Há alguns dias, começou a correr por alguns blogs e sites brasileiros a notícia de que um golpe civil estava em marcha na Bolívia. No dia 4, quinta-feira, o próprio Evo Morales disse o mesmo.
Bem, como moro na Bolívia há 11 meses, acho que posso contribuir com minha visão sobre o assunto.
Para mim, usar tal qualificação para o que está acontecendo aqui é alarmismo. Aliás, o que seria um golpe civil? A ocupação de instituições públicas regionais? Se for isso, então, de fato, um golpe civil está em marcha.
Mas golpe, seja civil, militar, ou cívico-militar, para mim, não é só isso. É derrubar o presidente, é passar a controlar o governo. E isso ainda está longe de acontecer (claro que posso queimar a língua amanhã).
O que está ocorrendo é grave, sim. Sem dúvidas. Os cívicos dos departamentos opositores estão tomando sedes de instituições presidenciais nas regiões, ameaçando e agredindo funcionários do governo, ocupando aeroportos etc. Além disso, não podemos nos esquecer do sempre poderoso suporte estadunidense à oposição.
Mas tais ações não possuem alcance para além dos próprios locais onde estão sendo feitas. Aliás, as maiores prejudicadas são justamente as regiões, com perdas econômicas e asfixia energética. A chance disso se espalhar pelo país através de um movimento que chegue a La Paz e derrube Evo é muito pequena. Além disso, no interior mesmo dos departamentos opositores o apoio ao presidente é grande.
Mas, mesmo que a chance de sucesso de um golpe civil seja pequena, essa é a intenção da oposição? Na minha opinião, não. Ora, a direita boliviana é racista, atrasada, autoritária, mas não é burra.
Eles sabem que o apoio a Evo é enorme, principalmente no ocidente, onde está a sede de governo. Sabem que o presidente é sustentado por fortes movimentos sociais, que estão dispostos a morrer por ele. Sabem também que as Forças Armadas estão com ele (embora nunca se deve confiar nisso). Sabem, ainda, que a conjuntura latino-americana mudou, e que um governo golpista obteria, hoje, o rechaço da maioria dos países vizinhos (mesmo com um possível apoio dos EUA).
O que eles querem, então? Mostrar força para obter concessões do governo, especialmente na questão das autonomias; impedir, a todo custo, a aprovação da nova Constituição; e, ao mesmo tempo, desestabilizar o governo o quanto puderem para que Evo, eventualmente, caia por gravidade.
Bem, se isso também pode ser considerado um golpe civil, então um golpe civil está em marcha na Bolívia desde janeiro de 2006, quando Evo tomou posse.
domingo, 7 de setembro de 2008
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
A análise política nas lentes de uma câmera indígena
Brasil de Fato, edição 275 (de 5 a 11 de junho de 2008)
No mesmo período do referendo sobre o estatuto autonômico do departamento boliviano do Beni – convocado em fevereiro e realizado em 1º de junho –, comunidades indígenas locais lançam filme de ficção sobre atuação dos grupos econômicos locais
Igor Ojeda
Correspondente do Brasil de Fato em La Paz (Bolívia)
No meio da selva, um fio grosso de sangue escorre por uma árvore. Embaixo, as gotas vermelhas tingem as folhas que forram o solo. A câmera se aproxima, e já se pode ver uma enorme “ferida” aberta no tronco da planta.
Na sua casa de parede de barro e teto de palha, uma senhora indígena, de uns 60 anos, acorda. Conta o sonho ao marido. Explica que viu uma árvore sangrando e proclama: “Algo vai acontecer na comunidade”. É 1996. O povoado chama-se Nueva Esperanza, localizado no departamento de Beni, na Amazônia boliviana.
Algumas horas mais tarde, a visão começa a se confirmar. Dois moradores, que haviam saído para caçar, voltam contando que viram uma empresa madeireira se instalando numa área não longe dali.
A partir daí, aparecem, pouco a pouco, os problemas. As grandes promessas da empresa aos indígenas, como a construção de estradas e repartição dos lucros, não são cumpridas. Dirigentes comunitários são subornados. Os habitantes da comunidade indígena são impedidos de circular livremente por certas áreas. O lixo e os peixes mortos se acumulam na margem do lago local. As árvores vão sendo uma a uma derrubadas.
Realidade
O filme “El Grito de la Selva” estreou em março, mas vem sendo pensado há muito mais tempo. No entanto, difícil é não fazer a vinculação com o referendo sobre o estatuto autonômico do Beni realizado no dia 1º de junho.
“[O filme mostra] uma realidade que tem a ver com o controle de poder, dos recursos naturais da região. Mostra como se mantém os latifúndios, e a concentração de poder nas mãos de poucas famílias, que controlam o governo departamental e as prefeituras”, explica o cineasta Iván Sanjinés, diretor do Centro de Formação e Realização Cinematográfica (Cefrec) e membro da equipe de realização da película.
A madeireira, que atua como se fosse dona das terras indígenas, destrói o meio-ambiente e usa o poder econômico para corromper líderes comunitários e para ter políticos poderosos e a polícia ao seu lado, seria a representação dos redatores do estatuto autonômico. Não só do Beni, como também de Santa Cruz, Pando e Tarija. “É uma história que faz referência ao passado, mas a situação hoje continua a mesma”, lamenta o cineasta.
E, para contar essa realidade, ninguém melhor que os que mais sofrem com ela. O argumento, o roteiro e a direção de “El Grito de la Selva” são de autoria dos próprios indígenas, e trabalhados de forma coletiva – com o apoio da equipe do Cefrec.
Desconhecimento
“Foi um processo muito participativo, feito com muito ânimo, e, sobretudo, com o compromisso de fazer conhecer sua realidade”, diz Iván. “A possibilidade de afirmar sua história é muito importante para eles, do que é um povoado indígena, de como isso pode projetar-se para fora, porque é uma situação desconhecida”.
Tudo começou há cerca de dez anos, quando teve início, através do Cefrec, um trabalho de capacitação de comunicadores oriundos (e eleitos para tal) de comunidades da Amazônia boliviana. Registros da comunidade, das organizações, em vídeo e rádio, eram produzidos.
Até que Silvia González, uma das participantes, trouxe a idéia, baseada em fatos reais, para um filme. “A história de uma líder de sua região que enfrentou as empresas madeireiras, e que recuperava e difundia o conhecimento tradicional indígena”, conta Iván.
A partir daí, outras idéias vindas de outras regiões foram sendo incorporadas e decidiu-se que o filme seria uma ficção. Uma oficina de roteiro foi realizada, e a idéia inicial começou a ganhar forma em cenas. “Logo, a película começou a ficar mais longa. Tinha muitas histórias, tocava-se em muitos assuntos”. O curta virou longa-metragem.
Machismo
O elenco, em sua maior parte, é formado também pelos indígenas, sobretudo de duas comunidades: uma de guarayos, outra de mojeños. “Havia pessoas que não tinham atuado nunca. Então foi feito um treinamento. Uns têm maior capacidade dramática, e outros fazem o melhor que podem, mas todos estavam com vontade de pôr seu maior esforço, porque era a primeira vez que se fazia um filme na Amazônia boliviana com atores indígenas”, esclarece Iván.
Mas não são apenas os problemas das comunidades indígenas do Beni com os grupos econômicos da região que são retratados no filme. Em meio aos confrontos com a empresa madeireira, percebe-se o machismo fortemente presente na comunidade, retratado através da violência doméstica e na pouca força que a voz das mulheres tem nas assembléias locais.
“Não é um tema simples. Porque, quando se fala dos indígenas, se pensa que todos são bons, protegem a natureza etc. Mas, na verdade, dentro dessas comunidades, também existem situações que permeiam a sociedade em geral. O machismo, a corrupção de dirigentes. Nem tudo é de uma cor ou de outra. É interessante como uma comunidade pode ter a capacidade de refletir isso e dizer: ‘bem, isso não é só para mostrar, mas também para analisar’. A preocupação de mostrar para poder refletir e fazer algo a respeito”, analisa Iván.
No mesmo período do referendo sobre o estatuto autonômico do departamento boliviano do Beni – convocado em fevereiro e realizado em 1º de junho –, comunidades indígenas locais lançam filme de ficção sobre atuação dos grupos econômicos locais
Igor Ojeda
Correspondente do Brasil de Fato em La Paz (Bolívia)
No meio da selva, um fio grosso de sangue escorre por uma árvore. Embaixo, as gotas vermelhas tingem as folhas que forram o solo. A câmera se aproxima, e já se pode ver uma enorme “ferida” aberta no tronco da planta.
Na sua casa de parede de barro e teto de palha, uma senhora indígena, de uns 60 anos, acorda. Conta o sonho ao marido. Explica que viu uma árvore sangrando e proclama: “Algo vai acontecer na comunidade”. É 1996. O povoado chama-se Nueva Esperanza, localizado no departamento de Beni, na Amazônia boliviana.
Algumas horas mais tarde, a visão começa a se confirmar. Dois moradores, que haviam saído para caçar, voltam contando que viram uma empresa madeireira se instalando numa área não longe dali.
A partir daí, aparecem, pouco a pouco, os problemas. As grandes promessas da empresa aos indígenas, como a construção de estradas e repartição dos lucros, não são cumpridas. Dirigentes comunitários são subornados. Os habitantes da comunidade indígena são impedidos de circular livremente por certas áreas. O lixo e os peixes mortos se acumulam na margem do lago local. As árvores vão sendo uma a uma derrubadas.
Realidade
O filme “El Grito de la Selva” estreou em março, mas vem sendo pensado há muito mais tempo. No entanto, difícil é não fazer a vinculação com o referendo sobre o estatuto autonômico do Beni realizado no dia 1º de junho.
“[O filme mostra] uma realidade que tem a ver com o controle de poder, dos recursos naturais da região. Mostra como se mantém os latifúndios, e a concentração de poder nas mãos de poucas famílias, que controlam o governo departamental e as prefeituras”, explica o cineasta Iván Sanjinés, diretor do Centro de Formação e Realização Cinematográfica (Cefrec) e membro da equipe de realização da película.
A madeireira, que atua como se fosse dona das terras indígenas, destrói o meio-ambiente e usa o poder econômico para corromper líderes comunitários e para ter políticos poderosos e a polícia ao seu lado, seria a representação dos redatores do estatuto autonômico. Não só do Beni, como também de Santa Cruz, Pando e Tarija. “É uma história que faz referência ao passado, mas a situação hoje continua a mesma”, lamenta o cineasta.
E, para contar essa realidade, ninguém melhor que os que mais sofrem com ela. O argumento, o roteiro e a direção de “El Grito de la Selva” são de autoria dos próprios indígenas, e trabalhados de forma coletiva – com o apoio da equipe do Cefrec.
Desconhecimento
“Foi um processo muito participativo, feito com muito ânimo, e, sobretudo, com o compromisso de fazer conhecer sua realidade”, diz Iván. “A possibilidade de afirmar sua história é muito importante para eles, do que é um povoado indígena, de como isso pode projetar-se para fora, porque é uma situação desconhecida”.
Tudo começou há cerca de dez anos, quando teve início, através do Cefrec, um trabalho de capacitação de comunicadores oriundos (e eleitos para tal) de comunidades da Amazônia boliviana. Registros da comunidade, das organizações, em vídeo e rádio, eram produzidos.
Até que Silvia González, uma das participantes, trouxe a idéia, baseada em fatos reais, para um filme. “A história de uma líder de sua região que enfrentou as empresas madeireiras, e que recuperava e difundia o conhecimento tradicional indígena”, conta Iván.
A partir daí, outras idéias vindas de outras regiões foram sendo incorporadas e decidiu-se que o filme seria uma ficção. Uma oficina de roteiro foi realizada, e a idéia inicial começou a ganhar forma em cenas. “Logo, a película começou a ficar mais longa. Tinha muitas histórias, tocava-se em muitos assuntos”. O curta virou longa-metragem.
Machismo
O elenco, em sua maior parte, é formado também pelos indígenas, sobretudo de duas comunidades: uma de guarayos, outra de mojeños. “Havia pessoas que não tinham atuado nunca. Então foi feito um treinamento. Uns têm maior capacidade dramática, e outros fazem o melhor que podem, mas todos estavam com vontade de pôr seu maior esforço, porque era a primeira vez que se fazia um filme na Amazônia boliviana com atores indígenas”, esclarece Iván.
Mas não são apenas os problemas das comunidades indígenas do Beni com os grupos econômicos da região que são retratados no filme. Em meio aos confrontos com a empresa madeireira, percebe-se o machismo fortemente presente na comunidade, retratado através da violência doméstica e na pouca força que a voz das mulheres tem nas assembléias locais.
“Não é um tema simples. Porque, quando se fala dos indígenas, se pensa que todos são bons, protegem a natureza etc. Mas, na verdade, dentro dessas comunidades, também existem situações que permeiam a sociedade em geral. O machismo, a corrupção de dirigentes. Nem tudo é de uma cor ou de outra. É interessante como uma comunidade pode ter a capacidade de refletir isso e dizer: ‘bem, isso não é só para mostrar, mas também para analisar’. A preocupação de mostrar para poder refletir e fazer algo a respeito”, analisa Iván.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Ele nunca falha
Algumas dezenas de passos para fora de casa, e lá está ele. Enorme, imponente, quase todo de branco (ou de rosa).
Como pode, pensa o forasteiro, algo assim em plena capital de um país? Em meio a asfaltos, carros, prédios e um emaranhado de fios elétricos?
Mas ele está sempre lá, tentando se desvencilhar dos edifícios que o encobrem, pronto para aliviar um pouco a vista de quem vive o cotidiano urbano de La Paz.
O Illimani vai deixar saudade.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Agora vai?
Abaixo, uma entrevista feita logo depois do referendo sobre o estatuto autonômico de Santa Cruz e a convocação, por parte do Senado, do referendo revogatório realizado agora há pouco.
É interessante ver como o entrevistado achava que o referendo não mudaria nada, ou muito pouco. Aliás, a maioria dos analistas (e eu concordava com eles) pensava assim. Mas o fato é que Evo saiu bastante legitimado, com dois terços de apoio, e se mostrou forte também nas regiões onde se esperava seu fracasso.
(Aliás, a consulta demonstrou que a chamada meia-lua como tal, ou seja, como um espaço geográfico formado por quatro departamentos coesos que se opunham ao governo, não existe, já que Evo praticamente só perdeu nas capitais destes departamentos, ganhando com folga no campo)
Em suma, a vitória de Evo pode não ter sido tão retumbante como pinta seus apoiadores, já que alguns governadores também se fortaleceram regionalmente. Mas o fato de ter conseguido dois terços de apoio serviu de legitimização para a convocação do referendo sobre a nova Constituição, que provavelmente sairá vitoriosa.
Ou seja, depois do referendo revogatório, a situação política mudou sim. E acredito que consideravelmente em favor do governo.
Brasil de Fato, edição 273 (de 22 a 28 de maio)
“A direita aposta no desgaste de Evo”
Para constituinte do MAS, partido de Evo Morales, a oposição aprovou o referendo revogatório no Senado porque não sabia o que fazer depois da consulta sobre o estatuto autonômico de Santa Cruz
Igor Ojeda
Correspondente do Brasil de Fato em La Paz (Bolívia)
Passado o referendo sobre o estatuto autonômico do departamento de Santa Cruz, realizado em 4 de maio, a oposição boliviana lançou mão de mais uma cartada. Outra consulta: a revogatória de mandato dos cargos do presidente, vice-presidente, e dos governadores, aprovada pelo Senado (de maioria oposicionista) no dia 8 e promulgada por Evo Morales no dia 12.
“A direita precisava ter uma agenda para depois de 4 de maio. Não sabia o que fazer. De maneira imediata, não poderia implantar as autonomias, pois não tem o controle do Estado, do Tesouro Geral da Nação. (...) Estão apostando numa perspectiva de desgaste do governo, de ganhar o referendo revogatório”, opina o deputado constituinte Raúl Prada, do Movimiento al Socialismo (MAS, partido no governo), em entrevista ao Brasil de Fato.
No entanto, a nova jogada provocou fissuras entre os opositores do presidente Evo Morales. A iniciativa foi duramente criticada pelos cívicos e governadores opositores, que qualificaram a aprovação como um “grave erro” e uma “estupidez política”. O temor é o de que Evo Morales permaneça no cargo e que alguns dos governadores caiam. No dia 15, foi a vez do governador de Santa Cruz, Rubén Costas, fazer sua jogada, ao promulgar uma lei que pôs em vigência o estatuto autonômico do departamento. A norma havia sido aprovada pela Assembléia Legislativa Departamental, designada por Costas, em dezembro, para redigir o estatuto.
De acordo com a lei, entre outras coisas, o departamento de Santa Cruz se chamará agora Departamento Autônomo de Santa Cruz. No dia anterior, o assessor crucenho de hidrocarbonetos e mineração, Juan Padilla, já havia afirmado que o governo departamental reterá os royalties pagos pelas empresas exploradoras de petróleo e gás da região.
No entanto, de acordo com o Executivo boliviano, Santa Cruz não pode fazer isso, já que os royalties e toda a administração econômica do país estão centralizados no governo nacional.
Por essa razão, para Raúl Prada, os referendos sobre os estatutos autonômicos serão usados como carta de negociação, uma vez que não são aplicáveis. Para ele, os governadores só aceitarão negociar após a realização de todas as consultas (em Beni e Pando, no dia 1º de junho, e em Tarija, em 22 de junho).
O constituinte do MAS vê três cenários futuros para a Bolívia: o início de enfrentamentos entre as duas forças, um diálogo infrutífero e infinito e um acordo entre o governo e os setores produtivos da direita.
QUEM É
O sociólogo Raúl Prada é deputado constituinte pelo Movimiento Al Socialismo (MAS, partido no governo) e integrante do Comuna, grupo de intelectuais organizado pelo vice-presidente do país, Álvaro García Linera.
Brasil de Fato – A oposição disse que o referendo sobre o estatuto autonômico foi uma vitória retumbante. O governo disse que foi um grande fracasso das autoridades cruceñas. Qual a sua opinião?
Raúl Prada – Eles estão usando o referendo para a negociação, porque os estatutos autonômicos não os servem, uma vez que não possuem caráter juridicamente vinculante. Para viabilizarem as autonomias, necessitam do novo texto constitucional, justamente o texto que rechaçam, não aceitam. A nova Constituição tem a atribuição de aceitar as autonomias, com suas competências definidas. Então, esse é um referendo cheio de contradições. Houve uma notória abstenção, de quase 40%, enquanto 15% votaram pelo “não”. Isso mostra que é um referendo sem a legitimidade correspondente. Mas o fato de que o levaram a cabo, e de que tenham tido a aprovação de 85% dos que votaram, lhes dá a possibilidade de uma carta de negociação. Depois do referendo, o governo chamou ao diálogo, mas os governadores só querem conversar depois da realização de todas as consultas sobre os estatutos autonômicos dos departamentos. O governo ofereceu inclusive discutir o texto constitucional para se chegar a um consenso sobre o tema das competências. Mas não é só isso está em questão. O problema mais importante não são as autonomias, e sim as terras. Estamos falando de uma situação em que 9% controlam mais ou menos 70% das terras cultiváveis do país. A lei de terras atual determina que se pode redistribuí-las, e transferir ao Estado as terras em excesso. A nova Constituição leva em suas entranhas a reforma agrária, de uma maneira muito mais clara. Acredito que, enquanto não se resolva o problema da terra, nada se resolva. Primeiro, deve-se resolver esta questão, e depois as autonomias. Veremos se é possível um acordo com os empresários. O governo está disposto a aceitar a extensão produtiva da terra. Mas não a improdutiva.
Mas qual a possibilidade de se chegar a um acordo nesse tema? Parece muito difícil...
