrutura econômica boliviana segue neoliberal. “Ainda que se defenda na nova Constituição o direito ao trabalho e a estabilidade laboral, isso não quer dizer que há uma ruptura definitiva”, diz, citando o exemplo da não-regulação dos preços (“coluna vertebral do sistema neoliberal”) pelo Estado.
Para o ex-dirigente camponês Gualberto Choque, a prova de que a economia segue a mesma é a vigência do decreto 21060, de 1985, que estabelece a livre importação e abre a economia ao capital privado internacional. “Ou seja, neoliberalismo puro”.
No entanto, o governo anunciou que, nos primeiros meses de 2008, apresentará uma série de leis e decretos para acabar com o tal norma. (IO)

Constituinte ressuscitou os partidos políticos tradicionais

Para analistas, processo da Assembléia fortaleceu "politiqueiros" e alijou protagonistas da Guerra do Gás

de La Paz (Bolívia)

Um dos principais pontos da chamada Agenda de Outubro, derivada da Guerra do Gás, em 2003, foi a realização de uma Assembléia Constituinte. O foro que refundaria o país também foi uma das maiores promessas de campanha de Evo Morales.
Em março de 2006, o Congresso aprovou a Lei de Convocatória e, em agosto, após eleições de seus membros, a Constituinte foi instalada. De acordo com o jornalista Julio Mamani, ligado à Central Operária Regional de El Alto (COR-El Alto), os protagonistas de outubro de 2003 entendiam que a assembléia deveria ser originária. “O que se falou é que esses setores tivessem representação para que fossem porta-vozes das mudanças que se queria gerar através da chamada Guerra do Gás. Mas, lamentavelmente, constituintes legítimos, representativos da cidade de El Alto não puderam chegar”, conta. Segundo ele, o MAS (partido de Evo), por decisão de sua cúpula levou militantes que “não tinham transcendência nem uma tradição de debate e perspectiva”.

Partidos fortalecidos

Outra crítica que alguns analistas fazem é que a Assembléia Constituinte ressuscitou os partidos políticos tradicionais, que estavam amplamente desgastados depois de 2003. “Os povos indígenas queriam a Constituinte para refundar o país, mas a partir de seus filhos, não de representantes politiqueiros”, lamenta o ex-líder camponês Gualberto Choque.
O resultado, para ele, não é positivo. A nova Constituição, aprovada no dia 9 de dezembro, em meio a muita turbulência com a direita, e celebrada pelos movimentos sociais, “não ataca os interesses dos latifundiários, dos burgueses burocratas. Só muda algumas coisinhas”, diz. Tanto Mamani quanto Choque chamam a atenção para o fato da Carta Magna aprovada não tocar na propriedade privada e respeitar as transnacionais.
O texto constitucional, que ainda irá a referendo, estabelece, entre outras coisas, a Bolívia como um Estado Plurinacional, cujo modelo econômico é conformado pelas economias estatal, comunitária e privada. Determina também que os recursos naturais são de “propriedade e domínio social, direto, indivisível e imprescritível do povo boliviano, sendo o Estado o proprietário de toda a produção e o único facultado para sua comercialização”. Já a extensão máxima de terras que uma pessoa pode possuir, cinco mil ou dez mil hectares, irá a referendo dirimidor. (IO)

A Reforma agrária ainda é lenta

Além do pouco apoio à produção camponesa, estrutura latifundiária ainda continua intocada

Na Bolívia, dados do Ministério de Desenvolvimento Rural, Agropecuário e Meio Ambiente mostram que as pequenas propriedades (de 0 a 50 hectares, 52,7% do total dos imóveis) ocupam apenas 0,46% das terras do país. Já as grandes propriedades, que possuem acima de dois mil hectares (representando 13,9% do total), ocupam 80% das terras.
Por esta razão, uma das principais promessas do presidente Evo Morales é a chamada “Revolução Agrária”: acabar com o latifúndio e desenvolver a produção no campo.
De acordo com o governo, foram recuperadas, até junho de 2007, cinco milhões de hectares de terras obtidas de maneira ilegal. A expectativa é que se chegue, até o final da gestão, a oito milhões de hectares. Até agosto deste ano, 5,5 milhões de hectares de terra foram titulados, e 500 mil foram distribuídos.
A Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB) estima que cerca de 70 milhões de hectares estão nas mãos de latifundiários e que existem no país mais ou menos um milhão de sem-terra.

Ritmo lento

Por isso, para alguns setores, a Reforma Agrária caminha num ritmo lento. No entanto, para Isaac Ávalos, secretário-executivo da CSUTCB, a lei 3545, que entrará em vigor no ano que vem, recuperará mais de 15 milhões de hectares. “Toda latifúndio que não cumpre a função social irá para o Estado. Iremos recuperar muita terra e distribuí-la aos companheiros que não têm”, afirma.
Ele reconhece que até agora, se fez muito pouco em relação à distribuição de terras, crédito, apoio técnico e sementes. “Há um apoio grande com maquinaria, com dois ou três tratores por município. É paliativo, não é solução. Mas, temos pendente com o presidente uma reunião grande a nível nacional de todas as organizações”, explica.
O jornalista Julio Mamani é pessimista: “A Revolução Agrária não se trata apenas de entregar tratores, e sim de fazer um planejamento, do que produzir, qual o mercado etc. Não há um plano de grande envergadura nesse sentido”. (IO)

Alguns avanços do governo Evo, segundo seus apoiadores

Alfabetização: no dia 17, a ministra de Educação e Culturas, Magdalena Cajías, anunciou que, em 21 meses de campanha – inspirada no método cubano “Yo, sí puedo” –, 55% da população iletrada da Bolívia foi alfabetizada, enquanto 18% estão em aulas.

Saúde: de acordo com o Ministério de Saúde e Esportes, 1742 profissionais cubanos da saúde estão no país. Até 18 de dezembro de 2006, foram atendidos 2.785.999 pacientes, 52.838 pessoas haviam sido operadas da vista e 3.541 vidas haviam sido salvas.

Renda Dignidade: a partir de janeiro de 2008, os idosos acima de 60 anos que não têm direito à aposentadoria receberão cerca de 310 dólares por ano, enquanto os aposentados ganharão aproximadamente 235 dólares. Antes, somente os aposentados acima de 65 anos tinham direito a 235 dólares.

Bônus Juancito Pinto: pelo segundo ano consecutivo, entregou cerca de 26 dólares às crianças do primário.

Combate à corrupção: Em 2005, a Bolívia era o 117º país mais corrupto do mundo, segundo a organização Transparência Internacional. Em 2007, ocupa o 105º. O governo espera a aprovação no Congresso de uma lei anticorrupção que prevê mais fiscalização e penas.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

A pegada em questão




Pegada de 10 milhões de anos

Há um mês, disseram que a Atlântida era aqui. Agora, encontraram, no altiplano, a pegada humana petrificada mais antiga do mundo (matéria abaixo). Acho que o lance não é mais vir pra Bolívia como jornalista, e sim como arqueólogo.

Já sei onde o quinto Indiana Jones será filmado.

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Presentan en Bolivia huella humana más antigua del mundo

La Paz, 29 may (ABI).- La huella humana petrificada más antigua del mundo será presentada oficialmente hoy en esta ciudad tras ser descubierta en octubre del año pasado en el altiplano del departamento boliviano de La Paz.
La exposición del hallazgo, que se presume tenga de 10 millones a 15 millones de años de antigüedad, se realizará este jueves en el Ministerio de Relaciones Exteriores y Cultos con la presencia de la agrupación internacional Comunidad de la Sabiduría Ancestral.
Según consigna un informe redactado por la Unidad Nacional de Arqueología (UNAR), citado por Prensa Latina, la pisada humana es una huella paleontológica muy antigua de la época terciaria, cuando se estaba formando la cordillera de los Andes y en especial las serranías cercanas al lago Titicaca.
Conocido como la pisada del Inca, el vestigio fue encontrado por Fanny Pimentel, quien después de tomar fotografías las presentó ante el equipo de técnico de la referida institución científica para que realizaran los correspondientes estudios.
Hasta el momento la huella más arcaica del planeta era patrimonio de Egipto, donde un grupo de arqueólogos hallaron una que podría tener alrededor de dos millones años, por lo cual la boliviana es calificada como una muestra especial.
El proceso investigativo arrojó que la pisada corresponde a un hombre adulto con una estructura ósea bien desarrollada, una estatura aproximada de 1,70 a 1,75 metros y un peso cercano a 70 kilogramos.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Aliás...

Por falar em sopa e almoço, estou devendo um post sobre as comidas bolivianas. A conferir, num futuro breve (assim espero).

Enquanto isso, provecho para mim.

Duas coisas que acostumei a fazer na Bolívia e das quais vou sentir falta quando voltar para o Brasil (não necessariamente nesta mesma ordem)

- Tomar um prato de sopa antes do almoço (a que tomei agora estava ótima).

- Mascar coca.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Um pouco de bom senso às vezes é bom


Juro que não é porque moro em La Paz. Desde maio do ano passado, quando a FIFA decidiu limitar os jogos na altitude, e quando eu ainda nem sabia que viria para cá, achei um absurdo.

Pois, agora, resolveu voltar atrás “provisoriamente”, à espera de estudos médicos. É o mínimo.

Durante esse ano todo, pelo menos os meses que estive aqui, essa história foi uma espécie de comoção nacional. Manchetes dos principais jornais, o Evo (na foto, de verde) entrando diretamente na campanha de repúdio etc.

Falavam indignados que a ação da FIFA ia contra a universalidade do futebol, e que era discriminatória contra os países andinos. E acho que eles estão certos. Duvido que se países como Brasil, Argentina, Itália etc jogassem na altitude, iam dizer alguma coisa.

Fora que, vamos falar a verdade. As pessoas pintam a altitude como um monstro muito maior do que ele é. Afeta? Claro que afeta. Mas não é tudo isso, ainda mais se estamos tratando de atletas profissionais.

O que todos esquecem é que, internamente, isso também é um “problema”. A Bolívia, por exemplo, não fica só nos Andes. Os times das planícies têm que subir mais de 3 mil metros pra jogar o campeonato boliviano, e várias vezes por ano. E ninguém reclama.

E o curioso é que, das dez confederações sul-americanas de futebol, apenas a CBF (pressionada pelo Flamengo) não apoiou a Bolívia, o Peru e o Equador contra a FIFA. E a seleção e os times brasileiros deveriam ser os menos temerosos a jogar na altura, pela diferença gigante da qualidade do futebol.

Na Libertadores deste ano, o Santos perdeu do San José, de Oruro, aqui na Bolívia, enquanto os dois outros times do grupo, um mexicano e um colombiano, ganharam até com facilidade. O Cruzeiro tomou um cacete do Real Potosí, enquanto o San Lorenzo, da Argentina, ganhou de virada, depois de sair perdendo de 2 a 0.

Ou seja, os times brasileiros perdem porque já vêm com o medo da altitude na cabeça, em vez de esquecer isso e jogar bola.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Saudade... palavra triste?

– Una palabra que yo nunca entendí en portugués es “saudade”. ¿Es como nostalgia?

– No. No hay una palabra en español que la traduzca exactamente. A ver… Es como decir que tu extrañas a una persona. Extrañar a una persona es sentir “saudade”.

– Huuum… Todavía no logro entender bien. Pero ¿“saudade” es algo bueno, no? ¿Es algo gozoso, verdad?

– Ni siempre. Depende. Puede ser algo bueno o malo.

– ¿Ah, sí?

– Ya. Por ejemplo, si tu no vas a ver una persona querida por mucho tiempo, o nunca más, la “saudade” no es buena. Duele.

– Ya.

– Ahora, si sabes que vas a ver pronto una persona que te gusta mucho, es una “saudade” buena. Te pones feliz. Te sientes bien por querer a alguien.

– Huuum… Aún no comprendo muy bien.

domingo, 18 de maio de 2008

El Gran Poder



Já comentei aqui anteriormente como é impressionante a religiosidade do boliviano e extremamente forte o sincretismo entre o catolicismo e as crenças andinas. Ontem pude ver outro exemplo disso: a festa do Gran Poder.

A história diz que, no começo do século 20, uma pintura com a imagem da santíssima trindade, com três rostos de Cristo, chegou ao bairro de Chijini, em La Paz. Era uma zona bastante popular, com grande presença de migrantes aymaras.

Aí, bastou alguns milagres atribuídos à pintura para seu culto ter início. Antes, ficava numa casa particular, mas no final dos anos 30, construiu-se uma capela para abrigá-la. No dia do Gran Poder, celebrava-se missa e saía-se em procissão.

A partir da década de 70, a procissão, já transformada em desfile, começou a se expandir pela cidade, tornando-o uma festa de toda La Paz, e não mais restrita a Chijini. E, antes discriminada socialmente, passou a animar a classe média.

Mas, uma festa que tinha tudo para ser bem católica (afinal, eram milagres realizados por uma pintura da santíssima trindade), acabou ganhando fortes elementos da cultura andina.

Ontem, parecia bastante um desfile de carnaval (especialmente, com o de Oruro). A diferença é que aqui não tem um sambódromo: a procissão é por um longo trajeto pelas ruas da cidade.

À semelhança de Oruro, o desfile é dividido em inúmeros grupos, ou fraternidades. Cada grupo escolhe uma dança (e música) andina para representar: morenada (na foto), kullawada, llamerada, diablada, caporal...

Muita gente chega para assistir. A festa, auto-proclamada de “a maior dos Andes” é super concorrida, e, como se espera num caso desses, conta com uma rede gigante de comércio em sua volta, principalmente de comidas.

Para mim, confesso que não é algo que empolga muito. Afinal, como disse, lembra os desfiles de carnaval brasileiros. Mas, sem dúvida, é muito interessante observar ritmos, figurinos e passos de uma cultura tão próxima e tão distinta da nossa.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A direita atarantada

A direita boliviana sabe que a vitória no referendo de Santa Cruz não teve nada de retumbante e agora anda meio desesperada. Sem saber o que fazer, resolveu lançar mão do referendo revogatório.

Não sei parte da oposição acredita que o povo vai votar para que o Evo saia (embora possível, acho muito improvável). Mas o fato é que tal decisão causou briga. Os governadores do oriente meteram o pau na consulta aprovada pela oposição no Senado, dizendo que só vai favorecer o governo e atrapalhar as autonomias.

Afinal, o mais provável que aconteça é que Evo fique e alguns deles saiam. Embora possa servir para que a aprovação da nova Constituição seja mais uma vez postergada, acho que, no frigir dos ovos, foi uma jogada meio estúpida mesmo – a não ser que tenham uma cartada muito boa por trás disso tudo.

Apesar do referendo revogatório oferecer riscos ao Evo (como ele perder ou ganhar por pouco) e o fato dele se encontrar numa situação bem difícil, é muito bom ver a direita batendo cabeça de vez em quando. Embora nunca devemos subestimá-la.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Fim-de-semana de cultura e paixão bolivianas

Seis contos nacionais adaptados para uma peça de teatro, em formato de esquetes. Em uma delas, um homem conta sua história de profissões inusitadas (em uma delas, ele ganhava para rir nos shows de comédia) e a relação com sua esposa.

A segunda é o caso de um jovem de uma comunidade rural da Bolívia que vai para o Exército, e "esquece" suas origens. Na próxima, uma mineradora explica a dura vida dela e a de seu marido, também minerador.

A quarta e a quinta esquetes são a la Nelson Rodrigues, lembrando bastante os episódios da "Vida como ela é". Uma é a de um pai confessando observar todos os dias a filha fazendo sexo com diferentes rapazes, e a outra é de um jovem contando os podres de seu pai no dia de sua morte.

Na última, a melhor, mais engraçada e mais triste delas, um homem fala sobre a angústia e o medo dele em falar em público, e como isso arruinou sua vida.

"Amores que matan", uma bela peça boliviana.

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Já domingão foi a vez de uma arte mais mundana, mas igualmente bela. Futebol, claro. Rumo ao Hernando Siles de novo, o estádio que a Fifa quer vetar, para assistir outro jogo do Bolívar, e, quem sabe, ver uma vitória.