É muito difícil. Há três cenários possíveis para o futuro. Um é o do conflito, das medidas de força. E o enfrentamento pode vir por decisão do governo, se declarar um estado de sítio departamental, ou dos movimentos sociais, caso resolvam mobilizar-se a Santa Cruz. O segundo cenário é o do diálogo de nunca acabar, de desgaste mútuo. E o terceiro é uma pequena possibilidade de se chegar a um acordo, se as forças da direita se dividirem, ou seja, se um acordo for feito com alguns setores produtivos, e não com os improdutivos. Nesse caso, os latifúndios improdutivos vão ter que ser afetados.
Quais são as origens da atual crise política? Como as coisas chegaram a esse ponto?
Não podemos esquecer da história recente dos movimentos sociais, de 2000 a 2005. Eles transformaram o cenário político de tal maneira que nos levaram a duas palavras de ordem importantes: a nacionalização dos hidrocarbonetos e a convocatória da Assembléia Constituinte. Colocaram em pauta, de maneira aberta, a luta de classes e a luta de nações. Ou seja, as nacionalidades indígenas originárias e camponesas em contraposição a uma elite crioula [filhos de espanhóis nascidos na América] que estava administrando o país. A situação se consolida com a chegada de Evo Morales ao governo e o cumprimento da nacionalização dos hidrocarbonetos e da convocatória da Assembléia Constituinte. Ou seja, se inicia um processo de transformações estruturais que está afetando definitivamente esse setor oligárquico, proprietário de terras, regionalizado. A situação de conflito se traslada ao cenário de governo, e dá lugar a resistências das oligarquias regionalizadas. É um franco processo de motim por parte da direita, que definiu um programa de desgaste político do governo boliviano.
Dentro de um dos cenários futuros propostos anteriormente, o do enfrentamento, o senhor acredita que pode resultar numa guerra civil? Existe esse risco?
Existe um risco. Se o Exército se divide, pode ocorrer uma guerra civil. Mas isso está difícil. No momento, o Exército está bastante fiel e vinculado ao governo. Fez críticas aos estatutos autonômicos, dizendo que eles põem em risco a unidade territorial do país. Por isso, o mais provável é que se chegue a um enfrentamento, mas não a uma guerra civil. O governo está apostando no cenário do diálogo. Mas não é a mesma aposta dos movimentos sociais. Estes querem mobilizar-se, tomar Santa Cruz. No entanto, o governo tem muita ascendência sobre as organizações e pode controlar sua capacidade de mobilização.
Mas se pode chegar a um ponto em que o governo não consiga mais controlar os movimentos?
Sim, pode chegar a essa situação. Mas, se prestamos atenção no que está acontecendo hoje... os movimentos sociais decidiram ir a Santa Cruz em 4 de maio para frearem o referendo. O governo lhes pediu que não fossem. Então os movimentos optaram por se mobilizar em El Alto, La Paz e Cochabamba, com grandes concentrações. Isso mostra que as organizações ouvem o governo. Mas podemos chegar à situação de extrapolação. Por exemplo, quando o Congresso definiu que os referendos constitucionais iam acontecer em 4 de maio, houve um cerco ao Congresso por parte dos movimentos. Nesse caso, foi iniciativa deles próprios. E quem retrocedeu nisso foi o próprio governo, através da Corte Nacional Eleitoral, que se declarou incompetente para organizar todos os referendos juntos e declarou ilegais os referendos sobre os estatutos autonômicos. E trasladou a responsabilidade da nova convocatória dos referendos ao Congresso. Então, estamos definindo outras coisas antes do referendo constitucional. Por que isso? Acho que o governo está fazendo um cálculo. É provável que ganhemos o referendo, que a nova Constituição seja aprovada. Mas, pode-se ganhar por maioria absoluta: 50% mais um. 49% pode não votar ou votar contra. O governo não quer ganhar nessas condições. Quer chegar a 70%, 80%. Para isso, precisa de um pacto político. Então, o governo está apostando por isso.
Por que a oposição aprovou o referendo revogatório de mandato?
A direita está jogando para desgastar o processo. Ela precisava ter uma agenda para depois de 4 de maio. Não sabia o que fazer depois. De maneira imediata, não poderia implantar as autonomias, pois não tem o controle do Estado, do Tesouro Geral da Nação. Não tem controle administrativo. Teria que esperar o novo texto constitucional. A direita precisou apostar numa carta complicada para eles, porque é provável que alguns governadores saiam. È improvável que o Evo saia. No entanto, estão apostando nisso, numa perspectiva de desgaste do governo, de ganhar o referendo revogatório. Jogaram a sorte. Porque esgotou sua agenda política. O que acontece é que a consulta, possivelmente, não mudará as coisas. O Evo fica, alguns governadores ficam, outros saem. Então, vai ficar num status quo. Mas vai servir para reforçar o Evo e também outros governadores.
É interessante ver como o entrevistado achava que o referendo não mudaria nada, ou muito pouco. Aliás, a maioria dos analistas (e eu concordava com eles) pensava assim. Mas o fato é que Evo saiu bastante legitimado, com dois terços de apoio, e se mostrou forte também nas regiões onde se esperava seu fracasso.
(Aliás, a consulta demonstrou que a chamada meia-lua como tal, ou seja, como um espaço geográfico formado por quatro departamentos coesos que se opunham ao governo, não existe, já que Evo praticamente só perdeu nas capitais destes departamentos, ganhando com folga no campo)
Em suma, a vitória de Evo pode não ter sido tão retumbante como pinta seus apoiadores, já que alguns governadores também se fortaleceram regionalmente. Mas o fato de ter conseguido dois terços de apoio serviu de legitimização para a convocação do referendo sobre a nova Constituição, que provavelmente sairá vitoriosa.
Ou seja, depois do referendo revogatório, a situação política mudou sim. E acredito que consideravelmente em favor do governo.
Brasil de Fato, edição 273 (de 22 a 28 de maio)
“A direita aposta no desgaste de Evo”
Para constituinte do MAS, partido de Evo Morales, a oposição aprovou o referendo revogatório no Senado porque não sabia o que fazer depois da consulta sobre o estatuto autonômico de Santa Cruz
Igor Ojeda
Correspondente do Brasil de Fato em La Paz (Bolívia)
Passado o referendo sobre o estatuto autonômico do departamento de Santa Cruz, realizado em 4 de maio, a oposição boliviana lançou mão de mais uma cartada. Outra consulta: a revogatória de mandato dos cargos do presidente, vice-presidente, e dos governadores, aprovada pelo Senado (de maioria oposicionista) no dia 8 e promulgada por Evo Morales no dia 12.
“A direita precisava ter uma agenda para depois de 4 de maio. Não sabia o que fazer. De maneira imediata, não poderia implantar as autonomias, pois não tem o controle do Estado, do Tesouro Geral da Nação. (...) Estão apostando numa perspectiva de desgaste do governo, de ganhar o referendo revogatório”, opina o deputado constituinte Raúl Prada, do Movimiento al Socialismo (MAS, partido no governo), em entrevista ao Brasil de Fato.
No entanto, a nova jogada provocou fissuras entre os opositores do presidente Evo Morales. A iniciativa foi duramente criticada pelos cívicos e governadores opositores, que qualificaram a aprovação como um “grave erro” e uma “estupidez política”. O temor é o de que Evo Morales permaneça no cargo e que alguns dos governadores caiam. No dia 15, foi a vez do governador de Santa Cruz, Rubén Costas, fazer sua jogada, ao promulgar uma lei que pôs em vigência o estatuto autonômico do departamento. A norma havia sido aprovada pela Assembléia Legislativa Departamental, designada por Costas, em dezembro, para redigir o estatuto.
De acordo com a lei, entre outras coisas, o departamento de Santa Cruz se chamará agora Departamento Autônomo de Santa Cruz. No dia anterior, o assessor crucenho de hidrocarbonetos e mineração, Juan Padilla, já havia afirmado que o governo departamental reterá os royalties pagos pelas empresas exploradoras de petróleo e gás da região.
No entanto, de acordo com o Executivo boliviano, Santa Cruz não pode fazer isso, já que os royalties e toda a administração econômica do país estão centralizados no governo nacional.
Por essa razão, para Raúl Prada, os referendos sobre os estatutos autonômicos serão usados como carta de negociação, uma vez que não são aplicáveis. Para ele, os governadores só aceitarão negociar após a realização de todas as consultas (em Beni e Pando, no dia 1º de junho, e em Tarija, em 22 de junho).
O constituinte do MAS vê três cenários futuros para a Bolívia: o início de enfrentamentos entre as duas forças, um diálogo infrutífero e infinito e um acordo entre o governo e os setores produtivos da direita.
QUEM É
O sociólogo Raúl Prada é deputado constituinte pelo Movimiento Al Socialismo (MAS, partido no governo) e integrante do Comuna, grupo de intelectuais organizado pelo vice-presidente do país, Álvaro García Linera.
Brasil de Fato – A oposição disse que o referendo sobre o estatuto autonômico foi uma vitória retumbante. O governo disse que foi um grande fracasso das autoridades cruceñas. Qual a sua opinião?
Raúl Prada – Eles estão usando o referendo para a negociação, porque os estatutos autonômicos não os servem, uma vez que não possuem caráter juridicamente vinculante. Para viabilizarem as autonomias, necessitam do novo texto constitucional, justamente o texto que rechaçam, não aceitam. A nova Constituição tem a atribuição de aceitar as autonomias, com suas competências definidas. Então, esse é um referendo cheio de contradições. Houve uma notória abstenção, de quase 40%, enquanto 15% votaram pelo “não”. Isso mostra que é um referendo sem a legitimidade correspondente. Mas o fato de que o levaram a cabo, e de que tenham tido a aprovação de 85% dos que votaram, lhes dá a possibilidade de uma carta de negociação. Depois do referendo, o governo chamou ao diálogo, mas os governadores só querem conversar depois da realização de todas as consultas sobre os estatutos autonômicos dos departamentos. O governo ofereceu inclusive discutir o texto constitucional para se chegar a um consenso sobre o tema das competências. Mas não é só isso está em questão. O problema mais importante não são as autonomias, e sim as terras. Estamos falando de uma situação em que 9% controlam mais ou menos 70% das terras cultiváveis do país. A lei de terras atual determina que se pode redistribuí-las, e transferir ao Estado as terras em excesso. A nova Constituição leva em suas entranhas a reforma agrária, de uma maneira muito mais clara. Acredito que, enquanto não se resolva o problema da terra, nada se resolva. Primeiro, deve-se resolver esta questão, e depois as autonomias. Veremos se é possível um acordo com os empresários. O governo está disposto a aceitar a extensão produtiva da terra. Mas não a improdutiva.
Mas qual a possibilidade de se chegar a um acordo nesse tema? Parece muito difícil...
É muito difícil. Há três cenários possíveis para o futuro. Um é o do conflito, das medidas de força. E o enfrentamento pode vir por decisão do governo, se declarar um estado de sítio departamental, ou dos movimentos sociais, caso resolvam mobilizar-se a Santa Cruz. O segundo cenário é o do diálogo de nunca acabar, de desgaste mútuo. E o terceiro é uma pequena possibilidade de se chegar a um acordo, se as forças da direita se dividirem, ou seja, se um acordo for feito com alguns setores produtivos, e não com os improdutivos. Nesse caso, os latifúndios improdutivos vão ter que ser afetados.
Quais são as origens da atual crise política? Como as coisas chegaram a esse ponto?
Não podemos esquecer da história recente dos movimentos sociais, de 2000 a 2005. Eles transformaram o cenário político de tal maneira que nos levaram a duas palavras de ordem importantes: a nacionalização dos hidrocarbonetos e a convocatória da Assembléia Constituinte. Colocaram em pauta, de maneira aberta, a luta de classes e a luta de nações. Ou seja, as nacionalidades indígenas originárias e camponesas em contraposição a uma elite crioula [filhos de espanhóis nascidos na América] que estava administrando o país. A situação se consolida com a chegada de Evo Morales ao governo e o cumprimento da nacionalização dos hidrocarbonetos e da convocatória da Assembléia Constituinte. Ou seja, se inicia um processo de transformações estruturais que está afetando definitivamente esse setor oligárquico, proprietário de terras, regionalizado. A situação de conflito se traslada ao cenário de governo, e dá lugar a resistências das oligarquias regionalizadas. É um franco processo de motim por parte da direita, que definiu um programa de desgaste político do governo boliviano.
Dentro de um dos cenários futuros propostos anteriormente, o do enfrentamento, o senhor acredita que pode resultar numa guerra civil? Existe esse risco?
Existe um risco. Se o Exército se divide, pode ocorrer uma guerra civil. Mas isso está difícil. No momento, o Exército está bastante fiel e vinculado ao governo. Fez críticas aos estatutos autonômicos, dizendo que eles põem em risco a unidade territorial do país. Por isso, o mais provável é que se chegue a um enfrentamento, mas não a uma guerra civil. O governo está apostando no cenário do diálogo. Mas não é a mesma aposta dos movimentos sociais. Estes querem mobilizar-se, tomar Santa Cruz. No entanto, o governo tem muita ascendência sobre as organizações e pode controlar sua capacidade de mobilização.
Mas se pode chegar a um ponto em que o governo não consiga mais controlar os movimentos?
Sim, pode chegar a essa situação. Mas, se prestamos atenção no que está acontecendo hoje... os movimentos sociais decidiram ir a Santa Cruz em 4 de maio para frearem o referendo. O governo lhes pediu que não fossem. Então os movimentos optaram por se mobilizar em El Alto, La Paz e Cochabamba, com grandes concentrações. Isso mostra que as organizações ouvem o governo. Mas podemos chegar à situação de extrapolação. Por exemplo, quando o Congresso definiu que os referendos constitucionais iam acontecer em 4 de maio, houve um cerco ao Congresso por parte dos movimentos. Nesse caso, foi iniciativa deles próprios. E quem retrocedeu nisso foi o próprio governo, através da Corte Nacional Eleitoral, que se declarou incompetente para organizar todos os referendos juntos e declarou ilegais os referendos sobre os estatutos autonômicos. E trasladou a responsabilidade da nova convocatória dos referendos ao Congresso. Então, estamos definindo outras coisas antes do referendo constitucional. Por que isso? Acho que o governo está fazendo um cálculo. É provável que ganhemos o referendo, que a nova Constituição seja aprovada. Mas, pode-se ganhar por maioria absoluta: 50% mais um. 49% pode não votar ou votar contra. O governo não quer ganhar nessas condições. Quer chegar a 70%, 80%. Para isso, precisa de um pacto político. Então, o governo está apostando por isso.
Por que a oposição aprovou o referendo revogatório de mandato?
A direita está jogando para desgastar o processo. Ela precisava ter uma agenda para depois de 4 de maio. Não sabia o que fazer depois. De maneira imediata, não poderia implantar as autonomias, pois não tem o controle do Estado, do Tesouro Geral da Nação. Não tem controle administrativo. Teria que esperar o novo texto constitucional. A direita precisou apostar numa carta complicada para eles, porque é provável que alguns governadores saiam. È improvável que o Evo saia. No entanto, estão apostando nisso, numa perspectiva de desgaste do governo, de ganhar o referendo revogatório. Jogaram a sorte. Porque esgotou sua agenda política. O que acontece é que a consulta, possivelmente, não mudará as coisas. O Evo fica, alguns governadores ficam, outros saem. Então, vai ficar num status quo. Mas vai servir para reforçar o Evo e também outros governadores.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
A força que vem do Trópico
Aqui, o comecinho da minha matéria sobre os cocaleros do Chapare. Se quiser ela inteira, compre a edição 287 do Brasil de Fato ou espere que a publicarei aqui em... pelo menos, um mês. Hehe.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Atenham-se a seus devidos lugares!
Já faz algum tempo que jornais, revistas, TVs e sites da grande imprensa brasileira, em matérias, editoriais, artigos ou panfletos (no caso da Veja), “denunciam” o fato do MST já não lutar apenas por reforma agrária. O movimento teria se “desviado” de suas reivindicações originais para atacar o agronegócio, as transnacionais, o neoliberalismo, o capitalismo etc.
Diante disso, fica a importante pergunta: E daí??? Um movimento social não pode evoluir no seu projeto político? Ainda é crime (lembrando a Guerra Fria) ser anticapitalista?
A “denúncia” tem uma simples razão de ser: o rechaço da imprensa do Brasil é pelo fato do MST ousar sair do âmbito de atuação permitido pelo famoso “Estado Democrático de Direito” e passar a (deus me livre!) contestar o sagrado sistema democrático-capitalista-burguês.
A democracia representativa ocidental só permite as mobilizações por pautas específicas. E, claro, desde que não “perturbem a ordem”. Já viram algo mais ridículo do que aquela determinação, em São Paulo, de proibir manifestação na Avenida Paulista, e de só permitir protestos na praça Campos de Bagatele?
Ou seja, protesto tem que ser onde, quando e como o Estado bem desejar.
Mas o pior efeito da “denúncia” da imprensa contra o MST é a descontextualização da realidade política, social e econômica em que vivemos. É esconder que tudo está ligado. É ignorar (por ingenuidade ou má-fé) que, hoje, a reforma agrária e a justiça social no campo não são possíveis no neoliberalismo e nos marcos de um modelo econômico que privilegia as transnacionais e o latifúndio exportador.
O MST percebeu isso. Mas a imprensa não vê e não quer ver. Afinal, colocar tudo no mesmo contexto seria um fermento perigoso para uma cada vez maior contestação ao sistema.
Mas pensei nisso tudo porque acabei de ter uma experiência interessante com os cocaleros do Chapare.
Lá pro fim dos anos 80, começo dos 90, eles foram muito reprimidos pelos governos de turno por causa das plantações de coca. E foi quando ganharam força como movimento social. Os sindicatos lutavam por duas coisas: pela folha de coca, e pela terra.
Cocalero mexendo a coca para
ajudar na secagem
Mas, lá por 95, internamente e em articulações com movimentos de outras partes da Bolívia, passaram a incluir na pauta reivindicações nacionais, principalmente a nacionalização do gás. E, em conseqüência disso, resolveram criar um instrumento político para lutar por suas demandas, inclusive a nível institucional.
Daí surgiu o MAS, que não é um partido tradicional. Está mais pra sindicato e movimento social, apesar dos riscos e das pequenas mostras de burocratização desde que chegou no governo.
Mas o fato é: se os cocaleros tivessem permanecido com suas pautas específicas, locais, muito provavelmente a Bolívia hoje não estivesse vivendo o processo que está vivendo, de mudanças políticas e sociais, com todas suas limitações e contradições.
O governo Evo está longe de ser revolucionário, mas não podemos ter dúvidas de que traz avanços bem importantes. A gritaria da oligarquia não é a toa.
Diante disso, fica a importante pergunta: E daí??? Um movimento social não pode evoluir no seu projeto político? Ainda é crime (lembrando a Guerra Fria) ser anticapitalista?
A “denúncia” tem uma simples razão de ser: o rechaço da imprensa do Brasil é pelo fato do MST ousar sair do âmbito de atuação permitido pelo famoso “Estado Democrático de Direito” e passar a (deus me livre!) contestar o sagrado sistema democrático-capitalista-burguês.
A democracia representativa ocidental só permite as mobilizações por pautas específicas. E, claro, desde que não “perturbem a ordem”. Já viram algo mais ridículo do que aquela determinação, em São Paulo, de proibir manifestação na Avenida Paulista, e de só permitir protestos na praça Campos de Bagatele?
Ou seja, protesto tem que ser onde, quando e como o Estado bem desejar.
Mas o pior efeito da “denúncia” da imprensa contra o MST é a descontextualização da realidade política, social e econômica em que vivemos. É esconder que tudo está ligado. É ignorar (por ingenuidade ou má-fé) que, hoje, a reforma agrária e a justiça social no campo não são possíveis no neoliberalismo e nos marcos de um modelo econômico que privilegia as transnacionais e o latifúndio exportador.
O MST percebeu isso. Mas a imprensa não vê e não quer ver. Afinal, colocar tudo no mesmo contexto seria um fermento perigoso para uma cada vez maior contestação ao sistema.