Nas duas vezes anteriores, dois empates de 2 a 2, contra o The Strongest e o Real Potosí. Dessa vez, era de novo contra o arqui-rival The Strongest, pelo returno do campeonato boliviano. E, de novo, as duas torcidas chegando juntas ao estádio e sentando juntas lá dentro.

Agora, já sem medo do clássico, eu tava com meus apetrechos bolivaristas: um boné e um cachecol. Foi um jogo sensacional. Ouso dizer que o mais emocionante que eu vi (no estádio ou pela TV) em muito tempo.

Mas as coisas começaram bem mal... com um gol do The Strongest logo a dois ou três minutos de jogo. Depois disso, foi um festival de gols inacreditavelmente perdidos dos dois lados, até que, no começo do segundo tempo, 2 a 0. Bem, paciência, pensei, fica pra outro dia.

Já torço pro Bolívar a ponto de me incomodar com os sarros da torcida adversária. E óbvio que era isso que estava acontecendo no estádio. Como se não bastasse, começou a cair uma chuva fina, mas bem fria.

Eis que, aos 41 minutos, o Bolívar diminui numa cobrança de pênalti. A torcida se anima, o time também, e, aos 43, empata o jogo, num golaço. O estádio ficou uma loucura, mais ou menos como a comemoração de um título. Nem parecia que metade dele era ocupado por não-bolivaristas.

Fui pra casa outra vez sem vitória, mas mais do que satisfeito.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O jornalismo escroto, a luta de classes e o racismo

Impagável era ver a cara dos jornalistas de TV bolivianos quando, depois de perguntado o que eu tinha achado do referendo de Santa Cruz, eu respondia questionando o processo.

O sorriso virava carranca, surpresa. Insistiam perguntando se a vitória do “sim” não teria sido contundente e, diante da negativa, terminavam a entrevista, agradecendo com um sorriso forçado. Aconteceu umas três ou quatro vezes.

Não que eu seja um pop star do jornalismo. É que, não sei por que cargas d’água, os repórteres locais adoravam entrevistar os jornalistas estrangeiros que estavam na sala de imprensa do referendo. Todos os dias.

Centenas de jornalistas apareceram para cobrir a consulta. Mas, mesmo assim, com honrosas exceções, faltou jornalismo. Para ser justo, não acompanhei a cobertura internacional, apenas a boliviana e a brasileira. Mas sei de um argentino que a Sue, amiga brasileira, escutou comentar para um meio local. Ele dizia que o objetivo dos que propunham o referendo era o de desburocratizar o Estado. Ai, ai, ai, fala sério.

No caso da imprensa boliviana, deu vergonha de meus colegas. Os canais de TV todos saudavam, seja nos telejornais regulares, seja nos programas especiais, a “festa democrática” e o “momento histórico” (no bom sentido) em Santa Cruz. Quase todos os repórteres e âncoras tinham orgasmos múltiplos ao noticiarem algum aspecto do referendo.

Como sempre, desconsideravam que o governo boliviano, os movimentos sociais, a OEA, a União Européia, os países vizinhos etc não reconheciam a legitimidade da consulta. Ignoravam também as muitas críticas sobre o estatuto autonômico, que foi redigido por um grupinho da elite cruceña e contém pontos claramente racistas e separatistas.

Faltou jornalismo também, e muito, ao se comemorar efusivamente os resultados parciais da apuração. “O ‘sim’ ganhou com 85%!”, gritavam, a la Galvão Bueno. “Vitória arrasadora da autonomia!”. A informação era a de que praticamente todos da região aprovavam o estatuto.

Os “analistas” chamados para comentar os resultados babavam de alegria: “Agora seria interessante ver o que vai dizer o governo, diante de sua derrota retumbante”, disse um deles.

Mas, de acordo com os próprios dados oficiais, a abstenção tinha sido de 35%, o “não” tinha levado 15% dos votos, enquanto os votos brancos e nulos somavam algo em torno de 3%. Ou seja, mais da metade dos eleitores cruceños não tinha votado pelo “sim”.

Alguma análise sobre o que isso significa? Não, claro que não.

Quanto aos meios brasileiros, as matérias que vi foram algo um tanto burocráticas. Mas o que eu notei é que alguns repórteres (que estavam em Santa Cruz) relatavam que os enfrentamentos que aconteceram no dia da votação eram entre “autonomistas” e “simpatizantes de Evo Morales”.

Esse tipo de afirmação é uma redução muito grande da complexidade da questão. Em primeiro lugar, ao colocarem um dos lados como “autonomistas”, automaticamente transformam o outro em anti-autonomista. Mas os que tentavam impedir o referendo também eram autonomistas. O que se questionava era o conteúdo do estatuto e a forma como ele foi feito.

Em segundo lugar, nem todos são simpatizantes do Evo. Muitos estão descontentes com o governo. Ou seja, falar que são apoiadores do Evo é dizer que estavam tentando impedir o referendo apenas por solidariedade a ele. É reduzir a questão a uma briga político-eleitoral.

Mas, mais do que tudo, é negar a luta de classes. Não me venha dizer que isso já não existe mais, que é anacrônico, que é discurso dos esquerdistas dinossauros. Enquanto houver no mundo a exploração do homem pelo homem, a luta de classes seguirá existindo.

Negá-la é corroborar a tese do fim da história, é determinar o triunfo do capitalismo sobre qualquer outro modelo de sociedade alternativo, é defender a resignação dos explorados com sua condição.

Quem esteve em Santa Cruz nos últimos dias viu que a luta de classes estava muito latente. No ato de encerramento da campanha pelo “sim”, havia de tudo, é verdade, inclusive indígenas pobres. Mas se via muitas pessoas de classe média e alta, dondocas com o cabelo pintado de loiro, usando roupas caras. No centro da cidade, diversos carrões circulavam com a bandeira pró-autonomia.

Agora, no Plan 3000, a história era completamente diferente. É um dos bairros mais pobres de Santa Cruz. Lixo no chão, ruas de terra, casas e praças deterioradas. E isso a apenas 15 minutos da praça principal de Santa Cruz. Quase 100% de seus moradores são indígenas, migrantes ou filhos de migrantes do ocidente. São os chamados collas.

Ao chegarmos lá no dia da votação, deu para notar na hora o clima pesado. Eles estavam concentrados numa praça, queimando urnas e cédulas que pegavam nos colégios. Tinham montado uma caixa de som com um microfone, usados para os discursos de qualquer um que se habilitasse.

Foi descermos do táxi para sentirmos quase todos os olhos em cima de nós. Paus nas mãos, e olhares desconfiados em direção aos brancos relativamente bem vestidos. A raiva nos olhos e nos discursos era algo impressionante. Tinham um inimigo muito bem definido: a oligarquia de Santa Cruz.

Mas a imprensa era respeitada. Queriam mostrar a verdade deles para o mundo. Por algumas vezes, ficamos no meio do fogo cruzado de paus e pedras, mas o grupo que avançava passava reto por nós, seja o dos pró-referendo, seja o dos seus opositores.

De volta a La Paz, infelizmente lembro de Santa Cruz como uma cidade racista. Certamente não deve ser todo mundo. De repente nem é a maior parte. Mas ver as pichações nos muros choca. Era “collas filhos da puta”, “morram collas” ou “depois do 4 de maio, os collas vão embora”.

Nas mobilizações pró-estatuto, vira e mexe tocava uma música alegre que começava com um “Camba, que viva o camba!”. Pois é disso que os cruceños estão se chamando agora. Inventaram esse termo, o camba. Não existe. Não é uma etnia, não é um povo... Na verdade, era como, antigamente, os indígenas eram chamados pejorativamente na região.

De uns tempos pra cá, as elites se apropriaram do termo, como contraposição aos collas. E, certamente, começaram a usá-lo para unir toda uma população em torno de uma identidade comum. Criaram a “Nação Camba”, uma espécie de novo país que excluiria a Bolívia andina. Vi muita gente com uma camiseta que tinha o mapa da nova nação desenhado.

Por isso que o clima pró-estatuto em Santa Cruz parecia o do Brasil em Copa do Mundo, quando todos se deixam levar pelo ufanismo (lembrava o clima pró-capitalidade em Sucre). O discurso da elite cruceña faz muitos acreditarem que a pobreza é culpa do centralismo, que todos os problemas são culpa dos collas. Daí se explica a “cooptação” da classe baixa.

Pois é, o discurso... muitas vezes se dá pouca importância pra ele, mas a retórica é fundamental. No caso de Santa Cruz, além do apelo ao regionalismo e ao racismo, as autoridades lançam mão de um termo muito caro a nós latino-americanos, que temos na memória recente ditaduras sanguinárias: a democracia.

Mas qual democracia? Claro, aquela que garante a liberdade dos grandes grupos econômicos e oferece ao resto a “grande possibilidade” de votar a cada quatro anos. A mesma evocada pela mídia para condenar Cuba, Venezuela e... agora, a Bolívia.

ps: Aqui, parte da matéria que fiz pra versão impressa do Brasil de Fato.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Notícias cruceñas

Ainda em Santa Cruz. Ontem, no dia "D", passei quase todo o dia num dos bairros mais pobres da cidade. Aqui, a matéria que fiz. Depois, com mais tempo, escrevo minhas impressões pessoais.

Aqui, uma matéria anterior.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Santa Cruz é verde e branca

Bem, aqui estou em Santa Cruz de la Sierra. Cheguei ontem de manhã, depois de 17 horas de busão (e só duas paradas, fala sério).

Do que eu pude ver até agora, a cidade respira autonomia. As bandeiras verde e brancas, as cores daqui, estão em todo lugar, assim como faixas e cartazes pedindo (ou exigindo?) o voto no "sim" no domingo.

Ontem no início da noite, fui no ato de encerramento da campanha. Uma multidão... impressionante. É assustador ver como um tipo de discurso regional consegue arrebatar gente de todas as classes sociais em torno de uma "luta". Dá medo. (fora que, como posso me sentir à vontade no meio de um mar de pessoas vestidas de verde e branco? É a visão do inferno)

Nas suas falas, as autoridades vieram com todo aquele blábláblá de que a autonomia trará o desenvolvimento e o fim da pobreza para todo o país. E, como sempre, evocaram a "democracia" e a "liberdade". Realmente, tudo muito bonito e comovedor. E sincero, claro.

O dia do referendo se aproxima, e as expectativas crescem. Se eu acreditasse em deus, escreveria agora aquele clichê de que só ele sabe o que pode acontecer.

Mas como odeio clichês, apenas direi que o as tensões estão à flor da pele e que o que está para vir, apenas o futuro dirá, e que agora é esperar para ver.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Rumo às terras baixas, ao calor... e ao olho do furacão

Agora, é pegar um ônibus ladeira abaixo e presenciar mais um momento decisivo para a Bolívia. Há muita expectativa por aqui em relação ao referendo autonômico de Santa Cruz, marcado para o próximo domingo.

Uns falam que podem ter enfrentamentos, outros dizem que a tendência depois da consulta será o separatismo... o fato é que as coisas podem até permanecer como estão, mas isso é bastante improvável.

Outro fato é que o estatuto autonômico é realmente uma aberração (o governo tem toda razão). Uma coisa é a demanda legítima pela autonomia e descentralização. Outra coisa é esse estatuto feito pela elite de Santa Cruz, que praticamente propõe uma espécie de separatismo mesmo.

Bem, resta aguardar os acontecimentos. Espero conseguir postar algo de lá.

Ditaduras bolivianas


Devagar e quase nunca, vou postando as matérias mais interessantes que fiz por aqui. Abaixo, uma de dezembro, quando se anunciou que o governo iria abrir os arquivos das ditaduras bolivianas.

Mas, pelo jeito, até agora nada...

Brasil de Fato, edição 249 (de 6 a 12 de dezembro de 2007)

Bolívia decide abrir caixa-preta
de um passado sangrento do país

Governo de Evo Morales decretará abertura dos arquivos dos regimes militares que causaram mortes e desaparecimentos entre 1964 e 1982

Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)

Cristina Moreira Ramírez era ainda muito pequena quando seu pai, Roberto Moreira, sofreu as mais diversas torturas físicas e psicológicas durante a ditadura de Hugo Bánzer, um dos vários regimes militares pela qual passou a Bolívia entre 1964 e 1982.
Ela não lembra de nada, mas conta, com detalhes, o que aconteceu. “Em 1972, meu pai foi preso e sofreu os mais terríveis mal-tratos que um homem pode sofrer”. Cristina relata que, muito torturado, Roberto, militante do Exército de Libertação Nacional, resistiu por muito tempo, “mas chegou um momento que não pôde mais e perdeu a razão”.
A partir de então, o pai de Cristina começou a ser levado a todas as prisões e campos de concentração, para que os demais presos políticos vissem o que os esperava se não cooperassem com o regime e não delatassem seus companheiros.
“Meu pai, em muitas ocasiões, tentou tirar sua própria vida”, conta Cristina. Roberto chegou a ser internado num manicômio em Sucre, no centro-sul da Bolívia. Recuperado, foi exilado no México. No entanto, os distúrbios psicológicos voltaram e ele foi levado a um hospital psiquiátrico.
“O diagnóstico foi um quadro de lesões mentais incuráveis que impressionou os médicos conhecedores de sua tragédia, que era um testemunho patético da selvageria que os militares bolivianos praticavam, degradados à condição de torturadores a soldo do imperialismo”, relata Cristina. Depois de muitas recaídas, cada vez mais graves, Roberto morre em 31 de dezembro de 1973.

Esclarecimento e justiça

Mais de 30 anos depois, Cristina trabalha cotidianamente para pedir justiça e esclarecimento sobre os crimes cometidos contra seu pai. Tal busca pode ser finalmente recompensada a partir do dia 10, dia internacional dos direitos humanos, quando o governo boliviano deverá emitir um decreto supremo através do qual serão abertos os arquivos das ditaduras militares que deixaram centenas de mortos e desaparecidos desde 1964.
“Mais que tudo, os que os familiares de vítimas querem é que se aplique todo o rigor da lei aos que participaram desses atos impunes, e que isso seja um ressarcimento moral”, explica Cristina. Até hoje, poucos responsáveis pelos crimes cometidos durantes os regimes militares foram julgados ou processados. As exceções são o ex-ditador Luis García Meza (1980-1981) e seu ex-ministro do Interior, Luis Arce Gómez.
Ambos foram julgados pela Corte Suprema boliviana e sentenciados a 30 anos de prisão, sem direito a indulto, em abril de 1993.
Meza foi capturado em 1994, no Brasil, e cumpre sua pena. Já Gómez acabou de cumprir uma sentença nos EUA por narcotráfico e espera-se que seja extraditado para a Bolívia.
Loyola Guzmán, ativista da Associação de Familiares de Detidos, Desaparecidos e Mártires Pela Liberação Nacional (ASOFAMD) e hoje deputada constituinte pelo Movimiento Al Socialismo (MAS), diz que já está comprovado que as Forças Armadas da Bolívia, sobretudo o exército, concentrou documentação sobre a repressão.
“Porque eles foram os que, apoiados por, ou apoiando os civis, comandaram as ditaduras. Então, eles têm informação sobre todos os casos. E deveriam pôr-los à disposição para esclarecê-los”, explica a ativista, segundo a qual até hoje só foi possível averiguar o paradeiro de 14 militantes desaparecidos da ditadura de Hugo Bánzer (1971-1978) e um da ditadura de Luis García Meza.

Inimigo interno

De acordo com Loyola, como na Bolívia não existe nenhuma legislação que diga que certos documentos que atentem contra a integridade territorial ou a soberania do país devem ser abertos depois de um determinado número de anos, os militares utilizam esse argumento para censurar as informações.
Loyola Guzmán espera, com a abertura dos arquivos, obter esclarecimentos sobre o desaparecimento de seu companheiro, Félix Melgar Antelo, também do Exército de Libertação Nacional e detido em abril de 1972. “Disseram que o levaram ferido, mas nunca nos entregaram seus restos”, conta a ativista, ela própria prisioneira do regime de Hugo Bánzer, entre 1972 e 1974, e depois em 1975.
Tanto a ditadura que causou o desaparecimento de seu companheiro, como as demais, obedeceram, de acordo com Loyola, à aplicação da Doutrina da Segurança Nacional, “pela qual se considerava que o comunismo já não era o inimigo externo representado pela Europa Oriental, e sim o inimigo interno de cada país. Havia que liquidá-lo, evitar que houvesse novas revoluções cubanas”.
Tal necessidade significou a eliminação física de centenas de militantes de esquerda, a destruição de partidos, sindicatos e organizações populares. Tudo com o “apoio de civis, das forças que têm poder econômico e não queriam perdê-lo”, lembra a ativista da ASOFAMD.