Mas pensei nisso tudo porque acabei de ter uma experiência interessante com os cocaleros do Chapare.
Lá pro fim dos anos 80, começo dos 90, eles foram muito reprimidos pelos governos de turno por causa das plantações de coca. E foi quando ganharam força como movimento social. Os sindicatos lutavam por duas coisas: pela folha de coca, e pela terra.
ajudar na secagem
Mas, lá por 95, internamente e em articulações com movimentos de outras partes da Bolívia, passaram a incluir na pauta reivindicações nacionais, principalmente a nacionalização do gás. E, em conseqüência disso, resolveram criar um instrumento político para lutar por suas demandas, inclusive a nível institucional.
Daí surgiu o MAS, que não é um partido tradicional. Está mais pra sindicato e movimento social, apesar dos riscos e das pequenas mostras de burocratização desde que chegou no governo.
Mas o fato é: se os cocaleros tivessem permanecido com suas pautas específicas, locais, muito provavelmente a Bolívia hoje não estivesse vivendo o processo que está vivendo, de mudanças políticas e sociais, com todas suas limitações e contradições.
O governo Evo está longe de ser revolucionário, mas não podemos ter dúvidas de que traz avanços bem importantes. A gritaria da oligarquia não é a toa.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Bolívia – onde a geografia se faz história através da política
Artigo muito bom do geógrafo Carlos Walter Porto-Gonçalves no site do Brasil de Fato.
As vozes dissonantes de Santa Cruz
Brasil de Fato, edição 271 (de 8 a 14 de maio de 2008)
Embora passe a imagem de apoio unânime ao estatuto, departamento opositor é palco de resistência à oligarquia local
Igor Ojeda
Enviado especial a Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)
Sob um Cristo Redentor que leva seus braços para o alto, Rubén Costas, o governador de Santa Cruz, discursa. “No dia 4 de maio, diremos um ´sim` à democracia, à liberdade, a nossa forma de ser. A autonomia tem razão histórica e é direito fundamental de sermos donos de nosso destino. É parte essencial de nossa liberdade”.
É dia 30 de abril, data do encerramento oficial da campanha em favor do referendo sobre o estatuto autonômico do departamento. A cada frase de Costas, uma multidão espalhada por uma longa avenida aplaude e grita em apoio. Estão quase todos vestidos de verde e branco, as cores da região.
Um turista que tenha estado na cidade no dia 4 e nos dias que antecederam a consulta crucenha deve ter imaginado que toda uma população estava irmanada na mesma luta autonômica.
Carros com adesivos, bandeiras nas casas, pessoas com camisetas com alusões à autonomia estavam por todos os lados. Caso o mesmo viajante tenha visto, por curiosidade, os resultados de boca-de-urna, que projetaram a aprovação do estatuto por 85% dos votos, provavelmente pensou que sua impressão era correta.
Repúdio
No entanto, certamente ele não viu o que aconteceu no dia 2, numa zona mais deteriorada da cidade. E é possível que não tenha ficado sabendo dos eventos do dia 4 no Plan 3000, um dos bairros mais pobres de Santa Cruz.
Nos dois casos, as cores predominantes não era o verde e o branco: a grande maioria das pessoas empunhava a “tricolor”, como é chamada a bandeira boliviana, verde, amarela e vermelha. Outros carregavam a whipala, bandeira que leva as cores do arco-íris e que é sagrada para os indígenas da região andina.
Na concentração do dia 2, que reuniu cerca de duas mil pessoas contrárias à consulta, diversos líderes de movimentos sociais locais e nacionais revezavam-se ao microfone discursando contra “o referendo ilegal impulsionado por uma minoria oligárquica racista do departamento que quer manter o poder sobre as terras e a exploração do trabalhador nos latifúndios”.
Já no Plan 3000, no dia da votação, os moradores mostraram seu repúdio ao estatuto queimando urnas e cédulas na La Rotonda, uma espécie de centro do bairro. Durante todo o dia, ocorreram duros enfrentamentos contra apoiadores do referendo, liderados pela Unión Juvenil Cruceñista, que tentavam garantir a consulta. Pedras e pedaços de pau voaram, de um lado ao outro, por várias horas, assim como bombas de gás lacrimogêneo da Polícia Nacional, que tentava acalmar a situação.
Grandes mobilizações como essa aconteceram também no interior do departamento (veja matéria nesta página), dando mostras de que a unanimidade em favor do estatuto autonômico é questionável.
Abstenções
A “vitória retumbante” do “sim” também ficou abalada – embora as autoridades crucenhas não reconheçam – com a divulgação da primeira parcial da apuração, no dia 5. Com um terço dos votos contados, o índice de abstenção estava em 35,82%. Os que haviam votado pelo “não” somavam 15,73%, enquanto os nulos e brancos chegavam a 3,81%.
De acordo com o Movimiento Al Socialismo (MAS, partido do governo), o fato de 55,36% dos eleitores de Santa Cruz não terem votado pelo “sim” evidencia que a maioria dos crucenhos não apóia o estatuto, significando, assim, o fracasso do referendo autonômico.
No entanto, tanto o MAS quanto organizações sociais do departamento fazem questão de frisarem que eles não lutam contra a autonomia, e sim contra o texto autonômico, considerado por eles anti-democrático e de viés separatista.
“Os setores sociais não estão tão informados sobre o estatuto. Porque o povo foi marginalizado desse processo. Não tivemos representantes do povo, diretamente eleitos por nós, para que o escrevessem”, protesta Mario Barón, presidente da Associação Copacabana, organização de comerciantes do Mercado Central do Plan 3000. “Estamos contra porque foi feito por cima de nós”, completa.
Disputa de poder
Para Jerjes Justiniano, do Partido Socialista boliviano, a consulta levada a cabo no dia 4 não diz respeito à autonomia, e sim a uma disputa pelo poder político e econômico. “Não votamos pela autonomia. Já a aprovamos em junho de 2006. Votamos a aprovação ou não de um estatuto autonômico, que é mais centralista que o federalismo do Brasil”, diz.
Em 2006, em um referendo nacional, o “não” à autonomia ganhou nacionalmente, enquanto o “sim” triunfou nos departamentos de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando, chamados de meia-lua. Na época, o governo central fez campanha pelo “não”, o que fez, na opinião de Justiniano, que a oligarquia do oriente se apropriasse da bandeira autonômica.
Ainda de acordo com ele, que se diz “um autonomista desde os 19 anos”, o referendo é o resultado de um processo histórico acentuado a partir da revolução boliviana de 1952. Enquanto no ocidente do país foi realizada uma reforma agrária, o mesmo não ocorreu no oriente, por existir, na época, muita terra e pouca gente.
Em 1971, com o início da ditadura de Hugo Bánzer, a burguesia de La Paz, surgida em 1952, se vincularia com os setores produtivos de Santa Cruz, desenvolvendo uma agroindústria exploradora e uma classe social emergente na região. “Esta classe é a que está disputando o poder nesse momento”, diz.
Terra
Poder que pode ser resumido, para ele, na tentativa de manutenção da estrutura fundiária do departamento. “Foi feita uma lei de reforma agrária por Evo Morales que afeta a oligarquia de Santa Cruz”, esclarece. Segundo o estatuto autonômico, a faculdade de titulação das terras é do governador, assim como muitas outras competências, como a definição da política de hidrocarbonetos.
“O estatuto é a tentativa de voltar 180 anos, antes da República. Querem um governador com todos os poderes. Poder de nomear o presidente da Corte Eleitoral, o presidente da Corte Suprema de Justiça no departamento, os juízes...”, alerta Saturnino Pinto, presidente do Comitê Cívico Popular de Santa Cruz, entidade criada em 2006 em contraposição ao Comitê Cívico “oficial”.
Para Pedro Nuni, vice-presidente da Confederação dos Povos Indígenas do Oriente Boliviano (Cidob), os impulsores do referendo autonômico nunca levantaram a bandeira pela autonomia. Para ele, essa é uma estratégia para se contraporem à arremetida que o governo e as organizações sociais haviam realizado com a Assembléia Constituinte. “Eles não se sentem garantidos, incluídos no novo texto constitucional”, afirma.
Já de acordo com Edgar Rivero, presidente da direção Departamental do MAS em Santa Cruz, os dirigentes dos partidos tradicionais que perderam as eleições de 2006 se reagruparam em comitês cívicos e governos departamentais e desde então passaram a desenvolver uma conspiração para desestabilizar o governo Evo.
O racismo como arma
de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)
Com o microfone na mão, a repórter do canal de TV boliviano PAT pergunta às pessoas em frente a um colégio, segurando pedaços de pau, o que estão fazendo ali. Uma delas, um homem branco de cerca de 40 anos, responde: “Estamos protegendo o local para que ninguém venha roubar as urnas”.
Questionado o que aconteceria se alguém viesse, o homem não hesita: “Ah, aí, coitados dos collas”. A escola está localizada no Plan 3000, um dos bairros mais pobres de Santa Cruz de la Sierra, cujos moradores são indígenas provenientes do ocidente do país, conhecidos justamente pela denominação colla.
Na disputa entre oriente e o ocidente do país, o racismo se exacerba. Algumas pichações em Santa Cruz de la Sierra garantem que “depois de 4 de maio, os collas vão ter que ir embora”.
“Nação Camba”
A discriminação é reforçada pela idéia, difundida nos últimos anos, da chamada Nação Camba, que dividiria a Bolívia em duas partes. “Não existe uma cultura camba. O termo era usado pejorativamente pela oligarquia, para chamar um indígena ou um camponês. Era como dizer que eram lixo. Agora eles reivindicam o termo. Pegaram-no para capitalizar frente às massas”, explica Pedro Nuni, vice-presidente da Confederação dos Povos Indígenas do Oriente Boliviano (Cidob).
“Conheço muito camba. Vivemos em paz, compartilhamos. Agora, nos fazem brigar, nos fazem inimigos”, lamenta Mario Barón, presidente da Associação Copacabana, organização de comerciantes do Mercado Central do Plan 3000, na periferia de Santa Cruz de la Sierra. Da etnia quéchua, o dirigente nasceu em Potosí, nos Andes, mas vive há mais de 40 anos na cidade.
Estatuto racista
Segundo Nuni, os migrantes e filhos de migrantes collas (formados por quéchuas e aymaras) representam hoje mais da metade da população da capital do departamento, onde servem como mão-de-obra barata.
Mesmo assim, o estatuto autonômico crucenho não os reconhece, garantindo direitos apenas aos povos indígenas “oriundos” da região: Chiquitano, Ayoreode, Yuracare-Mojeño, Gwarayo y Guaraní. “O Estatuto é racista”, garante Nuni, que lembra ainda que das mais de 20 nações do departamento, apenas essas cinco serão representadas no Conselho Departamental, que funcionará como o órgão legislativo. (IO)
Resultado deve ser usado como trunfo em negociações
de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)
A partir da aprovação do estatuto autonômico de Santa Cruz no referendo do dia 4, a disputa política na Bolívia tende a se acirrar ainda mais. O cruceño Jerjes Justiniano, do Partido Socialista boliviano, acredita que o país pode tomar dois caminhos.
No primeiro deles, as autoridades do departamento desconheceriam a institucionalidade do governo central e aplicariam o estatuto, tomando as empresas do Estado. Com o Executivo intervindo para impedir, um ciclo de violência poderia ser gerado. “Isso é o que busca o império, para causar um debilitamento do país e a queda de Evo, por gravidade. Assim, nunca mais um índio voltará à presidência, em nenhum país do continente”.
Negociação
A outra possibilidade é que Santa Cruz sente para negociar com o presidente Evo Morales, com o resultado nas mãos como trunfo para obter maiores concessões na nova Constituição. “Vai ser um processo longo e tenso. Essa negociação pode ser uma arma poderosa que também debilite o governo”, preocupa-se Jerjes.
Pedro Nuni, vice-presidente da Confederação dos Povos Indígenas do Oriente Boliviano (Cidob), concorda. “O que os governadores querem é dizer: ´olha, Evo, aqui temos a votação do referendo, agora me dê o que me corresponde`. Só que presidente vai falar para eles se apegarem à nova Constituição”.
Um dia depois do referendo, o governadores de Beni e Tarija, departamentos que têm consultas autonômicas marcadas, respectivamente, para os dias 1º e 22 de junho, condicionaram a abertura do diálogo ao reconhecimento, por parte do governo, dos resultados em Santa Cruz. (IO)
Na cidade bastião de Evo, ninguém votou
Sue Iamamoto
de San Julián (Bolívia)
Em San Julián, no interior do departamento de Santa Cruz, não houve referendo autonômico. Considerado o bastião crucenho do Movimiento Al Socialismo (MAS), partido do governo, o município é formado principalmente por comunidades de colonos – camponeses migrantes de outras regiões que tiveram pequenas propriedades dotadas pelo Estado.
A mobilização começou no dia 3 pela tarde, com uma concentração de alguns milhares de pessoas em frente ao mercado da cidade. Elas determinaram, em assembléia, o bloqueio da estrada que liga a região à cidade de Santa Cruz de la Sierra e o confisco de qualquer urna encontrada nas comunidades.
Bloqueio
Às 22hs (23hs de Brasília) do mesmo dia, seis pontos de bloqueio foram estabelecidos e mantidos por quase vinte horas, através do cumprimento de turnos por parte da população local. Na manhã do dia 4, data da consulta, algumas urnas foram encontradas sob o cuidado de notários e, na maior parte dos casos, foram entregues aos colonos sem maiores conflitos. Contudo, na comunidade de Los Angeles, os fiscais do referendo resistiram ao confisco, gerando um enfrentamento que deixou um jovem ferido.
“Ganha o estatuto e os collas vão embora”, assim ameaçavam os que cuidavam das urnas, fazendo referáência ao nome que se dá aos indígenas da região ocidental do país. Depois de alguns minutos, as urnas foram abandonadas e rapidamente queimadas pelo colonos em um protesto. Com a calma restabelecida, um dos participantes do confronto desabafou: "eles dizem que a gente é de fora, mas eles são estrangeiros, croatas, filhos de espanhóis. Em contrapartida, nós estamos nestas terras há mais de quinhentos anos”.
Embora passe a imagem de apoio unânime ao estatuto, departamento opositor é palco de resistência à oligarquia local
Igor Ojeda
Enviado especial a Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)
Sob um Cristo Redentor que leva seus braços para o alto, Rubén Costas, o governador de Santa Cruz, discursa. “No dia 4 de maio, diremos um ´sim` à democracia, à liberdade, a nossa forma de ser. A autonomia tem razão histórica e é direito fundamental de sermos donos de nosso destino. É parte essencial de nossa liberdade”.
É dia 30 de abril, data do encerramento oficial da campanha em favor do referendo sobre o estatuto autonômico do departamento. A cada frase de Costas, uma multidão espalhada por uma longa avenida aplaude e grita em apoio. Estão quase todos vestidos de verde e branco, as cores da região.
Um turista que tenha estado na cidade no dia 4 e nos dias que antecederam a consulta crucenha deve ter imaginado que toda uma população estava irmanada na mesma luta autonômica.
Carros com adesivos, bandeiras nas casas, pessoas com camisetas com alusões à autonomia estavam por todos os lados. Caso o mesmo viajante tenha visto, por curiosidade, os resultados de boca-de-urna, que projetaram a aprovação do estatuto por 85% dos votos, provavelmente pensou que sua impressão era correta.
Repúdio
No entanto, certamente ele não viu o que aconteceu no dia 2, numa zona mais deteriorada da cidade. E é possível que não tenha ficado sabendo dos eventos do dia 4 no Plan 3000, um dos bairros mais pobres de Santa Cruz.
Nos dois casos, as cores predominantes não era o verde e o branco: a grande maioria das pessoas empunhava a “tricolor”, como é chamada a bandeira boliviana, verde, amarela e vermelha. Outros carregavam a whipala, bandeira que leva as cores do arco-íris e que é sagrada para os indígenas da região andina.
Na concentração do dia 2, que reuniu cerca de duas mil pessoas contrárias à consulta, diversos líderes de movimentos sociais locais e nacionais revezavam-se ao microfone discursando contra “o referendo ilegal impulsionado por uma minoria oligárquica racista do departamento que quer manter o poder sobre as terras e a exploração do trabalhador nos latifúndios”.
Já no Plan 3000, no dia da votação, os moradores mostraram seu repúdio ao estatuto queimando urnas e cédulas na La Rotonda, uma espécie de centro do bairro. Durante todo o dia, ocorreram duros enfrentamentos contra apoiadores do referendo, liderados pela Unión Juvenil Cruceñista, que tentavam garantir a consulta. Pedras e pedaços de pau voaram, de um lado ao outro, por várias horas, assim como bombas de gás lacrimogêneo da Polícia Nacional, que tentava acalmar a situação.
Grandes mobilizações como essa aconteceram também no interior do departamento (veja matéria nesta página), dando mostras de que a unanimidade em favor do estatuto autonômico é questionável.
Abstenções
A “vitória retumbante” do “sim” também ficou abalada – embora as autoridades crucenhas não reconheçam – com a divulgação da primeira parcial da apuração, no dia 5. Com um terço dos votos contados, o índice de abstenção estava em 35,82%. Os que haviam votado pelo “não” somavam 15,73%, enquanto os nulos e brancos chegavam a 3,81%.
De acordo com o Movimiento Al Socialismo (MAS, partido do governo), o fato de 55,36% dos eleitores de Santa Cruz não terem votado pelo “sim” evidencia que a maioria dos crucenhos não apóia o estatuto, significando, assim, o fracasso do referendo autonômico.
No entanto, tanto o MAS quanto organizações sociais do departamento fazem questão de frisarem que eles não lutam contra a autonomia, e sim contra o texto autonômico, considerado por eles anti-democrático e de viés separatista.
“Os setores sociais não estão tão informados sobre o estatuto. Porque o povo foi marginalizado desse processo. Não tivemos representantes do povo, diretamente eleitos por nós, para que o escrevessem”, protesta Mario Barón, presidente da Associação Copacabana, organização de comerciantes do Mercado Central do Plan 3000. “Estamos contra porque foi feito por cima de nós”, completa.
Disputa de poder
Para Jerjes Justiniano, do Partido Socialista boliviano, a consulta levada a cabo no dia 4 não diz respeito à autonomia, e sim a uma disputa pelo poder político e econômico. “Não votamos pela autonomia. Já a aprovamos em junho de 2006. Votamos a aprovação ou não de um estatuto autonômico, que é mais centralista que o federalismo do Brasil”, diz.
Em 2006, em um referendo nacional, o “não” à autonomia ganhou nacionalmente, enquanto o “sim” triunfou nos departamentos de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando, chamados de meia-lua. Na época, o governo central fez campanha pelo “não”, o que fez, na opinião de Justiniano, que a oligarquia do oriente se apropriasse da bandeira autonômica.
Ainda de acordo com ele, que se diz “um autonomista desde os 19 anos”, o referendo é o resultado de um processo histórico acentuado a partir da revolução boliviana de 1952. Enquanto no ocidente do país foi realizada uma reforma agrária, o mesmo não ocorreu no oriente, por existir, na época, muita terra e pouca gente.
Em 1971, com o início da ditadura de Hugo Bánzer, a burguesia de La Paz, surgida em 1952, se vincularia com os setores produtivos de Santa Cruz, desenvolvendo uma agroindústria exploradora e uma classe social emergente na região. “Esta classe é a que está disputando o poder nesse momento”, diz.
Terra
Poder que pode ser resumido, para ele, na tentativa de manutenção da estrutura fundiária do departamento. “Foi feita uma lei de reforma agrária por Evo Morales que afeta a oligarquia de Santa Cruz”, esclarece. Segundo o estatuto autonômico, a faculdade de titulação das terras é do governador, assim como muitas outras competências, como a definição da política de hidrocarbonetos.