Plano Condor

Mas a chamada Doutrina de Segurança Nacional não foi exclusividade da Bolívia. Quase todas as ditaduras dos países vizinhos na mesma época a tiveram como base.
E, justamente por compartilharem da mesma ideologia, os regimes militares de Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai, Chile e Bolívia elaboraram um sistema conjunto de troca de presos políticos e de informações sobre “subversivos”. Era o chamado Plano Condor.
“Está comprovado que o golpe de Bánzer teve apoio da ditadura brasileira, firmou pactos com a paraguaia etc. Há quase 40 bolivianos desaparecidos na Argentina, uns seis no Chile”, exemplifica Loyola. Segundo ela, na Argentina, a situação de nenhum desaparecido foi esclarecida até agora.

Oposição convoca Forças Armadas a agir contra Evo

Para analistas, respaldo da base militar a Evo e novo cenário internacional reduzem a possibilidade de triunfo de um golpe

de La Paz (Bolívia)

No dia 28 de novembro, Leopoldo Fernández, governador do departamento de Pando, um dos seis que fazem oposição ao governo de Evo Morales, deu um alerta: “Este povo não vai tolerar que as Forças Armadas (...) se prestem ao servilismo de acatar ordens de gente irresponsável na condução deste país”.
Em seguida, fez um chamado para que “os comandantes das forças baseadas em Pando possam dar um exemplo a esse alto mando militar, conformado por uns covardes traidores dessa pátria, e digam a eles qual é o papel que devem jogar as Forças Armadas”.
Poucos dias depois, foi a vez de outro governador opositor, o do departamento de Cochabamba, Manfred Reyes Villa. “As Forças Armadas, que sempre foram as guardiãs da democracia, têm que seguir sendo as guardiãs da soberania de nosso país e evitar a submissão do alto mando”, convocou.

Novo golpe?

Tais declarações comprovaram que os fantasmas das diversas ditaduras protagonizadas pelos militares entre 1964 e1982 estão muito longe de desaparecer. Num contexto de polarização acentuada que hoje vive a Bolívia, um novo golpe, embora ainda considerada improvável, não é descartada pela esquerda do país.
“Existem fissuras dentro das Forças Armadas. Há, pelo menos, diferenças de critério. É uma situação delicada, principalmente porque os setores da direita têm conexões com elas”, preocupa-se o sociólogo Eduardo Paz Rada.
Ele explica que durante décadas, a influência da embaixada dos EUA nesse setor é muito grande. No período, ajudou com armas e dinheiro, controlou as forças anti-drogas e criou seu aparato de inteligência.
Ainda de acordo com Rada, o governo de Evo Morales tem tentado reverter tal lógica e criar uma inteligência mais autônoma. “Mas isso ainda não foi desmontado totalmente. Ainda existe uma parte que sofre muito fortemente uma influência estadunidense, e, por outro lado, uma parte nacionalista que apóia o Evo”, analisa.

Respaldo a Evo

Loyola Guzmán, ativista da Associação de Familiares de Detidos, Desaparecidos e Mártires Pela Liberação Nacional (ASOFAMD), lembra que há um esforço hoje de vincular as Forças Armadas com a questão dos direitos humanos, mas pondera que “ainda é pouco tempo para dizer que são Forças Armadas a serviço do povo. Eu, pessoalmente, não confiaria muito nisso”.
No entanto, ela se mostra incrédula em relação à possibilidade real de um novo golpe depois de 25 anos de governos civis e eleitos. Na opinião da ativista, as condições internacionais, no século XXI, são outras. “Aparentemente, descartou-se as ditaduras como uma forma de impor políticas econômicas e sociais desfavoráveis à maioria”, analisa Loyola, que cita também o ambiente favorável de governos progressistas nos países vizinhos como um freio a qualquer intento golpista.
Já Eduardo Paz Rada, embora não descarte uma tentativa de golpe fomentada pelo oriente boliviano, bastião da oposição, acredita que no momento não há condições para que se obtenha sucesso nesse sentido.
Segundo ele, a cúpula das Forças Armadas, formada por representantes dos setores médios e acomodados, não pode atuar numa linha anti-governo, pois não obterá resposta da base. “A sub-oficialidade e os soldados rasos são de origem popular. E essa base é totalmente de respaldo a Evo”, afirma. (IO)

Os 18 anos de terror

1964: em novembro, René Barrientos e Alfredo Ovando Candía assumem como co-presidentes após um golpe de Estado.

1966: em eleições contestadas, René Barrientos é eleito presidente. Promulga uma nova Constituição, vigente até hoje.

1967: exército boliviano aniquila, com o apoio da CIA, a guerrilla de Che Guevara. Em 8 de outubro, revolucionário argentino é executado.

1969: em 27 de abril, Barrientos morre em um acidente de helicóptero. Seu vice, Luis Adolfo Siles, assume, mas é derrubado cinco meses depois em um golpe conduzido por Alfredo Ovando Candía.

1969-1970: Candía adota medidas como a abolição da lei de Segurança de Estado, a autorização para a reorganização sindical etc. Guerrilha guevarista de Teoponte é aniquilada pelo exército.

1970: em outubro, novo golpe militar derruba Candía. Poucos dias depois, um contragolpe militar de tendência esquerdista é levado a cabo, levando ao poder Juan José Torres.

1970-1971: o novo presidente, apoiado por organizações sociais, passa a adotar medidas populares, como nacionalização de empresas, reposição salarial aos mineiros, aumento do orçamento das universidades etc.

1971: em agosto, um golpe de Estado leva Hugo Bánzer ao poder. Juan José Torres seria assassinado em 1976, na Argentina, no marco do Plano Condor.

1971-1978: o governo de Bánzer torna ilegais os partidos políticos, suspende os direitos civis e envia tropas aos centros mineiros. Recebe apoio direto do Chile de Augusto Pinochet e dos EUA.

1978: Bánzer é derrotado por uma junta militar liderada por Juan Pereda Asbún. Em novembro, David Padilla, do setor nacionalista-popular do exército, derrota Asbún e no ano seguinte convoca eleições.

1979: o socialista Hernán Siles Suazo é eleito presidente. No entanto, como não obteve 50% dos votos, o Congresso, como previa a Constituição, designou de forma temporária Walter Guevara Arce para a presidência, até as eleições do ano seguinte. Em novembro, Alberto Natusch Busch assume o poder em outro golpe de Estado. A reação de organizações populares foi seguida de uma violenta repressão. Duas semanas depois, Busch devolve o poder ao Congresso, que elege interinamente Lídia Gueiler como presidente.

1980: em junho, Hernán Siles Suazo é eleito presidente mais uma vez. No mês seguinte, um novo golpe, liderado por Luis García Meza e com o apoio da ditadura argentina e da CIA, derruba Lídia Gueiler e impede a posse de Suazo.

1980-1981: o governo de Meza, ligado ao marcotráfico, resulta em centenas de mortos e desaparecidos. A exportação de cocaína dispara. Em agosto, Meza renuncia, dando lugar a Celso Torrelio Villa.

1982: em julho, um novo golpe leva Guido Vildoso Calderón à presidência, com a intenção de promover a transição à democracia. Uma greve de operários faz com que a ditadura devolva o poder ao Congresso, que decide validar as eleições de 1980, designando Hernán Siles Suazo como presidente.

Números das ditaduras na Bolívia*

René Barrientos (1964-1969):

5 desaparecidos

Alfredo Ovando Candía (1969-1970):

60 desaparecidos (todos da guerrilha guevarista de Teoponte (1970)

Hugo Bánzer (1971-1978):

85 mortos

77 desaparecidos

6 mortos e 35 desaparecidos na Argentina (Plano Condor)

8 mortos e desaparecidos no Chile (Plano Condor)

Alberto Natusch Busch (1979):

77 mortos

Luis García Meza (1980-1981):

94 mortos

26 desaparecidos

Total: 239 mortos e 168 desaparecidos

*Fonte: Associação de Familiares de Detidos, Desaparecidos e Mártires Pela Liberação Nacional (ASOFAMD)

domingo, 27 de abril de 2008

Atlântida era aqui?