“O estatuto é a tentativa de voltar 180 anos, antes da República. Querem um governador com todos os poderes. Poder de nomear o presidente da Corte Eleitoral, o presidente da Corte Suprema de Justiça no departamento, os juízes...”, alerta Saturnino Pinto, presidente do Comitê Cívico Popular de Santa Cruz, entidade criada em 2006 em contraposição ao Comitê Cívico “oficial”.
Para Pedro Nuni, vice-presidente da Confederação dos Povos Indígenas do Oriente Boliviano (Cidob), os impulsores do referendo autonômico nunca levantaram a bandeira pela autonomia. Para ele, essa é uma estratégia para se contraporem à arremetida que o governo e as organizações sociais haviam realizado com a Assembléia Constituinte. “Eles não se sentem garantidos, incluídos no novo texto constitucional”, afirma.
Já de acordo com Edgar Rivero, presidente da direção Departamental do MAS em Santa Cruz, os dirigentes dos partidos tradicionais que perderam as eleições de 2006 se reagruparam em comitês cívicos e governos departamentais e desde então passaram a desenvolver uma conspiração para desestabilizar o governo Evo.
O racismo como arma
de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)
Com o microfone na mão, a repórter do canal de TV boliviano PAT pergunta às pessoas em frente a um colégio, segurando pedaços de pau, o que estão fazendo ali. Uma delas, um homem branco de cerca de 40 anos, responde: “Estamos protegendo o local para que ninguém venha roubar as urnas”.
Questionado o que aconteceria se alguém viesse, o homem não hesita: “Ah, aí, coitados dos collas”. A escola está localizada no Plan 3000, um dos bairros mais pobres de Santa Cruz de la Sierra, cujos moradores são indígenas provenientes do ocidente do país, conhecidos justamente pela denominação colla.
Na disputa entre oriente e o ocidente do país, o racismo se exacerba. Algumas pichações em Santa Cruz de la Sierra garantem que “depois de 4 de maio, os collas vão ter que ir embora”.
“Nação Camba”
A discriminação é reforçada pela idéia, difundida nos últimos anos, da chamada Nação Camba, que dividiria a Bolívia em duas partes. “Não existe uma cultura camba. O termo era usado pejorativamente pela oligarquia, para chamar um indígena ou um camponês. Era como dizer que eram lixo. Agora eles reivindicam o termo. Pegaram-no para capitalizar frente às massas”, explica Pedro Nuni, vice-presidente da Confederação dos Povos Indígenas do Oriente Boliviano (Cidob).
“Conheço muito camba. Vivemos em paz, compartilhamos. Agora, nos fazem brigar, nos fazem inimigos”, lamenta Mario Barón, presidente da Associação Copacabana, organização de comerciantes do Mercado Central do Plan 3000, na periferia de Santa Cruz de la Sierra. Da etnia quéchua, o dirigente nasceu em Potosí, nos Andes, mas vive há mais de 40 anos na cidade.
Estatuto racista
Segundo Nuni, os migrantes e filhos de migrantes collas (formados por quéchuas e aymaras) representam hoje mais da metade da população da capital do departamento, onde servem como mão-de-obra barata.
Mesmo assim, o estatuto autonômico crucenho não os reconhece, garantindo direitos apenas aos povos indígenas “oriundos” da região: Chiquitano, Ayoreode, Yuracare-Mojeño, Gwarayo y Guaraní. “O Estatuto é racista”, garante Nuni, que lembra ainda que das mais de 20 nações do departamento, apenas essas cinco serão representadas no Conselho Departamental, que funcionará como o órgão legislativo. (IO)
Resultado deve ser usado como trunfo em negociações
de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)
A partir da aprovação do estatuto autonômico de Santa Cruz no referendo do dia 4, a disputa política na Bolívia tende a se acirrar ainda mais. O cruceño Jerjes Justiniano, do Partido Socialista boliviano, acredita que o país pode tomar dois caminhos.
No primeiro deles, as autoridades do departamento desconheceriam a institucionalidade do governo central e aplicariam o estatuto, tomando as empresas do Estado. Com o Executivo intervindo para impedir, um ciclo de violência poderia ser gerado. “Isso é o que busca o império, para causar um debilitamento do país e a queda de Evo, por gravidade. Assim, nunca mais um índio voltará à presidência, em nenhum país do continente”.
Negociação
A outra possibilidade é que Santa Cruz sente para negociar com o presidente Evo Morales, com o resultado nas mãos como trunfo para obter maiores concessões na nova Constituição. “Vai ser um processo longo e tenso. Essa negociação pode ser uma arma poderosa que também debilite o governo”, preocupa-se Jerjes.
Pedro Nuni, vice-presidente da Confederação dos Povos Indígenas do Oriente Boliviano (Cidob), concorda. “O que os governadores querem é dizer: ´olha, Evo, aqui temos a votação do referendo, agora me dê o que me corresponde`. Só que presidente vai falar para eles se apegarem à nova Constituição”.
Um dia depois do referendo, o governadores de Beni e Tarija, departamentos que têm consultas autonômicas marcadas, respectivamente, para os dias 1º e 22 de junho, condicionaram a abertura do diálogo ao reconhecimento, por parte do governo, dos resultados em Santa Cruz. (IO)
Na cidade bastião de Evo, ninguém votou
Sue Iamamoto
de San Julián (Bolívia)
Em San Julián, no interior do departamento de Santa Cruz, não houve referendo autonômico. Considerado o bastião crucenho do Movimiento Al Socialismo (MAS), partido do governo, o município é formado principalmente por comunidades de colonos – camponeses migrantes de outras regiões que tiveram pequenas propriedades dotadas pelo Estado.
A mobilização começou no dia 3 pela tarde, com uma concentração de alguns milhares de pessoas em frente ao mercado da cidade. Elas determinaram, em assembléia, o bloqueio da estrada que liga a região à cidade de Santa Cruz de la Sierra e o confisco de qualquer urna encontrada nas comunidades.
Bloqueio
Às 22hs (23hs de Brasília) do mesmo dia, seis pontos de bloqueio foram estabelecidos e mantidos por quase vinte horas, através do cumprimento de turnos por parte da população local. Na manhã do dia 4, data da consulta, algumas urnas foram encontradas sob o cuidado de notários e, na maior parte dos casos, foram entregues aos colonos sem maiores conflitos. Contudo, na comunidade de Los Angeles, os fiscais do referendo resistiram ao confisco, gerando um enfrentamento que deixou um jovem ferido.
“Ganha o estatuto e os collas vão embora”, assim ameaçavam os que cuidavam das urnas, fazendo referáência ao nome que se dá aos indígenas da região ocidental do país. Depois de alguns minutos, as urnas foram abandonadas e rapidamente queimadas pelo colonos em um protesto. Com a calma restabelecida, um dos participantes do confronto desabafou: "eles dizem que a gente é de fora, mas eles são estrangeiros, croatas, filhos de espanhóis. Em contrapartida, nós estamos nestas terras há mais de quinhentos anos”.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Bolívia tropical
Quase duas semanas depois do meu último post, volto para contar a ótima experiência (embora exaustiva, o que justifica a demora em escrever) dos últimos dias. Começando pelo feriado nacional, em 6 de agosto, justamente o dia do minha última publicação aqui...
No feriado, um passeio pela cidade (porque ninguém é de ferro)
6 de agosto eles comemoram a fundação da Bolívia, em 1825. Como já disse num post anterior, o espírito “cívico” dos bolivianos é bem mais forte que o do brasileiro, mesmo porque aqui houve verdadeiras guerras de independência, com muita luta e sangue. Já no Brasil...
Por toda a cidade, tinha casas com a bandeira da Bolívia. E rolava, pelas ruas, desfiles de escolas, polícia, e forças armadas. O duro foi ver uma das “alas” do exército com um estandarte escrito “Beneméritos de Ñancahuazu”. Uma referência à guerra contra a guerrilha do Che, quando ele foi preso e executado, em 67.

Como era feriado, não queria incomodar as fontes com pedidos de entrevistas. Resolvi, então, também tirar uma folga e conhecer a cidade. Fiz um percurso turístico a pé durante quase o dia todo (a vantagem é que a cidade é plana, diferentemente de La Paz).
Vi casas e igrejas coloniais, outras nem tanto, fui no lago local, em uma colina e no Cristo de la Concordia, de onde se tinha uma bela vista de toda a cidade. Ali dá pra perceber bem como, apesar de plana, Cochabamba é toda cercada por altas montanhas.
Rumo ao Chapare
Igual a El Alto, uma grande mística envolve o Chapare. Também conhecida como Trópico de Cochabamba, é uma região a umas 3 horas de Cochabamba. A mística se deve a sua história de resistência.
Desde os anos 80, os plantadores de coca (cocaleros) vêm lutando contra a criminalização da coca, promovida pelos governos bolivianos e seus “assessores”, os estadunidenses. (Até hoje há postos de “checagem” do exército na estradas)
Até o começo do governo Evo, um dos cocaleros que resistiam, várias pessoas foram mortas e presas. Sem falar das mulheres estupradas.
Certamente por isso mesmo, foi lá que o MAS, o partido do Evo, surgiu, em articulação com movimentos sociais de outras partes do país.
No dia 7, quinta-feira, peguei uma van (daquelas que começam a viagem só depois que lotam) pra lá. Depois de um tempo, começa uma paisagem bem familiar pros brasileiros. Uma mata linda, bem densa, parecida com a Mata Atlântica, e rios que cruzam a estrada a toda hora. Quando mais a estrada vai descendo, mais o calor e a umidade vão aumentando.
E o apoio ao MAS e ao Evo também. É algo que eu nunca vi antes. Na beira da estrada, começam a aparecer, penduradas em bambus, que por sua vez estão pendurados nas árvores, bandeiras da Bolívia, a whipala (a bandeira sagrada dos povos indígenas dos Andes) e a do MAS, azul, preta e branca. Algumas vezes estão juntas, outras separadas. Mas estão lá a cada poucos metros.
Claro que provavelmente estavam lá por causa do referendo. Não deve ser algo do ano inteiro, mas mesmo assim impressiona.
Cheguei no fim da tarde, em Villa Tunari, uma das cidades do Chapare (as bandeiras e as cores do MAS seguem nas árvores, nos postes, nas casas, nos comércios e até nas pontes etc).


É engraçado como até a gastronomia muda consideravelmente em relação a La Paz. A começar pelas variedades de peixes, como o pacu e o surubí. Muita mandioca (aqui é mais batata) e carnes “exóticas”, como a de veado.
Sexta e sábado, fiz entrevistas com dirigentes cocaleros e com o diretor da Radio Soberanía, que na época da dura repressão serviu como instrumento pra contar a versão “real” dos fatos pra população da região e até pra outros lugares da Bolívia. A missão era apagar o estigma de que os que resistiam eram narcotraficantes.
Deu pra sentir de perto a força dos cocaleros, sua consciência política, sua disposição para a luta, e a lembrança da violência estatal não como algo traumático, mas principalmente como estímulo para seguir lutando.
Onde o presidente vota
No sábado, em Chipiriri, uma comunidade bem pequena a uns 10 minutos de Villa Tunari, falei com María Eugenia, uma dirigente de 30 anos, que viveu a guerra contra o Estado na adolescência. Quando cheguei, não consegui ligar pra ela (tínhamos nos falado na sexta).
Alguém falou onde era sua casa e fui. Incrível. Era um pequeno barraco de madeira, com tudo meio improvisado, e com a “sala/cozinha” sem porta. Contrariando totalmente a idéia que eu tenho da maioria dos dirigentes de sindicatos. Não que eu imagine que sejam ricos, mas deve dar pra se contar nos dedos os que vivem numa casa tão humilde quanto a dela.
No fim das contas, María Eugenia estava no seu “chaco”, a terrinha onde planta coca e outros produtos. Mas nos falamos mais tarde.
Quando terminou nossa conversa, chegou, de carro, um dos principais dirigentes da região. Me prometeu uma entrevista, mas em Villa Tunari, porque ele estava com pressa. A vantagem é que ganhei uma carona.
No caminho, passamos em uma comunidade chamada Villa 14 de Septiembre.
- É aqui que o presidente vem votar amanhã.
- É mesmo? Que horas, mais ou menos?
- Umas 7 e meia.
Já pensei: “legal, vou vir acompanhar”. Sinceramente, jornalisticamente, era meio irrelevante pra um meio como o Brasil de Fato. Mas já que eu estava lá, valia pela curiosidade e para, quem sabe, tirar uma foto pra ilustrar minha matéria pro jornal.
Pois, no domingo, simplesmente não tinha como eu chegar lá. É que, nas eleições bolivianas, uns dois dias antes, é decretado um tal de “auto de bom governo” (parece até termo zapatista, mas é da Bolívia mesmo). Sem bebida, campanha eleitoral e... transporte!!! Pra impedir que se levem as pessoas pra votar em troca exatamente do voto.
Enfim, tinha visto isso na TV, mas sinceramente não achei que seria cumprido à risca. Mas foi. Resolvi ir a pé, pois achava que era perto. Só que minha impressão da proximidade estava baseada quando fiz o percurso entre Villa 14 de Septiembre e Villa Tunari de carro. Caminhando eram outros quinhentos. Depois de perguntar duas vezes se estava muito longe, e ao receber resposta afirmativa, desisti. Afinal, ia perder o Evo votando e não teria como voltar.
E, por não ter como voltar, fiquei “preso” em Villa Tunari no domingo. Minha idéia era ir pra Cochabamba de tarde, mas não tinha como. Paciência.
O chá de cadeira e o conflito com os professores
No dia 13, quarta-feira, depois de fazer uma entrevista sobre o referendo, outra sobre os cocaleros e escrever a matéria pro Brasil de Fato em Cochabamba, decidi voltar ao Chapare, pra falar com alguma família que cultivasse folha de coca (não havia dado tempo na primeira vez).
Antes de ir, liguei pra María Eugenia pra pedir que ela me levasse. Achei melhor não ir sozinho, já que algumas pessoas da região são, com toda razão, desconfiadas com estrangeiros e/ou jornalistas.
Chegando a Chipiriri, não consegui falar com María Eugenia. Caía na caixa postal direto. Fui na casa dela, e nada. Me informaram que ela estava no “chaco” dela, a mais ou menos uma hora de distância, e que lá o sinal do celular era ruim.
Resultado: esperei umas 4 horas, e nada. Escureceu, voltei a Villa Tunari (já que em Chipiriri não havia onde dormir) e fiquei num albergue por lá.
No dia seguinte, cedo, liguei e consegui falar com ela. Marcamos pra dali a pouco. Fiquei feliz, pensei que poderia voltar cedo pra Cochabamba e chegar já no fim da noite em La Paz (pra enfim descansar e a tempo de ver as Olimpíadas, algo que ainda não tinha existido pra mim).
Chegando no local combinado, havia um grupo de pessoas conversando, meio informalmente, como se esperassem algo. María Eugenia chega e diz que vai ter uma reunião do sindicato, e que ela teria que participar.
Resultado: mais 3 horas esperando, um livro quase concluído e um grande pacote de bolacha – comprado na vendinha de uma chola – pela metade (eu estava sem café da manhã).
Os cocaleros estavam, digamos assim, emputados com os professores rurais, que tinham aderido à greve contra o governo (por causa de uma lei de pensões) dias antes do referendo.
“Eles têm o direito de se manifestarem, mas não logo antes do referendo. Serviram como instrumentos da direita”, reclamou María Eugenia, ao me contar sobre a reunião que acabara de terminar.
Como ela mesmo disse, depois de tanta luta, tanto sofrimento, tantas mortes, os cocaleros não estão dispostos a “pôr a perder o proceso de cambio”.
No feriado, um passeio pela cidade (porque ninguém é de ferro)
6 de agosto eles comemoram a fundação da Bolívia, em 1825. Como já disse num post anterior, o espírito “cívico” dos bolivianos é bem mais forte que o do brasileiro, mesmo porque aqui houve verdadeiras guerras de independência, com muita luta e sangue. Já no Brasil...
Por toda a cidade, tinha casas com a bandeira da Bolívia. E rolava, pelas ruas, desfiles de escolas, polícia, e forças armadas. O duro foi ver uma das “alas” do exército com um estandarte escrito “Beneméritos de Ñancahuazu”. Uma referência à guerra contra a guerrilha do Che, quando ele foi preso e executado, em 67.

Como era feriado, não queria incomodar as fontes com pedidos de entrevistas. Resolvi, então, também tirar uma folga e conhecer a cidade. Fiz um percurso turístico a pé durante quase o dia todo (a vantagem é que a cidade é plana, diferentemente de La Paz).
Vi casas e igrejas coloniais, outras nem tanto, fui no lago local, em uma colina e no Cristo de la Concordia, de onde se tinha uma bela vista de toda a cidade. Ali dá pra perceber bem como, apesar de plana, Cochabamba é toda cercada por altas montanhas.
Rumo ao Chapare
Igual a El Alto, uma grande mística envolve o Chapare. Também conhecida como Trópico de Cochabamba, é uma região a umas 3 horas de Cochabamba. A mística se deve a sua história de resistência.
Desde os anos 80, os plantadores de coca (cocaleros) vêm lutando contra a criminalização da coca, promovida pelos governos bolivianos e seus “assessores”, os estadunidenses. (Até hoje há postos de “checagem” do exército na estradas)
Até o começo do governo Evo, um dos cocaleros que resistiam, várias pessoas foram mortas e presas. Sem falar das mulheres estupradas.
Certamente por isso mesmo, foi lá que o MAS, o partido do Evo, surgiu, em articulação com movimentos sociais de outras partes do país.
No dia 7, quinta-feira, peguei uma van (daquelas que começam a viagem só depois que lotam) pra lá. Depois de um tempo, começa uma paisagem bem familiar pros brasileiros. Uma mata linda, bem densa, parecida com a Mata Atlântica, e rios que cruzam a estrada a toda hora. Quando mais a estrada vai descendo, mais o calor e a umidade vão aumentando.
E o apoio ao MAS e ao Evo também. É algo que eu nunca vi antes. Na beira da estrada, começam a aparecer, penduradas em bambus, que por sua vez estão pendurados nas árvores, bandeiras da Bolívia, a whipala (a bandeira sagrada dos povos indígenas dos Andes) e a do MAS, azul, preta e branca. Algumas vezes estão juntas, outras separadas. Mas estão lá a cada poucos metros.
Claro que provavelmente estavam lá por causa do referendo. Não deve ser algo do ano inteiro, mas mesmo assim impressiona.
Cheguei no fim da tarde, em Villa Tunari, uma das cidades do Chapare (as bandeiras e as cores do MAS seguem nas árvores, nos postes, nas casas, nos comércios e até nas pontes etc).


É engraçado como até a gastronomia muda consideravelmente em relação a La Paz. A começar pelas variedades de peixes, como o pacu e o surubí. Muita mandioca (aqui é mais batata) e carnes “exóticas”, como a de veado.
Sexta e sábado, fiz entrevistas com dirigentes cocaleros e com o diretor da Radio Soberanía, que na época da dura repressão serviu como instrumento pra contar a versão “real” dos fatos pra população da região e até pra outros lugares da Bolívia. A missão era apagar o estigma de que os que resistiam eram narcotraficantes.
Deu pra sentir de perto a força dos cocaleros, sua consciência política, sua disposição para a luta, e a lembrança da violência estatal não como algo traumático, mas principalmente como estímulo para seguir lutando.
Onde o presidente vota
No sábado, em Chipiriri, uma comunidade bem pequena a uns 10 minutos de Villa Tunari, falei com María Eugenia, uma dirigente de 30 anos, que viveu a guerra contra o Estado na adolescência. Quando cheguei, não consegui ligar pra ela (tínhamos nos falado na sexta).
Alguém falou onde era sua casa e fui. Incrível. Era um pequeno barraco de madeira, com tudo meio improvisado, e com a “sala/cozinha” sem porta. Contrariando totalmente a idéia que eu tenho da maioria dos dirigentes de sindicatos. Não que eu imagine que sejam ricos, mas deve dar pra se contar nos dedos os que vivem numa casa tão humilde quanto a dela.
No fim das contas, María Eugenia estava no seu “chaco”, a terrinha onde planta coca e outros produtos. Mas nos falamos mais tarde.
Quando terminou nossa conversa, chegou, de carro, um dos principais dirigentes da região. Me prometeu uma entrevista, mas em Villa Tunari, porque ele estava com pressa. A vantagem é que ganhei uma carona.
No caminho, passamos em uma comunidade chamada Villa 14 de Septiembre.
- É aqui que o presidente vem votar amanhã.
- É mesmo? Que horas, mais ou menos?
- Umas 7 e meia.
Já pensei: “legal, vou vir acompanhar”. Sinceramente, jornalisticamente, era meio irrelevante pra um meio como o Brasil de Fato. Mas já que eu estava lá, valia pela curiosidade e para, quem sabe, tirar uma foto pra ilustrar minha matéria pro jornal.
Pois, no domingo, simplesmente não tinha como eu chegar lá. É que, nas eleições bolivianas, uns dois dias antes, é decretado um tal de “auto de bom governo” (parece até termo zapatista, mas é da Bolívia mesmo). Sem bebida, campanha eleitoral e... transporte!!! Pra impedir que se levem as pessoas pra votar em troca exatamente do voto.
Enfim, tinha visto isso na TV, mas sinceramente não achei que seria cumprido à risca. Mas foi. Resolvi ir a pé, pois achava que era perto. Só que minha impressão da proximidade estava baseada quando fiz o percurso entre Villa 14 de Septiembre e Villa Tunari de carro. Caminhando eram outros quinhentos. Depois de perguntar duas vezes se estava muito longe, e ao receber resposta afirmativa, desisti. Afinal, ia perder o Evo votando e não teria como voltar.
E, por não ter como voltar, fiquei “preso” em Villa Tunari no domingo. Minha idéia era ir pra Cochabamba de tarde, mas não tinha como. Paciência.
O chá de cadeira e o conflito com os professores
No dia 13, quarta-feira, depois de fazer uma entrevista sobre o referendo, outra sobre os cocaleros e escrever a matéria pro Brasil de Fato em Cochabamba, decidi voltar ao Chapare, pra falar com alguma família que cultivasse folha de coca (não havia dado tempo na primeira vez).
Antes de ir, liguei pra María Eugenia pra pedir que ela me levasse. Achei melhor não ir sozinho, já que algumas pessoas da região são, com toda razão, desconfiadas com estrangeiros e/ou jornalistas.
Chegando a Chipiriri, não consegui falar com María Eugenia. Caía na caixa postal direto. Fui na casa dela, e nada. Me informaram que ela estava no “chaco” dela, a mais ou menos uma hora de distância, e que lá o sinal do celular era ruim.
Resultado: esperei umas 4 horas, e nada. Escureceu, voltei a Villa Tunari (já que em Chipiriri não havia onde dormir) e fiquei num albergue por lá.
No dia seguinte, cedo, liguei e consegui falar com ela. Marcamos pra dali a pouco. Fiquei feliz, pensei que poderia voltar cedo pra Cochabamba e chegar já no fim da noite em La Paz (pra enfim descansar e a tempo de ver as Olimpíadas, algo que ainda não tinha existido pra mim).
Chegando no local combinado, havia um grupo de pessoas conversando, meio informalmente, como se esperassem algo. María Eugenia chega e diz que vai ter uma reunião do sindicato, e que ela teria que participar.
Resultado: mais 3 horas esperando, um livro quase concluído e um grande pacote de bolacha – comprado na vendinha de uma chola – pela metade (eu estava sem café da manhã).
Os cocaleros estavam, digamos assim, emputados com os professores rurais, que tinham aderido à greve contra o governo (por causa de uma lei de pensões) dias antes do referendo.
“Eles têm o direito de se manifestarem, mas não logo antes do referendo. Serviram como instrumentos da direita”, reclamou María Eugenia, ao me contar sobre a reunião que acabara de terminar.
Como ela mesmo disse, depois de tanta luta, tanto sofrimento, tantas mortes, os cocaleros não estão dispostos a “pôr a perder o proceso de cambio”.
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Cochabamba - primeira matéria
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Cochabamba - primeiras impressões
O que mais me chamou a atenção até agora por aqui foi a agitação política na praça principal.
Cheguei ontem de manhã e, em meio a desfiles das escolas por causa da semana em que se comemora a independência, e a atos contra abusos sexuais, pude ver, no centro da praça, uma concentração de pessoas discutindo o referendo revogatório.
Durante todo o dia de ontem, e até o que vi de hoje, sempre (sem exceção) havia um grupo (ou grupos) de 20 a 30 pessoas escutando atentamente alguém falar sobre a situação do país. Até agora, só ouvi falarem bem do Evo e mal do governador.
No mesmo espaço, funciona o painel informativo de uma organização chamada Red Tinku, que apóia as organizações populares do país. Faz tempo que, diariamente, eles informam a população cochabambina através desses painéis. Sempre que passei por eles, tinha bastante gente lendo.
E, aproveitando o referendo, a Red Tinku também entrou na campanha para revogar o Manfred Reyes Villa, o governador. Instalaram uma mesa com material de propaganda (panfletos, livros, DVDs) e penduraram faixas e cartazes.
Fora isso, ainda vi muito pouco da cidade, só pouco do centro. Mas parece bem agradável, sem falar do clima bem mais ameno que o de La Paz (Cochabamba está 1.100 metros mais para baixo).
Cheguei ontem de manhã e, em meio a desfiles das escolas por causa da semana em que se comemora a independência, e a atos contra abusos sexuais, pude ver, no centro da praça, uma concentração de pessoas discutindo o referendo revogatório.
Durante todo o dia de ontem, e até o que vi de hoje, sempre (sem exceção) havia um grupo (ou grupos) de 20 a 30 pessoas escutando atentamente alguém falar sobre a situação do país. Até agora, só ouvi falarem bem do Evo e mal do governador.
No mesmo espaço, funciona o painel informativo de uma organização chamada Red Tinku, que apóia as organizações populares do país. Faz tempo que, diariamente, eles informam a população cochabambina através desses painéis. Sempre que passei por eles, tinha bastante gente lendo.
E, aproveitando o referendo, a Red Tinku também entrou na campanha para revogar o Manfred Reyes Villa, o governador. Instalaram uma mesa com material de propaganda (panfletos, livros, DVDs) e penduraram faixas e cartazes.
Fora isso, ainda vi muito pouco da cidade, só pouco do centro. Mas parece bem agradável, sem falar do clima bem mais ameno que o de La Paz (Cochabamba está 1.100 metros mais para baixo).
domingo, 3 de agosto de 2008
Enfim, Cochabamba
Daqui a algumas horas, pego um ônibus pra Cochabamba, cidade "pertinho" daqui (na Bolívia, 7 horas de busão é pra ir aqui "do lado").
Ainda não a conheço. Dizem que é bonita e de clima agradável (está a 2.500 metros acima do nível do mar). Vamos ver. A idéia é cobrir o referendo revogatório (dia 10) de lá, já que parece (só parece) ser o lugar onde a agitação vai ser maior.
Todos os governadores de oposição já aceitaram participar da consulta, menos o Manfred Reyes Villa, o de Cochabamba. Ele diz que, se for revogado, não sai. Por outro lado, o departamento, principalmente o campo, é de grande apoio ao Evo, e está fazendo forte campanha para expulsar o Manfred do governo.
Vou ver se aproveito e faço uma matéria sobre os cocaleros. É daí que surgiu politicamente o Evo e é aí onde ele ainda mantém uma fortíssima base popular.
É isso. Tentarei mandar notícias de lá.
Ainda não a conheço. Dizem que é bonita e de clima agradável (está a 2.500 metros acima do nível do mar). Vamos ver. A idéia é cobrir o referendo revogatório (dia 10) de lá, já que parece (só parece) ser o lugar onde a agitação vai ser maior.
Todos os governadores de oposição já aceitaram participar da consulta, menos o Manfred Reyes Villa, o de Cochabamba. Ele diz que, se for revogado, não sai. Por outro lado, o departamento, principalmente o campo, é de grande apoio ao Evo, e está fazendo forte campanha para expulsar o Manfred do governo.
Vou ver se aproveito e faço uma matéria sobre os cocaleros. É daí que surgiu politicamente o Evo e é aí onde ele ainda mantém uma fortíssima base popular.
É isso. Tentarei mandar notícias de lá.
Retornando...
De volta, depois de uma breve viagem e da desativação temporária (!!!) da minha conta no google (o blogspot é do google, aliás, o que não é?), posto abaixo uma entrevista sobre a nova Constituição boliviana, que espera ser aprovada em referendo que ainda não foi marcado.
Uma novidade boa (pelo menos pra mim) é que, finalmente, com muito atraso, comprei uma boa máquina fotográfica, com a qual espero registrar (e compartilhar) meus últimos dois meses neste país encantador.
Brasil de Fato, edição 265 (de 27 de março a 2 de abril de 2008)
Uma Carta Magna de transição
Para especialista boliviana, a nova Constituição do país ainda é liberal, mas garante a inclusão dos povos antes marginalizados
Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)
“Esse novo texto constitucional não é totalmente revolucionário”. A avaliação é de Lucila Choque, investigadora da Universidade Pública de El Alto e da Representação Presidencial para a Assembléia Constituinte (Repac). Para ela, a nova Constituição, aprovada em dezembro, é de transição: ainda é liberal, já que “estamos aceitando ser governados por leis, e as leis foram criadas precisamente pelo Estado como instrumento de uma classe dominante”.
Mesmo assim, ela destaca inúmeros avanços que a Carta Magna pode trazer ao país se for aprovada em referendo – cuja realização permanece indefinida, devido à disputa entre governo e oposição –, principalmente na questão dos direitos dos povos indígenas. Ainda segundo Choque, em entrevista ao Brasil de Fato, o novo texto prevê as autonomias departamentais (principal reivindicação da oposição), mas com uma diferença fundamental em relação às demandas regionais: “o único soberano, que tem direito sobre os recursos naturais, é o Estado”.
Brasil de Fato – Raúl Prada, constituinte do Movimiento Al Socialismo (MAS) e ligado ao vice-presidente boliviano, Álvaro García Linera, disse uma vez que a nova Constituição ainda é liberal; é uma Constituição de “transição”, que consolida o caminho para transformações mais profundas no futuro. A senhora concorda com essa afirmação?
Lucila Choque – Sim. Esse novo texto constitucional não é totalmente revolucionário. É liberal porque ainda estamos aceitando ser governados por leis, e as leis foram criadas precisamente pelo Estado como instrumento de uma classe dominante. Quando Raúl Prada diz “liberal”, refere-se a 1825, quando o país foi fundado, como uma república. Os latino-americanos estavam copiando as fundações na Europa dos Estados-Nações, cujas bases eram hegemonistas, ou seja, uma só língua, um só território, uma uniformidade. Adotamos a democracia, mas uma democracia liberal, representativa. Agora, a brecha se abriu. Se a Carta Magna de 1826 foi realizada por uma elite, a casta crioula, agora, essas revoltas que aconteceram nos últimos anos – posso dizer nos últimos 500 anos – permitiram que esses povos que não gozavam de seus direitos agora participem. Então, não é só liberal. É também comunitária. No novo texto constitucional, já não é dito que a Bolívia é uma república. E sim, que é um Estado. O que se entende por Estado? É o povo. Ou seja, é a maioria marginalizada, oprimida, que está participando. Os outros já estavam. Agora se soma. No entanto, nossos povos, em seu imaginário, não pretendem fundar um socialismo ou comunismo, porque essas são propostas modernistas, e as de nossos povos são anti-modernistas. A correlação de forças atual não permite uma mudança de sistema, e sim o que se está tentando fazer, que os direitos dos povos indígenas se incluam na nova Constituição. Nela, por exemplo, há os direitos fundamentais e há os direitos fundamentalíssimos. Quais são? O direito à vida, à cidadania desde o nascimento, não apenas na hora do voto, o direito à educação, à saúde, à moradia digna e, principalmente, à alimentação. Ou seja, o Estado deve ter uma política alimentar. Essas coisas não existem na Constituição liberal vigente.
Mas, não é uma Constituição indigenista, como diz equivocadamente a direita. É liberal. Porque, no primeiro artigo, diz que a Bolívia é um Estado Social de Direito. Ou seja, está aceitando leis, e leis com direitos. Os que estavam propostos como direitos humanos desde a Europa, e não como nossas necessidades. Na visão anti-modernista de sociedade de nossos povos, não existe o conceito de direito, e sim de dever. Essa visão anti-modernista não tem nada a ver com aversão à tecnologia. E sim que a natureza não é vista como matéria-prima, mas como uma mãe. Deve ser cuidada, e não utilizada como mercadoria para benefício de poucos.
Quais são os principais avanços na nova Constituição?
Em primeiro lugar, o tipo de Estado que se quer adotar. Na Constituição vigente, herdamos um Estado colonial, que buscava a fundamentação da ideologia modernista, que destrói a natureza, e por meio disso, os povos. O maior aporte dessa nova Constituição é no tema de direitos. Está se constitucionalizando, por exemplo, os direitos das crianças e dos adolescentes. Dos idosos. Direito ao trabalho e ao emprego. Quase toda a população está presente com seus direitos. No entanto, porque falamos que ainda é um texto de transição? Porque não está exatamente como os povos queriam. Porque houve uma disputa no cenário da Assembléia Constituinte. Então, os governistas cederam em algumas coisas para garantirem tais direitos. O tema da educação também vai mudar. Pretende-se que o Estado garanta que uma criança, ao nascer, chegue, gratuitamente, pelo menos ao bacharelado.
Quais os foram os retrocessos principais, em relação à proposta popular, no contexto dessa disputa que aconteceu na Assembléia Constituinte?
O novo texto Constitucional é um produto tanto da direita quanto dos povos que estavam participando. A direita trabalhou para que a Constituição vigente, criada por seus pais ou avôs, não se diluísse. Por isso, houve essa disputa. Não aceitam que aqui haja os direitos desses povos, e sim que se mantenha o Estado anterior. Na Constituição vigente, é dito que a Bolívia é um país multiétnico. Os povos eram vistos como etnias, ou seja, como tribos, em estado de desaparecimento. Agora, são considerados nação. Isso eles não querem.
De que maneira as reivindicações da maioria indígenas são atendidas? Quais artigos garantem a inclusão dessa maioria?
Desde o artigo 1, que diz que a Bolívia é um Estado Plurinacional Comunitário. O artigo 5 diz que o idioma oficial não é somente o castelhano, e sim também os idiomas das nações e povos indígenas originários. Além disso, são todos citados no texto. Não se diz simplesmente “as etnias” [A Bolívia possui 36 nações originárias]. No capítulo de direitos, por exemplo, nos civis e políticos, o artigo 21 diz que os bolivianos e as bolivianas têm direito à auto-identificação cultural. No capítulo 4, sobre os direitos das nações e povos indígenas originários e camponeses, há muitos artigos que foram tirados da Declaração de Direitos dos Povos Indígenas da ONU [lançada em setembro de 2007].
Sob quais preceitos a autonomia indígena está colocada?
O único proprietário dos recursos naturais é o Estado. Com a autonomia, os povos serão consultados sobre a gestão desses recursos e, além disso, serão beneficiados de uma maneira mais direta, não mais com esse rodeio burocrático, em que o Estado outorga primeiro para os governos departamentais, depois para os municípios e, se sobrar algo, para os povos. O povoado onde se encontre petróleo ou gás, por exemplo, vai ser consultado se vende ou não, senão, ele vai ser prejudicado. Se o Estado decide, junto com eles, vender, produzir, exportar ou industrializar, essa sociedade vai se beneficiar primeiro.
A autonomia contempla também a maneira de autogovernar-se, as formas como se elege. A sociedade boliviana não é homogênea. Em alguns lugares, os representantes são eleitos por meio de assembléias, e não pelo voto. Em outros, há uma rotação de pessoas. Isso tudo existe, mas não está formalizado na Constituição vigente.
Quais são as diferenças entre a autonomia departamental proposta na Constituição e aquela dos estatutos autonômicos da oposição?
Está bem claro que os estatutos autonômicos querem dividir a Bolívia em duas. Pretendem fazer suas próprias leis, que beneficiem somente os latifundiários, em detrimento dos povos indígenas que estão na região. Pretendem adotar um sistema de governo centralista. Porque é uma elite que se apoderou das decisões. Por trás disso, estão as transnacionais, a embaixada estadunidense, empresas privadas, que sempre usaram os recursos naturais da Bolívia como matéria-prima, como mercadoria, para encher seus bolsos. Porque, mais que tudo, essa nova Constituição irá prejudicar os latifundiários.
E no novo texto constitucional, como está colocada a questão da autonomia departamental?
Propõe que os departamentos tenham certas competências, inclusive legislativas, mas com o reconhecimento de que o único soberano, que tem direito sobre os recursos naturais, é o Estado [os estatutos autonômicos pretendem dar aos departamentos o poder sobre os recursos em seu território]. E, como dissemos antes, o Estado é o povo. Segue-se pensando na unidade, na integração.
Em relação ao modelo econômico, a senhora acredita que a nova Constituição caminha no sentido de desmontar o neoliberalismo no país?
Sim.
Em que pontos?
Por exemplo, quando se propõe que os recursos não sejam depredados de maneira perversa como faz o capitalismo, e sim cuidando do meio ambiente. No entanto, isso ainda é letra morta. O que se tem que fazer é políticas econômicas novas que cuidem do meio ambiente e dos povos. Está dentro do conceito de modelo de desenvolvimento sustentável.
Então, na medida que o Estado gesta o desenvolvimento, é uma forma de desmonte do neoliberalismo?
Acredito que sim. Não agora. Seguimos no modelo de desenvolvimento neoliberal. Continuamos com o saque. Porque sequer o governo Evo Morales está em um novo tipo de Estado. Está administrando esse Estado. Agora, a partir disso, certamente vai ter um trabalho muito forte para mudar isso.
E em relação ao latifúndio? O texto fala de um limite à extensão das terras, que será de cinco mil ou dez mil hectares [a população deverá decidir o tamanho máximo em um referendo]. Mas, ao mesmo tempo, o texto fala em função econômica e social. Não poderá existir, de nenhuma maneira, propriedades maiores que cinco mil ou dez mil hectares ou estas serão respeitadas quando cumprirem tal função?
Lamentavelmente, esses latifundiários não são verdadeiros trabalhadores da terra. Quando se diz que se deve cumprir uma função econômica social, isso quer dizer que os povos indígenas camponeses não podem estar isolados e abandonados. Não se pode deixar morrer de fome um povo quando há terra, em que este poderia trabalhá-la. Esses povos estão vivendo, na verdade, como escravos. Porque nunca tiveram título, e não têm outra alternativa que trabalhar nesses latifúndios. No entanto, se houver propriedades que excedam os dez mil hectares, e estiverem trabalhando nela, não vão tirar essas terras do proprietário. Porque realmente lhes estão dando uma função econômica e social.
QUEM É
Investigadora e docente da Universidade Pública de El Alto (UPEA), Lucila Choque trabalha para a Representação Presidencial para a Assembléia Constituinte (Repac), entidade vinculada ao Executivo que foi criada com o objetivo de apoiar o processo Constituinte e pós-Constituinte, estabelecendo a relação entre a sociedade civil e a Assembléia. É autora do livro “La Guerra del Gas Contada por Mujeres”.
Uma novidade boa (pelo menos pra mim) é que, finalmente, com muito atraso, comprei uma boa máquina fotográfica, com a qual espero registrar (e compartilhar) meus últimos dois meses neste país encantador.