É o que está dizendo um engenheiro boliviano, segundo a matéria de um dos jornais locais.

O tal cidadão, chamado David Antelo, diz que encontrou mais de cem coincidências entre a Acrópoles de Atlântida, descrita por Platão, e uma região localizada no Beni, na Amazônia boliviana, perto da fronteira com o Brasil (ele dá até as coordenadas do local).

Para ele, existem indícios da cultura dessa civilização em grande parte da Bolívia. A Atlântida, inclusive, teria englobado uma boa porção da América do Sul, há mais de 11.500 anos.

Ou seja, foram os “atlântidos” que descobriram e colonizaram a Europa, além da África e da Ásia. Para o engenheiro, Platão soube da história de Atlântida através de outros sábios gregos que haviam visitado os egípcios, os primeiros colonizados.

Que coisa mais doida...

quinta-feira, 24 de abril de 2008

A herança racista e oligarca da elite de Santa Cruz

Sobre o livro que comentei em um post abaixo, saiu a entrevista com dois dos autores no site do Brasil de Fato. Está longa, mais vale a pena ler.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A mesma lua


Foi por pouco tempo. Eu estava deitado, me preparando pra dormir, e ela lá, cheia, iluminada. Uma parte do teto do meu quarto é de vidro, mas foi a primeira vez que a vi por ali. Talvez pela posição dos astros e a inclinação da Terra nessa época do ano, sei lá... o fato é que nunca tinha aparecido antes.

Olhando pra lua por poucos minutos, já que ela se foi logo depois (ou melhor, nosso planeta que seguiu com seu teimoso movimento de rotação), de repente meu deu um estalo: essa lua é a mesma do Brasil. É a mesma que algum conterrâneo deve estar admirando nesse exato momento, a milhares de quilômetros daqui (morar em La Paz torna dupla a distância: na horizontal e na vertical).

Claro que eu sei que só temos uma lua. Mas tive que vir pra cá pra me dar conta, realmente, disso.

Com os olhos nela, imaginei o quão sensacional seria se, no Brasil, uma das muitas pessoas que amo e que sinto falta – uma que fosse – estivesse olhando para a lua ao mesmo tempo que eu. Distantes, mas muito próximos. Conectados por uma visão em comum.

Adormeci sorrindo.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Pra matar a saudade

Nada como almoçar ao som do glorioso pagode "Mal Acostumado", do não menos glorioso Araketu.

Só que em espanhol.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Mujeres

A mulher boliviana talvez seja a melhor representação da pobreza e miséria que se vive no país. Certamente o que mais chama a atenção de quem vem para cá é a figura da chola. A indígena com longas tranças, a pollera (uma saia grande), o xale, o chapéu-coco e o aguayo, um pano colorido que elas levam nas costas, com todo tipo de coisa dentro. Não raro, bebês.

Pois é nos rostos delas que vemos o trabalho árduo de todos os dias, passando horas e mais horas tomando conta de uma barraquinha de rua, sob sol ou chuva. Sabe-se lá que horas acordam e quando podem dormir. Quanto tempo levam para chegar, quanto para voltar. Quantos quilômetros caminham diariamente... E são de todas as idades. Todas com peles machucadas pelo frio, pelo sol, pelo clima seco... Muitas, maltratadas pelos maridos.

Ontem fui ver um filme com a Sue, uma amiga brasileira que está fazendo um trabalho aqui na Bolívia, chamado Mamá no me lo dijo. É uma espécie de documentário, pontuado com algumas encenações. Fala do extremo machismo na sociedade boliviana e os maus-tratos cometidos contra as mulheres.

A diretora o divide em três partes: a índia, a puta e a monja. Na primeira, as cholas nas ruas são entrevistadas sobre o que pensam dos homens. As respostas não são nada elogiosas.

A segunda parte trata do preconceito contra as prostitutas, enquanto o que prostituem saem ilesos de críticas. Já a terceira fala do machismo dentro da Igreja católica, através de uma encenação, no centro de La Paz, de uma missa celebrada por uma mulher. O crucifixo traz de um lado, o Cristo homem. Do outro, um Cristo mulher, o que causa indignação em muitos dos transeuntes (inclusive mulheres).

Enfim, muito bom. O triste é entrar na sala de cinema e ver que, além de nós, só mais duas pessoas estavam lá para ver o filme.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Os barões do oriente

Não poderia existir melhor expressão para caracterizar a oligarquia de Santa Cruz do que “barões do oriente”. Saiu na semana passada um livro muito bom sobre a elite cruceña, chamado, justamente, “Barones del Oriente”. Mas seus autores (já os entrevistei, deve ser publicado nos próximos dias) não escolheram o nome como uma forma de azucrinar o pessoal de lá. Ao contrário, a opção foi feita sobre bases históricas, políticas, econômicas e sociológicas.

É muito simples. Eles afirmam que o processo de constituição dessa elite é muito semelhante ao dos chamados “barões do estanho”, a oligarquia mineradora, baseada no ocidente, que controlou o país por quase todo o século XX.

A lógica é a mesma. Um modelo econômico extrativista (estanho no ocidente e borracha no oriente) e exclusivamente voltado ao mercado externo, gerando profundas desigualdades sociais. Ou seja, uma burguesia anti-nacional (qualquer semelhança com o agronegócio brasileiro não é mera coincidência).

O livro estuda a formação histórica da elite de Santa Cruz para analisar suas características atuais. E conclui que a lógica segue sendo a mesma (com a diferença que agora o ciclo é o da soja). E o que eles mais querem é manter esse poder gerado pelo modelo econômico.

Mas não desejam tomar o poder nacional. Seu objetivo central não é o Estado boliviano (mesmo porque não possuem apelo nacional). O que eles querem mesmo é criar um novo Estado dentro (ou fora) do boliviano. Ou seja, separatismo.

O estatuto autonômico de Santa Cruz, que deve ser aprovado em 4 de maio, é mostra evidente disso. Por ele, o controle sobre, por exemplo, a terra e os recursos naturais (em qualquer país do mundo, de competência do governo federal) será exercido pela região. Isso não é autonomia, é separatismo. Quer melhor forma para garantir intactos os latifúndios e a concentração de riquezas?

E, para manter toda uma população coesa em torno da luta autonômica, a oligarquia maneja muito bem o discurso regionalista e racista. Um dos capítulos do livro analisa esse discurso. Desde há muito tempo, o povo cruceño é bombardeado com a idéia de que o oriente majoritariamente mestiço sempre é prejudicado pelo ocidente indígena.

Conclusão: a luta não é de classe, e sim regional e étnica. Santa Cruz contra La Paz, mestiços contra indígenas. O que serve direitinho para encobrir as gritantes desigualdades sociais na região.

E o racismo é tão latente que o estatuto autonômico só reconhece os direitos (bem de leve, claro) dos cinco povos indígenas oriundos da região. Só que 40% da população indígena de Santa Cruz é formada por imigrantes que vieram do ocidente. Então, não haverá outro remédio que excluí-los, renegá-los, expulsá-los.

Um assunto atualmente em pauta por aqui também ajuda muito bem a expor o perfil da oligarquia cruceña. Há duas semanas que um grupo de fazendeiros de uma região de Santa Cruz simplesmente impede, à força, que o governo faça a vistoria de suas propriedades, para saber se cumprem ou não a função econômica e social.

A terra é o grande calcanhar de Aquiles da elite cruceña. Tanto que o governador, Rubén Costas, é criador de gado, e Branko Marinkovic, presidente do comitê cívico, é produtor de soja. E são os dois principais líderes da luta pela autonomia.

Além disso, cerca de mil famílias guaranis trabalham nessas fazendas em condições análogas à escravidão (o que mostra outra característica da elite local: a prática de um capitalismo colonial). As vistorias nessas terras que estão sendo impedidas pelos latifundiários têm como objetivo justamente sua distribuição para os camponeses guaranis.