Brasil de Fato, edição 265 (de 27 de março a 2 de abril de 2008)
Uma Carta Magna de transição
Para especialista boliviana, a nova Constituição do país ainda é liberal, mas garante a inclusão dos povos antes marginalizados
Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)
“Esse novo texto constitucional não é totalmente revolucionário”. A avaliação é de Lucila Choque, investigadora da Universidade Pública de El Alto e da Representação Presidencial para a Assembléia Constituinte (Repac). Para ela, a nova Constituição, aprovada em dezembro, é de transição: ainda é liberal, já que “estamos aceitando ser governados por leis, e as leis foram criadas precisamente pelo Estado como instrumento de uma classe dominante”.
Mesmo assim, ela destaca inúmeros avanços que a Carta Magna pode trazer ao país se for aprovada em referendo – cuja realização permanece indefinida, devido à disputa entre governo e oposição –, principalmente na questão dos direitos dos povos indígenas. Ainda segundo Choque, em entrevista ao Brasil de Fato, o novo texto prevê as autonomias departamentais (principal reivindicação da oposição), mas com uma diferença fundamental em relação às demandas regionais: “o único soberano, que tem direito sobre os recursos naturais, é o Estado”.
Brasil de Fato – Raúl Prada, constituinte do Movimiento Al Socialismo (MAS) e ligado ao vice-presidente boliviano, Álvaro García Linera, disse uma vez que a nova Constituição ainda é liberal; é uma Constituição de “transição”, que consolida o caminho para transformações mais profundas no futuro. A senhora concorda com essa afirmação?
Lucila Choque – Sim. Esse novo texto constitucional não é totalmente revolucionário. É liberal porque ainda estamos aceitando ser governados por leis, e as leis foram criadas precisamente pelo Estado como instrumento de uma classe dominante. Quando Raúl Prada diz “liberal”, refere-se a 1825, quando o país foi fundado, como uma república. Os latino-americanos estavam copiando as fundações na Europa dos Estados-Nações, cujas bases eram hegemonistas, ou seja, uma só língua, um só território, uma uniformidade. Adotamos a democracia, mas uma democracia liberal, representativa. Agora, a brecha se abriu. Se a Carta Magna de 1826 foi realizada por uma elite, a casta crioula, agora, essas revoltas que aconteceram nos últimos anos – posso dizer nos últimos 500 anos – permitiram que esses povos que não gozavam de seus direitos agora participem. Então, não é só liberal. É também comunitária. No novo texto constitucional, já não é dito que a Bolívia é uma república. E sim, que é um Estado. O que se entende por Estado? É o povo. Ou seja, é a maioria marginalizada, oprimida, que está participando. Os outros já estavam. Agora se soma. No entanto, nossos povos, em seu imaginário, não pretendem fundar um socialismo ou comunismo, porque essas são propostas modernistas, e as de nossos povos são anti-modernistas. A correlação de forças atual não permite uma mudança de sistema, e sim o que se está tentando fazer, que os direitos dos povos indígenas se incluam na nova Constituição. Nela, por exemplo, há os direitos fundamentais e há os direitos fundamentalíssimos. Quais são? O direito à vida, à cidadania desde o nascimento, não apenas na hora do voto, o direito à educação, à saúde, à moradia digna e, principalmente, à alimentação. Ou seja, o Estado deve ter uma política alimentar. Essas coisas não existem na Constituição liberal vigente.
Mas, não é uma Constituição indigenista, como diz equivocadamente a direita. É liberal. Porque, no primeiro artigo, diz que a Bolívia é um Estado Social de Direito. Ou seja, está aceitando leis, e leis com direitos. Os que estavam propostos como direitos humanos desde a Europa, e não como nossas necessidades. Na visão anti-modernista de sociedade de nossos povos, não existe o conceito de direito, e sim de dever. Essa visão anti-modernista não tem nada a ver com aversão à tecnologia. E sim que a natureza não é vista como matéria-prima, mas como uma mãe. Deve ser cuidada, e não utilizada como mercadoria para benefício de poucos.
Quais são os principais avanços na nova Constituição?
Em primeiro lugar, o tipo de Estado que se quer adotar. Na Constituição vigente, herdamos um Estado colonial, que buscava a fundamentação da ideologia modernista, que destrói a natureza, e por meio disso, os povos. O maior aporte dessa nova Constituição é no tema de direitos. Está se constitucionalizando, por exemplo, os direitos das crianças e dos adolescentes. Dos idosos. Direito ao trabalho e ao emprego. Quase toda a população está presente com seus direitos. No entanto, porque falamos que ainda é um texto de transição? Porque não está exatamente como os povos queriam. Porque houve uma disputa no cenário da Assembléia Constituinte. Então, os governistas cederam em algumas coisas para garantirem tais direitos. O tema da educação também vai mudar. Pretende-se que o Estado garanta que uma criança, ao nascer, chegue, gratuitamente, pelo menos ao bacharelado.
Quais os foram os retrocessos principais, em relação à proposta popular, no contexto dessa disputa que aconteceu na Assembléia Constituinte?
O novo texto Constitucional é um produto tanto da direita quanto dos povos que estavam participando. A direita trabalhou para que a Constituição vigente, criada por seus pais ou avôs, não se diluísse. Por isso, houve essa disputa. Não aceitam que aqui haja os direitos desses povos, e sim que se mantenha o Estado anterior. Na Constituição vigente, é dito que a Bolívia é um país multiétnico. Os povos eram vistos como etnias, ou seja, como tribos, em estado de desaparecimento. Agora, são considerados nação. Isso eles não querem.
De que maneira as reivindicações da maioria indígenas são atendidas? Quais artigos garantem a inclusão dessa maioria?
Desde o artigo 1, que diz que a Bolívia é um Estado Plurinacional Comunitário. O artigo 5 diz que o idioma oficial não é somente o castelhano, e sim também os idiomas das nações e povos indígenas originários. Além disso, são todos citados no texto. Não se diz simplesmente “as etnias” [A Bolívia possui 36 nações originárias]. No capítulo de direitos, por exemplo, nos civis e políticos, o artigo 21 diz que os bolivianos e as bolivianas têm direito à auto-identificação cultural. No capítulo 4, sobre os direitos das nações e povos indígenas originários e camponeses, há muitos artigos que foram tirados da Declaração de Direitos dos Povos Indígenas da ONU [lançada em setembro de 2007].
Sob quais preceitos a autonomia indígena está colocada?
O único proprietário dos recursos naturais é o Estado. Com a autonomia, os povos serão consultados sobre a gestão desses recursos e, além disso, serão beneficiados de uma maneira mais direta, não mais com esse rodeio burocrático, em que o Estado outorga primeiro para os governos departamentais, depois para os municípios e, se sobrar algo, para os povos. O povoado onde se encontre petróleo ou gás, por exemplo, vai ser consultado se vende ou não, senão, ele vai ser prejudicado. Se o Estado decide, junto com eles, vender, produzir, exportar ou industrializar, essa sociedade vai se beneficiar primeiro.
A autonomia contempla também a maneira de autogovernar-se, as formas como se elege. A sociedade boliviana não é homogênea. Em alguns lugares, os representantes são eleitos por meio de assembléias, e não pelo voto. Em outros, há uma rotação de pessoas. Isso tudo existe, mas não está formalizado na Constituição vigente.
Quais são as diferenças entre a autonomia departamental proposta na Constituição e aquela dos estatutos autonômicos da oposição?
Está bem claro que os estatutos autonômicos querem dividir a Bolívia em duas. Pretendem fazer suas próprias leis, que beneficiem somente os latifundiários, em detrimento dos povos indígenas que estão na região. Pretendem adotar um sistema de governo centralista. Porque é uma elite que se apoderou das decisões. Por trás disso, estão as transnacionais, a embaixada estadunidense, empresas privadas, que sempre usaram os recursos naturais da Bolívia como matéria-prima, como mercadoria, para encher seus bolsos. Porque, mais que tudo, essa nova Constituição irá prejudicar os latifundiários.
E no novo texto constitucional, como está colocada a questão da autonomia departamental?
Propõe que os departamentos tenham certas competências, inclusive legislativas, mas com o reconhecimento de que o único soberano, que tem direito sobre os recursos naturais, é o Estado [os estatutos autonômicos pretendem dar aos departamentos o poder sobre os recursos em seu território]. E, como dissemos antes, o Estado é o povo. Segue-se pensando na unidade, na integração.
Em relação ao modelo econômico, a senhora acredita que a nova Constituição caminha no sentido de desmontar o neoliberalismo no país?
Sim.
Em que pontos?
Por exemplo, quando se propõe que os recursos não sejam depredados de maneira perversa como faz o capitalismo, e sim cuidando do meio ambiente. No entanto, isso ainda é letra morta. O que se tem que fazer é políticas econômicas novas que cuidem do meio ambiente e dos povos. Está dentro do conceito de modelo de desenvolvimento sustentável.
Então, na medida que o Estado gesta o desenvolvimento, é uma forma de desmonte do neoliberalismo?
Acredito que sim. Não agora. Seguimos no modelo de desenvolvimento neoliberal. Continuamos com o saque. Porque sequer o governo Evo Morales está em um novo tipo de Estado. Está administrando esse Estado. Agora, a partir disso, certamente vai ter um trabalho muito forte para mudar isso.
E em relação ao latifúndio? O texto fala de um limite à extensão das terras, que será de cinco mil ou dez mil hectares [a população deverá decidir o tamanho máximo em um referendo]. Mas, ao mesmo tempo, o texto fala em função econômica e social. Não poderá existir, de nenhuma maneira, propriedades maiores que cinco mil ou dez mil hectares ou estas serão respeitadas quando cumprirem tal função?
Lamentavelmente, esses latifundiários não são verdadeiros trabalhadores da terra. Quando se diz que se deve cumprir uma função econômica social, isso quer dizer que os povos indígenas camponeses não podem estar isolados e abandonados. Não se pode deixar morrer de fome um povo quando há terra, em que este poderia trabalhá-la. Esses povos estão vivendo, na verdade, como escravos. Porque nunca tiveram título, e não têm outra alternativa que trabalhar nesses latifúndios. No entanto, se houver propriedades que excedam os dez mil hectares, e estiverem trabalhando nela, não vão tirar essas terras do proprietário. Porque realmente lhes estão dando uma função econômica e social.
QUEM É
Investigadora e docente da Universidade Pública de El Alto (UPEA), Lucila Choque trabalha para a Representação Presidencial para a Assembléia Constituinte (Repac), entidade vinculada ao Executivo que foi criada com o objetivo de apoiar o processo Constituinte e pós-Constituinte, estabelecendo a relação entre a sociedade civil e a Assembléia. É autora do livro “La Guerra del Gas Contada por Mujeres”.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Desanalfabetizando
Abaixo, matéria sobre o programa de alfabetização na Bolívia. O novo prazo para a erradicação do analfabetismo é dezembro. Aqui e aqui, os relatos pessoais sobre a visita a Huanco Pallallani e à Villa San Antonio.
Brasil de Fato, edição 264 (de 20 a 26 de março de 2008)
Um passo para a emancipação
Bolívia quer tornar-se, em outubro de 2008, o terceiro país latino-americano a erradicar o analfabetismo
Igor Ojeda
de La Paz, El Alto e Huanco (Bolívia)
Estrada La Paz – Huanco Pallallani, por volta das 6:30 hs de um domingo
Depois de mais de cinco horas de viagem, amanhece. A escuridão vista da janela da caminhonete que há muito tempo não pára de chacoalhar dá lugar a um cenário impressionante.
Quatro ou cinco mil metros acima do nível do mar. Nesse ponto, a paisagem dos Andes é uma fusão entre desfiladeiros acentuados, verdes morros e planícies e picos nevados ao fundo. Em meio aos rios e pequenos lagos que, nessa época de chuva, estão cheios, conjuntos de poucas casas muito simples, de parede de barro e telhado de palha, misturam-se com milhares de lhamas e alpacas que fazem sua refeição diária ou caminham pelos cumes das montanhas.
A viagem através das subidas, descidas e curvas da estrada de terra, esburacada, enlameada, dura cerca de três horas mais, até a pequena Huanco Pallallani, uma pobre comunidade de, talvez, 200 famílias. Em quase toda a volta da mal-tratada praça principal, as rústicas moradias disputam espaço com o mercado de rua, que comercializa de sardinhas a roupas.
Em um ponto do local, um pequeno e simples palco, decorado com a bandeira boliviana e quadros de Simón Bolívar, o herói da independência da Bolívia. É aí que, em algumas horas, aconteceria a cerimônia de declaração de Aucapata, o município do qual Huanco faz parte, como território livre do analfabetismo.
Bairro Horizontes, El Alto, uma sexta-feira de noite
Apthapi, para os aymaras, é a comida compartilhada. Batata, chuño, frango, banana... Com estes alimentos, saboreados, com as mãos, por todos os que restam em uma sala de aula de uma escola precária na periferia de El Alto, é finalizada a alfabetização de um grupo de senhoras indígenas, conhecidas como cholas. Elas mesmas prepararam e levaram a comida. Estão felizes. Agradecem, a todo momento, aos responsáveis pelo curso. Querem seguir estudando.
Villa San Antonio, periferia de La Paz, noite de segunda-feira
Sob os olhares e o incentivo da professora, uma indígena típica da Bolívia, vestindo uma grande saia, um chale e um gorro azul, escreve na lousa. Tem por volta de 60 anos. Com dificuldade, ela olha no caderno, e as letras vão saindo, pouco a pouco. “F”, “E”, “L”, assim sucessivamente, até aparecer o nome “Felipa”, em extenso e em fôrma.
O resto da classe, formada quase totalmente por senhoras indígenas, observa, ao mesmo tempo em que faz exercícios no caderno. Trabalharam o dia inteiro, mas não demonstram cansaço. Mostram sim seu esforço em aprender. Conversam, brincam.
A escola fica na Villa San Antonio, no alto do morro. Muito alto. De lá, pode-se ver quase toda La Paz iluminada. Muitas das alunas certamente levaram uma hora e meia, duas horas, para vir dos bairros centrais, onde trabalham, e chegar a tempo para a aula. Mas parecem não se incomodar.
Escritório da seção departamental do Plano Nacional de Alfabetização, no bairro de Sopocachi, La Paz, uma quinta-feira à tarde
Nirvana Callejas tem 19 anos. É surda e fala com alguma dificuldade. Mas nada disso impediu que ela ensinasse a 13 surdos-mudos a lerem e escreverem. “Antes eles só usavam sinais. Ensinei a ler os lábios, a escrever orações ordenadas e completas. Por exemplo, ‘mamãe é boa’. Eles escreviam somente ‘mamãe boa’. Então, tem que ensinar a ordenar, a pôr verbo. Há palavras que eles não conhecem, tem que explicar”, conta, sem esconder o orgulho.
Bolívia, coração da América do Sul, início de 2006
Em 1º de março de 2006, é dado o pontapé inicial de um ambicioso projeto do governo do presidente Evo Morales. Tornar seu país o terceiro da América Latina a erradicar o analfabetismo, depois de Cuba, em 1961, e Venezuela, em 2005.
Para tal, decide contar com a ajuda justamente de cubanos e venezuelanos. Da nação governada por Hugo Chávez, viriam assessores. Da ilha, além destes, chegaria o método áudio-visual de alfabetização Yo, Sí Puedo (ver nesta página) – “eu posso, sim”, em espanhol.
Dois anos depois, os resultados são animadores. Até fevereiro deste ano, 472.418 pessoas haviam aprendido a ler e a escrever, número equivalente a 57,38% da meta total. Levando-se em conta os 149.711 alunos que estavam em aula no mesmo mês, o avanço chega a 75,57%. No dia 13 de março, Oruro foi declarado como o primeiro departamento livre do analfabetismo. O objetivo é que em outubro o país inteiro possa ser considerado sem iletrados.
“Antes estávamos muito atrasados, não entendíamos nada. Agora estamos captando as coisas. Quero ler livros, jornais, tudo, tudo, tudo”, diz Martin Mamani, de Huanco Pallallani. Nesta pequena comunidade rural, cerca de 600 pessoas aprenderam a ler e a escrever. Em Aucapata, município que a engloba, foram 1500 no total.
No dia 16 de março, com a presença de autoridades indígenas da região, se içou uma grande bandeira branca dizendo “Aucapata, livre de analfabetismo”. Foi a 128ª cidade do país, de 327, a alcançar o feito.
“Mais feliz”
Liriana Mendoza Choque, de 30 anos, é aluna do programa de alfabetização em Villa San Antonio, em La Paz. Sabia ler e escrever bem mal, pois não completou os estudos por falta de dinheiro. Tinha dificuldade, por exemplo, para preencher os formulários de matrícula dos três filhos que têm idade para ir à escola.
“Fui este ano, me deram três formulários, tinha que preenchê-lo, e te falo que só errei em uma folha. Preenchi os três com facilidade. Conforme eu ia lendo, ia preenchendo, e me sentindo mais feliz. Você se sente melhor quando já pode”, conta. Liriana, que usará o que aprendeu também para estudar a Bíblia, diz que, ao contrário do que fizeram seus pais, vai manter sempre seus filhos estudando. “Vou apoiá-los até o final”.
Já Ubaldina Flores Condori, uma das responsáveis pelo apthapi de El Alto, quer continuar aprendendo. Fazer o programa de pós-alfabetização e, inclusive, computação. “Tudo isso podemos aprender. Querer é poder. Quando não sabemos, aqueles mais capacitados nos humilham”, diz a senhora de 57 anos.
Emancipação
A professora de Liriana, Mery Chuquinia Carrasco, que atua como facilitadora do método Yo, Sí Puedo, explica que a alfabetização contribui para a emancipação feminina. “Quando uma mulher sabe ler e escrever, ela não vai se deixar enganar. Quando não sabem ler ou escrever, lhes podem dizer tantas coisas, tantas mentiras, podem fazê-las assinar papéis falsos, simplesmente com impressão digital. Hoje a mulher tem que saber assinar, saber ler, compreender”.
Emancipação, perda da timidez e elevação da auto-estima foi o que conquistaram cerca de 30 surdos-mudos com a alfabetização, segundo Edith Aguilar, professora que adaptou o método Yo, Sí Puedo para o ensino de pessoas com essa deficiência. “Eles agora acreditam que podem fazer tudo que faz uma pessoa não surda. Acham que não têm mais limitações, porque desenvolveram outras potencialidades: a visão, o tato, a leitura labial etc”.
Vontade
De acordo com ela, o primeiro passo foi convencer os pais, normalmente céticos quanto a evoluções de seus filhos, jovens entre 17 e 25 anos. Depois, a próxima etapa foi fazer a adaptação do método. “Eu punha suas mãos no televisor, para sentirem a vibração, os sons, a pronúncia, o tempo. Trabalhamos com materiais extracurriculares, como pirulitos, para estimular os músculos da língua e da cara. Eles puseram muito de sua vontade”, lembra Edith.
Trabalhando por muitas horas semanais, o curso acabou em três meses. No entanto, duas de suas alunas, uma delas Nirvana Callejas, pediram que os equipamentos não fossem devolvidos. “Então, elas alfabetizaram seus amigos surdos”, conta Edith.
Um método revolucionário
de La Paz (Bolívia)
Criado pela Revolução Cubana, o método de alfabetização Yo, Sí Puedo é inovador pelo uso de equipamentos audiovisuais. Uma televisão, um vídeo cassete e 65 fitas são os instrumentos de ensino. O professor está na tela. Na sala de aula, é imprescindível a presença de um facilitador.
“Estamos certos de que esse é o método mais econômico. É flexível. O custo por alfabetizado é muito menor que em outros países. Em outros lugares, o mínimo é 55 dólares por aluno. Aqui, gastamos de 18 a 20 dólares”, explica Benito Ayma Rojas, diretor-geral do Programa Nacional de Alfabetização (PNA) da Bolívia.
Segundo ele, justamente por ser flexível, o método cubano foi “bolivianizado”. Um grupo de especialistas do país gravou as fitas, fazendo um ajuste à realidade nacional. “Agora, está representada uma mulher de pollera [saia típica das indígenas], um camponês”, conta Benito.
Alfabetização indígena
Outra importante adaptação foi a inclusão da alfabetização em aymara e quéchua, os dois idiomas originários mais falados no país. Para tal, professores das duas etnias gravaram as fitas do curso. Até fevereiro deste ano, 6.089 pessoas haviam sido alfabetizadas em aymara, e 8.937 em quéchua. De acordo com Benito, ainda existe o desejo de se incorporar o guarani.
Uma das grandes dificuldades do programa de alfabetização na Bolívia é chegar nas comunidades rurais mais distantes, principalmente as que não possuem energia elétrica, elemento essencial para o método áudio-visual. Para resolver esse problema, milhares de painéis solares foram e estão sendo instalados nos locais, com a colaboração de Cuba e Venezuela.
Em média, leva-se de três a quatro meses para se alfabetizar uma pessoa com o método Yo, Sí Puedo, enquanto outros demoram de seis meses a um ano. O diretor-geral do PNA conta que os facilitadores não são necessariamente educadores, mas devem ser capacitados para tal. “São professores rurais, urbanos, militares, normalistas, universitários, líderes camponeses, voluntários etc”.
Quem capacita os facilitadores são os assessores cubanos e venezuelanos no país, que também instruem os supervisores e organiza aspectos do programa. No total, estão na Bolívia 120 profissionais de Cuba e 18 da Venezuela.
Agora, diz Benito, o próximo passo é o programa de pós-alfabetização. “Uma equipe técnica já está trabalhando nisso. Professores especialistas em cada matéria vão gravar as fitas, e o curso vai durar de dois a três anos”. (IO)
Brasil de Fato, edição 264 (de 20 a 26 de março de 2008)
Um passo para a emancipação
Bolívia quer tornar-se, em outubro de 2008, o terceiro país latino-americano a erradicar o analfabetismo
Igor Ojeda
de La Paz, El Alto e Huanco (Bolívia)
Estrada La Paz – Huanco Pallallani, por volta das 6:30 hs de um domingo
Depois de mais de cinco horas de viagem, amanhece. A escuridão vista da janela da caminhonete que há muito tempo não pára de chacoalhar dá lugar a um cenário impressionante.
Quatro ou cinco mil metros acima do nível do mar. Nesse ponto, a paisagem dos Andes é uma fusão entre desfiladeiros acentuados, verdes morros e planícies e picos nevados ao fundo. Em meio aos rios e pequenos lagos que, nessa época de chuva, estão cheios, conjuntos de poucas casas muito simples, de parede de barro e telhado de palha, misturam-se com milhares de lhamas e alpacas que fazem sua refeição diária ou caminham pelos cumes das montanhas.
A viagem através das subidas, descidas e curvas da estrada de terra, esburacada, enlameada, dura cerca de três horas mais, até a pequena Huanco Pallallani, uma pobre comunidade de, talvez, 200 famílias. Em quase toda a volta da mal-tratada praça principal, as rústicas moradias disputam espaço com o mercado de rua, que comercializa de sardinhas a roupas.
Em um ponto do local, um pequeno e simples palco, decorado com a bandeira boliviana e quadros de Simón Bolívar, o herói da independência da Bolívia. É aí que, em algumas horas, aconteceria a cerimônia de declaração de Aucapata, o município do qual Huanco faz parte, como território livre do analfabetismo.
Bairro Horizontes, El Alto, uma sexta-feira de noite
Apthapi, para os aymaras, é a comida compartilhada. Batata, chuño, frango, banana... Com estes alimentos, saboreados, com as mãos, por todos os que restam em uma sala de aula de uma escola precária na periferia de El Alto, é finalizada a alfabetização de um grupo de senhoras indígenas, conhecidas como cholas. Elas mesmas prepararam e levaram a comida. Estão felizes. Agradecem, a todo momento, aos responsáveis pelo curso. Querem seguir estudando.
Villa San Antonio, periferia de La Paz, noite de segunda-feira
Sob os olhares e o incentivo da professora, uma indígena típica da Bolívia, vestindo uma grande saia, um chale e um gorro azul, escreve na lousa. Tem por volta de 60 anos. Com dificuldade, ela olha no caderno, e as letras vão saindo, pouco a pouco. “F”, “E”, “L”, assim sucessivamente, até aparecer o nome “Felipa”, em extenso e em fôrma.
O resto da classe, formada quase totalmente por senhoras indígenas, observa, ao mesmo tempo em que faz exercícios no caderno. Trabalharam o dia inteiro, mas não demonstram cansaço. Mostram sim seu esforço em aprender. Conversam, brincam.
A escola fica na Villa San Antonio, no alto do morro. Muito alto. De lá, pode-se ver quase toda La Paz iluminada. Muitas das alunas certamente levaram uma hora e meia, duas horas, para vir dos bairros centrais, onde trabalham, e chegar a tempo para a aula. Mas parecem não se incomodar.
Escritório da seção departamental do Plano Nacional de Alfabetização, no bairro de Sopocachi, La Paz, uma quinta-feira à tarde
Nirvana Callejas tem 19 anos. É surda e fala com alguma dificuldade. Mas nada disso impediu que ela ensinasse a 13 surdos-mudos a lerem e escreverem. “Antes eles só usavam sinais. Ensinei a ler os lábios, a escrever orações ordenadas e completas. Por exemplo, ‘mamãe é boa’. Eles escreviam somente ‘mamãe boa’. Então, tem que ensinar a ordenar, a pôr verbo. Há palavras que eles não conhecem, tem que explicar”, conta, sem esconder o orgulho.
Bolívia, coração da América do Sul, início de 2006
Em 1º de março de 2006, é dado o pontapé inicial de um ambicioso projeto do governo do presidente Evo Morales. Tornar seu país o terceiro da América Latina a erradicar o analfabetismo, depois de Cuba, em 1961, e Venezuela, em 2005.
Para tal, decide contar com a ajuda justamente de cubanos e venezuelanos. Da nação governada por Hugo Chávez, viriam assessores. Da ilha, além destes, chegaria o método áudio-visual de alfabetização Yo, Sí Puedo (ver nesta página) – “eu posso, sim”, em espanhol.
Dois anos depois, os resultados são animadores. Até fevereiro deste ano, 472.418 pessoas haviam aprendido a ler e a escrever, número equivalente a 57,38% da meta total. Levando-se em conta os 149.711 alunos que estavam em aula no mesmo mês, o avanço chega a 75,57%. No dia 13 de março, Oruro foi declarado como o primeiro departamento livre do analfabetismo. O objetivo é que em outubro o país inteiro possa ser considerado sem iletrados.
“Antes estávamos muito atrasados, não entendíamos nada. Agora estamos captando as coisas. Quero ler livros, jornais, tudo, tudo, tudo”, diz Martin Mamani, de Huanco Pallallani. Nesta pequena comunidade rural, cerca de 600 pessoas aprenderam a ler e a escrever. Em Aucapata, município que a engloba, foram 1500 no total.
No dia 16 de março, com a presença de autoridades indígenas da região, se içou uma grande bandeira branca dizendo “Aucapata, livre de analfabetismo”. Foi a 128ª cidade do país, de 327, a alcançar o feito.
“Mais feliz”
Liriana Mendoza Choque, de 30 anos, é aluna do programa de alfabetização em Villa San Antonio, em La Paz. Sabia ler e escrever bem mal, pois não completou os estudos por falta de dinheiro. Tinha dificuldade, por exemplo, para preencher os formulários de matrícula dos três filhos que têm idade para ir à escola.
“Fui este ano, me deram três formulários, tinha que preenchê-lo, e te falo que só errei em uma folha. Preenchi os três com facilidade. Conforme eu ia lendo, ia preenchendo, e me sentindo mais feliz. Você se sente melhor quando já pode”, conta. Liriana, que usará o que aprendeu também para estudar a Bíblia, diz que, ao contrário do que fizeram seus pais, vai manter sempre seus filhos estudando. “Vou apoiá-los até o final”.
Já Ubaldina Flores Condori, uma das responsáveis pelo apthapi de El Alto, quer continuar aprendendo. Fazer o programa de pós-alfabetização e, inclusive, computação. “Tudo isso podemos aprender. Querer é poder. Quando não sabemos, aqueles mais capacitados nos humilham”, diz a senhora de 57 anos.
Emancipação
A professora de Liriana, Mery Chuquinia Carrasco, que atua como facilitadora do método Yo, Sí Puedo, explica que a alfabetização contribui para a emancipação feminina. “Quando uma mulher sabe ler e escrever, ela não vai se deixar enganar. Quando não sabem ler ou escrever, lhes podem dizer tantas coisas, tantas mentiras, podem fazê-las assinar papéis falsos, simplesmente com impressão digital. Hoje a mulher tem que saber assinar, saber ler, compreender”.
Emancipação, perda da timidez e elevação da auto-estima foi o que conquistaram cerca de 30 surdos-mudos com a alfabetização, segundo Edith Aguilar, professora que adaptou o método Yo, Sí Puedo para o ensino de pessoas com essa deficiência. “Eles agora acreditam que podem fazer tudo que faz uma pessoa não surda. Acham que não têm mais limitações, porque desenvolveram outras potencialidades: a visão, o tato, a leitura labial etc”.
Vontade
De acordo com ela, o primeiro passo foi convencer os pais, normalmente céticos quanto a evoluções de seus filhos, jovens entre 17 e 25 anos. Depois, a próxima etapa foi fazer a adaptação do método. “Eu punha suas mãos no televisor, para sentirem a vibração, os sons, a pronúncia, o tempo. Trabalhamos com materiais extracurriculares, como pirulitos, para estimular os músculos da língua e da cara. Eles puseram muito de sua vontade”, lembra Edith.
Trabalhando por muitas horas semanais, o curso acabou em três meses. No entanto, duas de suas alunas, uma delas Nirvana Callejas, pediram que os equipamentos não fossem devolvidos. “Então, elas alfabetizaram seus amigos surdos”, conta Edith.
Um método revolucionário
de La Paz (Bolívia)
Criado pela Revolução Cubana, o método de alfabetização Yo, Sí Puedo é inovador pelo uso de equipamentos audiovisuais. Uma televisão, um vídeo cassete e 65 fitas são os instrumentos de ensino. O professor está na tela. Na sala de aula, é imprescindível a presença de um facilitador.
“Estamos certos de que esse é o método mais econômico. É flexível. O custo por alfabetizado é muito menor que em outros países. Em outros lugares, o mínimo é 55 dólares por aluno. Aqui, gastamos de 18 a 20 dólares”, explica Benito Ayma Rojas, diretor-geral do Programa Nacional de Alfabetização (PNA) da Bolívia.
Segundo ele, justamente por ser flexível, o método cubano foi “bolivianizado”. Um grupo de especialistas do país gravou as fitas, fazendo um ajuste à realidade nacional. “Agora, está representada uma mulher de pollera [saia típica das indígenas], um camponês”, conta Benito.
Alfabetização indígena
Outra importante adaptação foi a inclusão da alfabetização em aymara e quéchua, os dois idiomas originários mais falados no país. Para tal, professores das duas etnias gravaram as fitas do curso. Até fevereiro deste ano, 6.089 pessoas haviam sido alfabetizadas em aymara, e 8.937 em quéchua. De acordo com Benito, ainda existe o desejo de se incorporar o guarani.
Uma das grandes dificuldades do programa de alfabetização na Bolívia é chegar nas comunidades rurais mais distantes, principalmente as que não possuem energia elétrica, elemento essencial para o método áudio-visual. Para resolver esse problema, milhares de painéis solares foram e estão sendo instalados nos locais, com a colaboração de Cuba e Venezuela.
Em média, leva-se de três a quatro meses para se alfabetizar uma pessoa com o método Yo, Sí Puedo, enquanto outros demoram de seis meses a um ano. O diretor-geral do PNA conta que os facilitadores não são necessariamente educadores, mas devem ser capacitados para tal. “São professores rurais, urbanos, militares, normalistas, universitários, líderes camponeses, voluntários etc”.
Quem capacita os facilitadores são os assessores cubanos e venezuelanos no país, que também instruem os supervisores e organiza aspectos do programa. No total, estão na Bolívia 120 profissionais de Cuba e 18 da Venezuela.
Agora, diz Benito, o próximo passo é o programa de pós-alfabetização. “Uma equipe técnica já está trabalhando nisso. Professores especialistas em cada matéria vão gravar as fitas, e o curso vai durar de dois a três anos”. (IO)
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Não vale comparar
Ontem foi feriado aqui em La Paz. Comemoraram 199 anos do grito libertário que a cidade deu contra a colonização espanhola, em 16 de julho de 1809.
Me chamou muito a atenção o “civismo” dos paceños. As ruas enfeitadas com flâmulas e luzes da cor local (vinho e verde, como as de Portugal), carros e vans com bandeirinhas no teto ou na janela, prédios, públicos ou não, com bandeiras enormes. Tinha até pessoas levando bandeirinhas nas mãos.
Parecia o Brasil em época de Copa do Mundo. Mas aqui o fervor é por um acontecimento político-social de 200 anos atrás. Os sete de setembro no Brasil não chegam nem perto disso.
Mas isso tem razão de ser. Os países sul-americanos de língua espanhola passaram por verdadeiras guerras de independência. Conquistaram a liberdade (mesmo que só formal) com muito sangue. No Brasil, já sabemos como foi a palhaçada da “proclamação” às margens do Ipiranga.
Já me perguntaram umas cinco ou seis vezes quem era o libertador do Brasil. Duro responder “Dom Pedro I” para quem tem como herói máximo da libertação ninguém menos que Simón Bolívar. E que tem outros inúmeros heróis coadjuvantes.
Quase todas as vezes fico sem graça, dou aquela gaguejada... e dou uma explicada básica de como não houve guerra, de como foi tudo arranjado etc etc etc. Não raro, meu interlocutor deixa transparecer um ar de surpresa, mas ao mesmo tempo de superioridade.
Me chamou muito a atenção o “civismo” dos paceños. As ruas enfeitadas com flâmulas e luzes da cor local (vinho e verde, como as de Portugal), carros e vans com bandeirinhas no teto ou na janela, prédios, públicos ou não, com bandeiras enormes. Tinha até pessoas levando bandeirinhas nas mãos.
Parecia o Brasil em época de Copa do Mundo. Mas aqui o fervor é por um acontecimento político-social de 200 anos atrás. Os sete de setembro no Brasil não chegam nem perto disso.
Mas isso tem razão de ser. Os países sul-americanos de língua espanhola passaram por verdadeiras guerras de independência. Conquistaram a liberdade (mesmo que só formal) com muito sangue. No Brasil, já sabemos como foi a palhaçada da “proclamação” às margens do Ipiranga.
Já me perguntaram umas cinco ou seis vezes quem era o libertador do Brasil. Duro responder “Dom Pedro I” para quem tem como herói máximo da libertação ninguém menos que Simón Bolívar. E que tem outros inúmeros heróis coadjuvantes.
Quase todas as vezes fico sem graça, dou aquela gaguejada... e dou uma explicada básica de como não houve guerra, de como foi tudo arranjado etc etc etc. Não raro, meu interlocutor deixa transparecer um ar de surpresa, mas ao mesmo tempo de superioridade.
terça-feira, 8 de julho de 2008
Coca não é cocaína!
Brasil de Fato, edição 263 (de 13 a 19 de março de 2008)
O desrespeito a uma cultura milenar
Bolivianos rechaçam recomendação da ONU para que se proíba o hábito de se mascar coca e defendem qualidades da planta
Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)
Acullicu ou pijcheo. Duas palavras que a Comissão de Entorpecentes da Organização das Nações Unidas (ONU) definitivamente não conhece. Pelo menos não no seu sentido mais transcendente, cultural. Sagrado.
Ambas significam o ato de se mascar folha de coca. A primeira é em aymara, a segunda em quéchua, as duas principais línguas indígenas da Bolívia. Acullicar ou pijchar, no entanto, vão mais além que isso. São um costume de mais de três mil anos dos povos andinos, assim como também são milenares os usos da planta na região.
Nas reuniões de sindicatos ou movimentos, em encontros de amigos, em festas, no trabalho nas minas, em rituais religiosos, em tratamentos médicos. Em muitas ocasiões do cotidiano boliviano, a coca ou o ato de mastigá-la está presente como elemento central. Freqüentemente, a bochecha avultada de alguma pessoa acusa o acullicu ou o pijcheo que, além de tudo, estão associados a inúmeros benefícios medicinais e nutritivos.
Pois a ONU, através do informe de 2007 da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (JIFE), entidade colaboradora de sua Comissão de Entorpecente, “exorta os governos da Bolívia e do Peru a adorarem medidas, sem demora, com vistas a abolir os usos da folha de coca contrários à Convenção de 1961, incluída a prática de mascá-la”.
Sustento
A Convenção de 1961 inclui a planta andina em uma lista de entorpecentes proibidos internacionalmente. De acordo com o documento, a mastigação de coca, assim como o consumo de chás ou qualquer outro derivado, tem um impacto no aumento da dependência às drogas na Bolívia que, segundo a entidade, vem aumentando no país.
Desse modo, pede que, além da proibição ao consumo de coca, o governo adote programas educativos que previnam “a expansão dessa prática nos estudantes e jovens em geral, nos condutores de veículos de transporte público e outros grupos vulneráveis da população da Bolívia”.
“Esse informe produz um dano grande a nós que cultuamos a coca e acullicamos. Não é a coquita que mata, que envenena. Ao contrário, ela nos dá força para o trabalho. Não podem cortar o acullicu e a coca. Esse é nosso pão, o sustento de nossas famílias. Nós temos todo o direito de nos mantermos, de sobrevivermos. A ONU não pode nos destruir com suas leis que impõem que a coca e o acullicu devem morrer”, revolta-se Pastor Mamani, dirigente da Federação de Chulumani, organização de plantadores de coca da região de Yungas, ao norte de La Paz. “Em seu estado natural, ela não é droga. É uma folha sagrada, milenar”, completa.
Para a nutricionista Maria Eugenio Tenorio, a ONU considera a folha de coca ruim porque “lhe disseram isso há muitos anos”. Segundo ela, existem produtos realmente danosos que não são levados em conta, como o tabaco e o óleo reciclado. “Ninguém sabe, fora dos EUA, que, antes de entrarem nas partidas, os jogadores de futebol americano mascam tabaco. Agora, muito mais prejudicial que o próprio tabaco é o óleo reciclado, cuja permissão de utilização foi dada em 1996 pela Organização Mundial da Saúde. Sabemos que ele causa câncer ao fígado e ao pâncreas”.
“Aberração”
Na opinião da socióloga Silvia Rivera, o informe da ONU é uma agressão à soberania boliviana e à cultura indígena. Além disso, baseia-se em um estudo sem rigor científico e vai de encontro aos interesses da medicina ocidental.
De acordo com ela, em 1950, a entidade enviou à Bolívia uma comissão para investigar a folha de coca. “O documento que se originou daí era uma aberração, baseado em especulações, em provas fragmentárias. Só estiveram aqui 18 dias e entrevistaram donos de fazendas, capatazes de minas, engenheiros, médicos. Nunca chegaram diretamente ao consumidor. Quem dirigia essa comissão era o presidente da American Pharmaceutical Association”, conta.
Segundo a socióloga, nessa época havia uma medicina com uma visão progressista, que considerava superstições qualquer medicina indígena. Desse modo, tal estudo segue vigente e com base nele a coca foi incluída como substância ilegal na Convenção de 1961. Ela lembra, ainda, que uma cláusula desta convenção permitia a produção, a compra e venda e o transporte da folha de coca apenas para saborizante sem alcalóides. “E a patente mundial da coca como saborizante é da Coca-Cola. Ou seja, se protege os interesses dessa corporação”.
Interesses
No entanto, para Rivera, outros interesses também são atendidos, como os da indústria farmacêutica e da medicina ocidental. “O negócio é mais importante que a saúde. O objetivo não é curar, mas criar dependência. É o vício à droga tolerado. Nesse contexto, a coca é uma ameaça”.