Mas o duro mesmo é ler nos jornais a declaração do principal nome da Igreja Católica por aqui. O cidadão tem a cara-de-pau de dizer que o governo estava enganando o povo ao afirmar que em Santa Cruz há escravidão. Sendo que há inúmeros estudos, investigações e testemunhos que comprovam tal realidade. Bem, o que esperar da Igreja mesmo...

Quem tiver interesse no livro, pode baixá-lo neste site.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Desvarios do estado pré-sono

“Que saco. Esse cara não vai parar de falar no telefone não? Não dá pra dormir assim. Puta que o pariu, essas paredes são muito finas. Dá pra escutar tudo. Deve ter mudado ontem, fazia tempo que eu não ouvia nada. Ainda bem que ele tá sozinho e não veio com a mulher, senão ia ser foda. Pelo sotaque, deve ser dos EUA. Olha que ridículo ele falando... Pára de falar pelo nariz, meu! Tô com preconceito de quem fala inglês, ainda mais quem fala inglês e vem prum país pobre. Pffff, a culpa é toda deles. Tá falando com uma mulher, dá pra escutar bem. Tá no viva-voz, será? Ah, deve ser Skype. Deve estar sem o fone. Filho-da-puta, não desliga. E tinha que ser americano? Deve estar xavecando a mulher. Todo, todo no telefone. Ou é a mulher dele? Putz, se for, ele vai falar no telefone todas as noites. Vai ser sempre um parto pra dormir. O que será que ele tá falando? Vou prestar atenção. Ah, mas aí é que eu não durmo mesmo. Não vou ouvir não. Vou tentar dormir. Boa, desse lado ficou melhor. Será se vai ser legal a entrevista amanhã com a mulher do livro? Queria ler mais do livro. Vou acordar cedo amanhã e ler. Cacete, o cara não pára de falar? Ah, vou ouvir. Nooossaaaa, magina se eu escuto uma mega conspiração contra o Evo? E se o cara for da CIA e veio pra cá tentar derrubar o governo? Veio como quem não quer nada, alugou o apartamento do seu Luiz, e vai ficar conspirando. Ele nem deve saber que dá pra escutar aqui, tô quietinho, não faço barulho. Putz, esse sino da Igreja a esta hora é insuportável. Padre mais louco! Vixe, já pensou se eu ouço ele falar pra mulher que tá tudo certo, que o plano pra dar o golpe no presidente vai caminhando bem, que logo logo o governo cai? Cacildis, o que eu faria? Nossa, ia ter que avisar o governo. Já sei! Avisaria o Alfredo Rada, já entrevistei ele mesmo. Ligaria pro assessor dele e diria que tenho uma denúncia gravíssima pra fazer. Ai, não viaja, um agente da CIA não iria falar essas coisas por telefone. E por Skype, será se ele falaria? Acho que também eu teria que perguntar pro seu Luiz quem é ele, de onde ele veio... Ih, mas tô pensando nisso tudo e nem tô escutando o que o cara tá falando. Vou ouvir. Não posso esquecer de comprar pilha pro gravador amanhã. Nooossaaaa, se eu ouvisse que o cara tá conspirando mesmo e denunciasse, eu poderia escrever uma matéria em primeira pessoa. Será que as perguntas que eu pensei pra mulher do livro tão boas? Ia ficar bem bacana a matéria. Haha, agora eu quero mesmo que o cara seja da CIA e esteja conspirando contra o Evo? Ai, esse lado já deu. Vou virar. Ah, mas um cara da CIA não falaria essas coisas por telefone. Só se fosse em código. Cacete, dá vontade de ir lá xingar o padre que toca a porra do sino. Como seria o código? Olha, o condor tá com mal de altura e já não voará. Hahaha. Ai, Igor, deixa disso e vê se dorme. Vou parar de mascar folha de coca. Mas e se eu não tiver viajando? Então, se eu ouvir algo... pilha pro gravador. Acordar umas oito. As perguntas do livro... padre desgraçado... Domingo que vem... dia 23 ou dia 30? Avião não tão caro... Pilha pro gravjkjdkeuehrrjhs. ...........”

quinta-feira, 10 de abril de 2008

10 de abril: seis meses de La Paz...



… das cholas com seus bebês levados nas costas, dos morros (ou montanhas?) completamente tomados ao seu redor, das manifestações de rua quase diárias. La Paz das crianças com as bochechas queimadas pelo frio, do sol forte, da presença eterna do Illimani nevado, das vans que te levam para todos os lugares.

La Paz da nação e da língua aymara, dos meninos engraxates que cobrem seus rostos por vergonha dos colegas de escola, dos pedintes com cara de enorme sofrimento. Dos carros tirando fina um dos outros no trânsito caótico, da buzina incessante, das infinitas barraquinhas de rua, dos cachorros com e sem dono, das pichações políticas nos muros.

La Paz da aventura cotidiana em atravessar a rua, do sobe-e-desce de suas ladeiras, das lindas praças. Das pessoas na praça, brincando, lendo, conversando, manifestando, namorando. Esperando. Do sorvete de canela, da fila interminável no Bits & Cream, da salteña de frango, do brownie com sorvete do La Terraza, da cerveja morna.

La Paz do Bolívar e do The Strongest, do estádio Hernando Siles, do futebol na altura. Do Huyustus, um dos maiores mercados de rua do mundo, da salchipapa, da cerveja Paceña (e da Huari). Da feira de miniaturas, dos casacos de alpaca a 80 bolivianos, da Calle de las Brujas, do Gota de Agua, do Ojo de Agua.

La Paz da Festa das Ñatitas, da colorida (e sagrada) whipala, da fé católica, mas também andina. Da total ausência de McDonald’s, bicicletas e pontualidade. Do passeio noturno no El Prado, da ida à cinemateca, do jantar no Calicanto. Da Calle Jaén, da Plaza Murillo, da vista da Puente de las Américas, do Mirador Killi-Killi e do Montículo. Da sopa que antecede e da gelatina que sucede qualquer almoço.

La Paz dos turistas, dos gringos moradores, da ligação ao Brasil a 60 centavos de boliviano por minuto. Dos ótimos CD’s e DVD’s piratas, das pessoas chegando no cinema meia hora depois do filme começar. Dos “buenos días”, “buenas tardes” e “buenas noches” cada vez que alguém sobe numa van, e do “provecho” cada vez que alguém entra ou sai de um restaurante.

La Paz do sorojchi, da falta de oxigênio, do clima seco, do “calor” e do frio no mesmo dia. Da folha de coca, do mercado da coca, da vizinha El Alto, do praticamente vizinho Titicaca. Dos desfiles de bandas para comemorar qualquer coisa, das vendedoras de milho para as pessoas jogarem às pombas que inundam a Plaza Murillo. Da cerveja verde do Green Bar, do Chapare Libre do Ja Ron Café.

La Paz do sotaque “choroso”, do apthapi, a comida compartilhada, do apoio quase unânime ao Evo. De Sopocachi, Tembladerani, Villa Fátima, San Pedro, Miraflores, Villa San Antonio, Obrajes, Calacoto e Achumani. Da relativa segurança nas ruas, das distâncias pequenas, das festas nas casas. Da carne de lhama, do Pique a lo Macho, do churrasquinho no Honguito.

La Paz da perfeita acolhida a um jovem jornalista militante.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Socialistas, nós?

É engraçado. As propagandas a favor do “Sim” à nova Constituição que vi até agora na TV são para refutar “acusações” da direita.

Sempre em forma de historinha, com duas pessoas conversando, uma delas diz que, ao contrário do que fala a oposição, o novo texto garante a propriedade privada. Outra das propagandas reafirma que a educação privada também será respeitada.

Ou seja, a direita acusa o governo Evo de "comunista", "socialista" etc. Este, por sua vez, quer deixar claro que não pode ser definido por nenhum desses palavrões.

Pelo menos não na prática. Pelo menos não ainda.

terça-feira, 8 de abril de 2008

A vitória que virou empate (algumas horas depois do jogo terminar)

Pai e filho, domingão no Hernando Siles, o estádio a 3600 metros acima do nível do mar. Chegam uns 10 minutos atrasados, pois haviam decidido ir no jogo de última hora.

Bolívar, o time boliviano que o filho escolheu para torcer, contra o Real Potosí. Os dois mal na tabela. Primeiro tempo sofrível. Erros de passe bizonhos, bola na trave metida pelo adversário... nos últimos minutos, pênalti a favor do Bolívar. “Só assim mesmo”, comenta um torcedor indignado, sentado duas fileiras à frente.

Quase que previsível, a cobrança é perdida. O primeiro tempo acaba logo em seguida. A torcida revoltada xinga os jogadores na entrada do vestiário.

– O Bolívar não ganha faz tempo – explica o filho ao pai, que está de visita à cidade.

No segundo tempo, nada muda. A torcida vaia cada jogada errada. Até que, faltando alguns minutos, sai o gol do Bolívar. Comemoração, gritos de incentivo, mas, pouco tempo depois, o Real Potosí empata.

– Pô, ganhando o jogo e toma contra-ataque? – comenta o pai.

– Pois é, ridículo – concorda o filho.

O torcedor indignado, sentado duas fileiras à frente, levanta e vai embora.

Um tempo depois, no finzinho, outro improvável gol do Bolívar. De novo, comemoração e gritos de incentivo.

Mas o time do filho continua atacando e tomando contra-ataques.

– Que técnico burro, devia mandar o time segurar a bola! – espanta-se o pai.

– Claro! ­– exclama o filho. E, num estalo do cérebro, lança a dúvida: – Só se o Real Potosí fez um gol no comecinho e a gente não viu.

Pai e filho se olham. Com medo de apanhar, decidem não perguntar a ninguém, aos 49 minutos do segundo tempo, quanto está o jogo.

Chegam em casa com a interrogação na cabeça. “Nunca saí de um estádio de futebol sem saber exatamente quanto foi a partida”, pensa o filho, um tanto envergonhado.

Umas duas horas depois, ligam a TV. Começava, justamente, os melhores momentos.

– Ei, a gente não viu este gol! – grita o filho.

Pai e filho se olham novamente. Era o primeiro gol do Real Potosí, aos 2 minutos de jogo.

domingo, 6 de abril de 2008

Seis meses

Completo hoje meio ano de Bolívia, desde que desembarquei em Santa Cruz sem saber muito bem como raios eu faria para ir até La Higuera no dia seguinte, para cobrir as celebrações de 40 anos da morte do Che.

Foram três dias muito cansativos, incluindo as quase 10 horas de viagem num ônibus precário por desfiladeiros convidativos e uma noite bastante mal dormida no depósito/quarto de hóspedes da casa de um morador do vilarejo.

Mas valeu muito a pena estar onde estava nessa importante data. Assim como valeu muito a pena esses seis meses por aqui (espero que os próximos seis sejam igualmente recompensadores).

Meio ano se foi, e a sensação é de que o tempo passou, ao mesmo tempo, muito rápido e demorado. Rápido porque os anos estão cada vez mais curtos. Demorado pela quantidade de experiências novas vividas.

Para comemorar, a visita do pai, outra ida a Tiwanaku e outro jogo do Bolívar no estádio, dessa vez com vitória.

Não poderia ter sido melhor.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Cinco anos de resistência



Vixe, vou falar um negócio. Ser mídia alternativa no Brasil não é nada fácil. Não tem dinheiro, não tem pessoal suficiente, não tem anúncio, e ainda precisa enfrentar a força tremenda da grande mídia, controlada por algumas poucas famílias.

Esperava-se que, com o governo Lula, tal realidade mudasse um pouco. A expectativa era que algum naco dos milhões e milhões de publicidade governamental (que engordam os cofres da Globo, Folha, Estado, Veja e cia) fosse direcionado para o fortalecimento da imprensa alternativa. Ledo e ivo engano.

Em relação às TVs, acho que ninguém tinha a ilusão que o sistema de concessões ia ser democratizado. E, claro, não só não foi como se está trabalhando para se consolidar ainda mais o poder das redes existentes, como no caso da TV Digital.

Por isso tudo, um jornal como o Brasil de Fato completar 5 anos de idade é digno de muita comemoração. Então, se você mora em São Paulo, ou perto, ou estiver de passagem por lá no dia 17, dê um pulo no Tuca, no ato político-cultural do aniversário do BF. Vão estar por lá João Pedro Stédile, Plinio Arruda Sampaio, Alípio Freire, José Arbex e outros. Com certeza vai ter muito violeiro também.

Prestigie!

Santa Cruz "socialista"


Ontem, Rubén Costas, o governador de Santa Cruz, disse em um comício que, a partir de 4 de maio, quando será realizado o referendo pela autonomia do departamento, "começará uma revolução cujo eixo será uma doutrina social e produtiva, no marco de um socialismo democrático e humanista".

Diante disso, só me resta um comentário: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

De novo: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

Uma última vez: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

ps: Vejam, acima, o naipe do cidadão. Chamá-lo de "coronel", no caso, não é nenhuma metáfora.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Ainda longe de uma revolução

O governo Evo teve uma perda considerável ontem. O porta-voz da presidência, Alex Contreras, pediu demissão. Era um cara bem importante, sempre estava na mídia fazendo declarações veementes em defesa do governo e contra a oposição.

Mas o pior foi a carta que ele leu no ato de demissão. Diz que no início se deu “passos firmes e altivos” em direção a “medidas estruturais em benefício das maiorias”, mas que, ao mesmo tempo, “descuidamos de grupinhos ligados à fracassada política neoliberal e também de inimigos internos que, agora, se converteram em um obstáculo ao processo de transformações”.

Engraçado que já ouvi tais observações diversas vezes, em entrevistas ou conversas informais com políticos, dirigentes de movimentos sociais etc que fazem críticas à esquerda contra o governo Evo.

Muitos me disseram que um dos principais problemas da falta de maiores avanços no país é que justamente o Evo estaria cercado por um grupo apegado ao poder e ligado aos governos anteriores, neoliberais. Uma “burguesia burocrática”.

Convenhamos. O governo Evo não é nenhuma revolução, como alguns defendem. É inegável que, simbolicamente, um indígena na presidência é algo espetacular. As simbologias podem não ter resultados práticos imediatos, mas têm um poder de ir criando mudanças na consciência coletiva que pode servir pra gerar algo consolidado no futuro.

No caso da vitória eleitoral do Evo, acho que ela ajuda a empoderar a maioria indígena do país, a fazê-la acreditar que é possível sim influir nas decisões que a afeta. A nova Constituição, por exemplo, é inovadora no sentido do reconhecimento dos direitos dos povos indígenas.

Mas não se limita a garantir o direito a, por exemplo, educação, emprego, saúde. Vai além. Garante a autonomia, o auto-governo, a justiça comunitária. Ou seja, reconhece que eles têm o direito de viver como viviam antes da invasão espanhola e do ataque a suas culturas. Esse aspecto, sim, pode ser considerado revolucionário.

No entanto, por outro lado, o novo texto ainda é liberal. Isso é reconhecido até por apoiadores do governo, como Lucila Choque, quem entrevistei sobre o assunto. Ao mesmo tempo, muitas medidas de Evo, ou a falta delas, ainda contribuem para manter o esquema Estado burguês – neoliberalismo – oligarquia latifundiária – transnacionais.

Um dos exemplos é a chamada nacionalização dos hidrocarbonetos. Para muitos, não teve nada de nacionalização, apenas um ajuste (importante, claro), nos impostos cobrados às petroleiras. Alguns dizem que, por meio de mecanismos fiscais, hoje o governo fica com muito menos do que se propaga.

Além disso, o dinheiro do gás ainda não se reverteu em fortalecimento da estatal boliviana, na industrialização do gás ou na criação de empregos. O pior é que a Bolívia segue enviando quantidades imensas do recurso à Argentina e, principalmente, ao Brasil (a pressão do Lula para tal é gigantesca). Enquanto isso, inúmeras comunidades rurais sobrevivem com energia à lenha.

O governo ainda promete tudo isso: fortalecer a estatal, industrializar o gás, garantir a soberania energética do país etc. Vamos ver se em 2008 pelo menos os primeiros passos serão dados nesse sentido.