Acompanhando a indignação da população em geral, o governo da Bolívia rechaçou a recomendação da ONU, chamando a Jife de “ignorante e anacrônica”. No dia 10, em Viena, na Áustria, uma delegação do país deixou claro seu protesto na abertura da reunião da Comissão de Entorpecentes do organismo.
Em seu discurso, o vice-chanceler boliviano, Hugo Fernández criticou a “desconsideração e falta de respeito” da Jife com relação a uma tradição de mais de três mil anos. Na ocasião, Fernández anunciou uma solicitação formal de retirada da folha de coca da lista de entorpecentes da ONU.
"Coca não é cocaína"
Pesquisadores relacionam as propriedades medicinais e nutritivas da "folha sagrada"
de La Paz (Bolívia)
O argumento de pesquisadores bolivianos e cidadãos comuns é contundente. Eles deixam claro que a cocaína é produzida através de um alcalóide da planta, e que, para isso, ele deve passar por um processo químico.
Mas, mais que tudo, defendem as diversas propriedades medicinais e nutritivas da “folha sagrada”. Segundo a nutricionista Maria Eugenio Tenorio, a planta andina atua nos sistemas respiratório, digestivo, circulatório e nervoso central. “É boa para dor de estômago, dor muscular. Eu, por exemplo, emagreci 14 quilos. Eliminei o problema grave de gota que tinha. Sinto-me muito bem, fisicamente e espiritualmente. Vejo a vida com outros olhos”, conta.
Ela explica também que a folha de coca contém uma grande quantidade de cálcio, maior, por exemplo, que a do leite. Tal nutriente ajuda a fortalecer os ossos e a combater a osteoporoses. “Por isso que os fósseis de nossos antepassados, quando desenterrados, possuem arcadas dentais completas”, exemplifica.
Benefícios
A folha de coca, de acordo com alguns estudos, elimina gorduras, o colesterol e os triglicérides, combate diarréias e hemorróidas, previne o câncer do cólon e do reto e é um bom suplemento para diabéticos, entre outros benefícios. A planta, além disso, aumenta o rendimento físico em trabalhos longos, pois faz baixar a produção de adrenalina e, conseqüentemente, o consumo de oxigênio. Daí o seu uso abundante nas minas.
Um estudo de 1973 realizado por investigadores da Universidade de Harvard, dos EUA, concluiu que a coca possui uma completa gama de vitaminas e minerais. Ela contém, por exemplo, três vezes mais fibra que os legumes, 14 vezes mais que as frutas e 15 vezes mais que os vegetais, além de uma grande quantidade de vitamina A.
Farinha
“Os lugares de grande altitude da Bolívia possuem comidas com poucas fibras, muitos carboidratos e bastante gordura. E a falta de fibra produz muitos problemas de estômago. Minha proposta é a industrialização da farinha de coca para adicionar à farinha de trigo ou qualquer outra”, explica Maria Eugenio.
É isso o que faz Silvia Quisbert, de uma padaria ecológica de La Paz. “Nós trabalhamos com a farinha de coca orgânica. Colocamos 90% de farinha de trigo, ou de milho, e 10% de farinha de coca”, explica. O resultado são as tortas, bolos, bolachas, empanadas e até chocolates que ela produz, todos com uma coloração verde.
Para a micro-empresária, a recomendação da ONU se deve à má informação por parte dos responsáveis pelo informe. “Nossa folha sagrada não surgiu esse ano. É nossa alimentação”. (IO)
Três milênios de tradição indígena
de La Paz (Bolívia)
O uso da folha de coca pelos povos indígenas dos Andes remonta a mais de três mil anos. A descoberta de estátuas representando humanos com uma protuberância em uma das bochechas demonstra que o hábito de se mascar coca é milenar.
De acordo com a socióloga Silvia Rivera, a coca, para os andinos, era um bem de grande valor, e que possuí-la era sinal de prestígio. Na época do Império Inca, havia, inclusive, plantações estatais. “Seu uso tinha a ver com as relações de poder”.
Já na era colonial, os espanhóis costumavam fornecer folha de coca para os índios que trabalhavam nas minas. “Os grandes produtores de coca eram espanhóis. A partir do século XVII, na região de Yungas [ao norte de La Paz], eles começaram a possuir grandes fazendas que utilizavam mão-de-obra escrava negra. Nesse período, há um aumento no consumo devido à intensificação do trabalho minerador. Havia uma enorme rede de comerciantes indígenas que vinculavam o produtor com o consumidor. Foi a primeira mercadoria indígena moderna”, conta.
Religião
A Bolívia é o terceiro maior produtor mundial de coca, depois da Colômbia e do Peru. O governo boliviano estima que, mensalmente, cerca de 1,1 mil toneladas de coca são consumidas no país. Silvia Rivera calcula que existam três milhões de acullicadores.
Além do uso medicinal e nutricional, a folha de coca está fortemente vinculada à religião andina, sendo parte central dos rituais. “A religião indígena está baseada no culto aos ancestrais, que estão encarnados em acidentes geográficos, como morros, rios, lagos. E em todas as cerimônias se utiliza a folha de coca”, explica.
Além disso, a planta possui uma significativa importância na socialização dos povos andinos. “Todo evento social começa sempre com a coca. Toda discussão em um sindicato, em uma organização indígena, todas a festividades, todos os conflitos etc”. (IO)
Tratamento anti-drogas com base na coca
Jorge Urtado, médico boliviano fundador do Museu da Coca de La Paz, contraria radicalmente a afirmação da ONU de que o acullicu leva ao vício em relação às drogas. Ele utiliza justamente a mastigação da folha de coca para recuperar dependentes de cocaína. De acordo com ele, antes de usar tal método, 25% dos viciados deixavam de consumir a droga. Com o acullicu, a proporção subiu para 50%. (IO)
O desrespeito a uma cultura milenar
Bolivianos rechaçam recomendação da ONU para que se proíba o hábito de se mascar coca e defendem qualidades da planta
Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)
Acullicu ou pijcheo. Duas palavras que a Comissão de Entorpecentes da Organização das Nações Unidas (ONU) definitivamente não conhece. Pelo menos não no seu sentido mais transcendente, cultural. Sagrado.
Ambas significam o ato de se mascar folha de coca. A primeira é em aymara, a segunda em quéchua, as duas principais línguas indígenas da Bolívia. Acullicar ou pijchar, no entanto, vão mais além que isso. São um costume de mais de três mil anos dos povos andinos, assim como também são milenares os usos da planta na região.
Nas reuniões de sindicatos ou movimentos, em encontros de amigos, em festas, no trabalho nas minas, em rituais religiosos, em tratamentos médicos. Em muitas ocasiões do cotidiano boliviano, a coca ou o ato de mastigá-la está presente como elemento central. Freqüentemente, a bochecha avultada de alguma pessoa acusa o acullicu ou o pijcheo que, além de tudo, estão associados a inúmeros benefícios medicinais e nutritivos.
Pois a ONU, através do informe de 2007 da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (JIFE), entidade colaboradora de sua Comissão de Entorpecente, “exorta os governos da Bolívia e do Peru a adorarem medidas, sem demora, com vistas a abolir os usos da folha de coca contrários à Convenção de 1961, incluída a prática de mascá-la”.
Sustento
A Convenção de 1961 inclui a planta andina em uma lista de entorpecentes proibidos internacionalmente. De acordo com o documento, a mastigação de coca, assim como o consumo de chás ou qualquer outro derivado, tem um impacto no aumento da dependência às drogas na Bolívia que, segundo a entidade, vem aumentando no país.
Desse modo, pede que, além da proibição ao consumo de coca, o governo adote programas educativos que previnam “a expansão dessa prática nos estudantes e jovens em geral, nos condutores de veículos de transporte público e outros grupos vulneráveis da população da Bolívia”.
“Esse informe produz um dano grande a nós que cultuamos a coca e acullicamos. Não é a coquita que mata, que envenena. Ao contrário, ela nos dá força para o trabalho. Não podem cortar o acullicu e a coca. Esse é nosso pão, o sustento de nossas famílias. Nós temos todo o direito de nos mantermos, de sobrevivermos. A ONU não pode nos destruir com suas leis que impõem que a coca e o acullicu devem morrer”, revolta-se Pastor Mamani, dirigente da Federação de Chulumani, organização de plantadores de coca da região de Yungas, ao norte de La Paz. “Em seu estado natural, ela não é droga. É uma folha sagrada, milenar”, completa.
Para a nutricionista Maria Eugenio Tenorio, a ONU considera a folha de coca ruim porque “lhe disseram isso há muitos anos”. Segundo ela, existem produtos realmente danosos que não são levados em conta, como o tabaco e o óleo reciclado. “Ninguém sabe, fora dos EUA, que, antes de entrarem nas partidas, os jogadores de futebol americano mascam tabaco. Agora, muito mais prejudicial que o próprio tabaco é o óleo reciclado, cuja permissão de utilização foi dada em 1996 pela Organização Mundial da Saúde. Sabemos que ele causa câncer ao fígado e ao pâncreas”.
“Aberração”
Na opinião da socióloga Silvia Rivera, o informe da ONU é uma agressão à soberania boliviana e à cultura indígena. Além disso, baseia-se em um estudo sem rigor científico e vai de encontro aos interesses da medicina ocidental.
De acordo com ela, em 1950, a entidade enviou à Bolívia uma comissão para investigar a folha de coca. “O documento que se originou daí era uma aberração, baseado em especulações, em provas fragmentárias. Só estiveram aqui 18 dias e entrevistaram donos de fazendas, capatazes de minas, engenheiros, médicos. Nunca chegaram diretamente ao consumidor. Quem dirigia essa comissão era o presidente da American Pharmaceutical Association”, conta.
Segundo a socióloga, nessa época havia uma medicina com uma visão progressista, que considerava superstições qualquer medicina indígena. Desse modo, tal estudo segue vigente e com base nele a coca foi incluída como substância ilegal na Convenção de 1961. Ela lembra, ainda, que uma cláusula desta convenção permitia a produção, a compra e venda e o transporte da folha de coca apenas para saborizante sem alcalóides. “E a patente mundial da coca como saborizante é da Coca-Cola. Ou seja, se protege os interesses dessa corporação”.
Interesses
No entanto, para Rivera, outros interesses também são atendidos, como os da indústria farmacêutica e da medicina ocidental. “O negócio é mais importante que a saúde. O objetivo não é curar, mas criar dependência. É o vício à droga tolerado. Nesse contexto, a coca é uma ameaça”.
Acompanhando a indignação da população em geral, o governo da Bolívia rechaçou a recomendação da ONU, chamando a Jife de “ignorante e anacrônica”. No dia 10, em Viena, na Áustria, uma delegação do país deixou claro seu protesto na abertura da reunião da Comissão de Entorpecentes do organismo.
Em seu discurso, o vice-chanceler boliviano, Hugo Fernández criticou a “desconsideração e falta de respeito” da Jife com relação a uma tradição de mais de três mil anos. Na ocasião, Fernández anunciou uma solicitação formal de retirada da folha de coca da lista de entorpecentes da ONU.
"Coca não é cocaína"
Pesquisadores relacionam as propriedades medicinais e nutritivas da "folha sagrada"
de La Paz (Bolívia)
O argumento de pesquisadores bolivianos e cidadãos comuns é contundente. Eles deixam claro que a cocaína é produzida através de um alcalóide da planta, e que, para isso, ele deve passar por um processo químico.
Mas, mais que tudo, defendem as diversas propriedades medicinais e nutritivas da “folha sagrada”. Segundo a nutricionista Maria Eugenio Tenorio, a planta andina atua nos sistemas respiratório, digestivo, circulatório e nervoso central. “É boa para dor de estômago, dor muscular. Eu, por exemplo, emagreci 14 quilos. Eliminei o problema grave de gota que tinha. Sinto-me muito bem, fisicamente e espiritualmente. Vejo a vida com outros olhos”, conta.
Ela explica também que a folha de coca contém uma grande quantidade de cálcio, maior, por exemplo, que a do leite. Tal nutriente ajuda a fortalecer os ossos e a combater a osteoporoses. “Por isso que os fósseis de nossos antepassados, quando desenterrados, possuem arcadas dentais completas”, exemplifica.
Benefícios
A folha de coca, de acordo com alguns estudos, elimina gorduras, o colesterol e os triglicérides, combate diarréias e hemorróidas, previne o câncer do cólon e do reto e é um bom suplemento para diabéticos, entre outros benefícios. A planta, além disso, aumenta o rendimento físico em trabalhos longos, pois faz baixar a produção de adrenalina e, conseqüentemente, o consumo de oxigênio. Daí o seu uso abundante nas minas.
Um estudo de 1973 realizado por investigadores da Universidade de Harvard, dos EUA, concluiu que a coca possui uma completa gama de vitaminas e minerais. Ela contém, por exemplo, três vezes mais fibra que os legumes, 14 vezes mais que as frutas e 15 vezes mais que os vegetais, além de uma grande quantidade de vitamina A.
Farinha
“Os lugares de grande altitude da Bolívia possuem comidas com poucas fibras, muitos carboidratos e bastante gordura. E a falta de fibra produz muitos problemas de estômago. Minha proposta é a industrialização da farinha de coca para adicionar à farinha de trigo ou qualquer outra”, explica Maria Eugenio.
É isso o que faz Silvia Quisbert, de uma padaria ecológica de La Paz. “Nós trabalhamos com a farinha de coca orgânica. Colocamos 90% de farinha de trigo, ou de milho, e 10% de farinha de coca”, explica. O resultado são as tortas, bolos, bolachas, empanadas e até chocolates que ela produz, todos com uma coloração verde.
Para a micro-empresária, a recomendação da ONU se deve à má informação por parte dos responsáveis pelo informe. “Nossa folha sagrada não surgiu esse ano. É nossa alimentação”. (IO)
Três milênios de tradição indígena
de La Paz (Bolívia)
O uso da folha de coca pelos povos indígenas dos Andes remonta a mais de três mil anos. A descoberta de estátuas representando humanos com uma protuberância em uma das bochechas demonstra que o hábito de se mascar coca é milenar.
De acordo com a socióloga Silvia Rivera, a coca, para os andinos, era um bem de grande valor, e que possuí-la era sinal de prestígio. Na época do Império Inca, havia, inclusive, plantações estatais. “Seu uso tinha a ver com as relações de poder”.
Já na era colonial, os espanhóis costumavam fornecer folha de coca para os índios que trabalhavam nas minas. “Os grandes produtores de coca eram espanhóis. A partir do século XVII, na região de Yungas [ao norte de La Paz], eles começaram a possuir grandes fazendas que utilizavam mão-de-obra escrava negra. Nesse período, há um aumento no consumo devido à intensificação do trabalho minerador. Havia uma enorme rede de comerciantes indígenas que vinculavam o produtor com o consumidor. Foi a primeira mercadoria indígena moderna”, conta.
Religião
A Bolívia é o terceiro maior produtor mundial de coca, depois da Colômbia e do Peru. O governo boliviano estima que, mensalmente, cerca de 1,1 mil toneladas de coca são consumidas no país. Silvia Rivera calcula que existam três milhões de acullicadores.
Além do uso medicinal e nutricional, a folha de coca está fortemente vinculada à religião andina, sendo parte central dos rituais. “A religião indígena está baseada no culto aos ancestrais, que estão encarnados em acidentes geográficos, como morros, rios, lagos. E em todas as cerimônias se utiliza a folha de coca”, explica.
Além disso, a planta possui uma significativa importância na socialização dos povos andinos. “Todo evento social começa sempre com a coca. Toda discussão em um sindicato, em uma organização indígena, todas a festividades, todos os conflitos etc”. (IO)
Tratamento anti-drogas com base na coca
Jorge Urtado, médico boliviano fundador do Museu da Coca de La Paz, contraria radicalmente a afirmação da ONU de que o acullicu leva ao vício em relação às drogas. Ele utiliza justamente a mastigação da folha de coca para recuperar dependentes de cocaína. De acordo com ele, antes de usar tal método, 25% dos viciados deixavam de consumir a droga. Com o acullicu, a proporção subiu para 50%. (IO)
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Colar de histórias
Por Eduardo Galeano*
Nossa região é o reino dos paradoxos.
Brasil, peguemos alguns casos:
Paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas belezas da arte da época colonial;
paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e pela poliomielite, nascido para a infelicidade, foi o jogador que mais alegria deu em toda a história do futebol;
e, paradoxalmente, já completou cem anos de idade Oscar Niemeyer, que é o mais novo dos arquitetos e o mais jovem dos brasileiros.
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Peguemos o caso da Bolívia: em 1978, cinco mulheres enfrentaram uma ditadura militar.
Paradoxalmente, toda Bolívia riu delas quando iniciaram sua greve de fome.
Paradoxalmente, toda Bolívia terminou jejuando com elas, até que a ditadura caiu.
Eu conheci uma dessas cinco lutadoras. Domitila Barrios, no povoado mineiro de Llallagua. Em uma assembléia de operários das minas, todos homens, ela se levantou e fez todos se calarem.
- Quero lhes dizer isto - disse. Nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso inimigo principal é o medo, e o levamos dentro de nós.
E anos depois reencontrei Domitila em Estocolmo. Expulsa da Bolívia, foi ao exílio, com seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, cuja liberdade admirava, mas eles lhe davam pena, tão solitários que estavam, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E lhes dava conselhos:
- Não sejam bobos – dizia a eles. Nós, lá na Bolívia, nos juntamos. Ainda que seja para lutar, nos unimos.
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E quanta razão tinha.
Porque eu digo: Existem os dentes, e não se juntam na boca? Existem os dedos, e não se juntam na mão?Juntamos: e não apenas para defender o preço de nossos produtos, mas também, e sobretudo, para defender o valor de nossos direitos. Estão juntos, embora de vez em quando simulem rixas e disputas, os poucos países ricos que exercem a arrogância sobre todos os demais. Sua riqueza come pobreza, e sua arrogância come medo. Há bem pouco tempo, peguemos este caso, a Europa aprovou a lei que converte os imigrantes em criminosos. Paradoxo dos paradoxos: a Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha a porta nos narizes dos invadidos, quando retribuem a visita. E essa lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a ser comidos e viver com medo.
Medo de viver, medo de dizer, medo de ser. Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas, somente estando juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos adestrou para o medo e a resignação e a solidão e que cada dia nos ensina a não nos querermos, a cuspir no espelho, a copiar em lugar de criar.
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Ao longo de toda a primeira metade do século XIX, um venezuelano chamado Simon Rodríguez, andou pelos caminhos de nossa América, no lombo de mula, desafiando os novos donos do poder:
- Vocês – clamava don Simon – vocês que tanto imitam os europeus, por que não os imitam no mais importante, que é a originalidade?
Paradoxalmente, por ninguém era ouvido este homem que tanto merecia ser ouvido.
Paradoxalmente, o chamavam de louco,
porque tinha o bom senso de acreditar que devemos pensar com nossa própria cabeça,
porque tinha o bom senso de propor uma educação para todos e uma América de todos, e dizia que aquele que não sabe, qualquer um o engana e aquele que não tem, qualquer o compra.
Porque tinha o bom senso de duvidar da independência de nossos países recém-nascidos:
- Não somos donos de nós mesmos – dizia. Somos independentes, mas não somos livres.
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Quinze anos depois da morte do louco Rodríguez, o Paraguai foi exterminado. O único país hispano-americano verdadeiramente livre foi paradoxalmente assassinado em nome da liberdade. O Paraguai não estava preso na jaula da dívida externa, porque não devia um centavo a ninguém, e não praticava a mentirosa liberdade de comércio, que nos impunha e nos impõe uma economia de importação e uma cultura de impostação.
Paradoxalmente, após cinco anos de guerra feroz, entre tanta morte sobreviveu a origem.
Segundo a mais antiga de suas tradições, os paraguaios nasceram da língua que lhes deu nome, e entre as ruínas fumegantes sobreviveu essa língua sagrada, a língua primeira, a língua guarani. E em guarani ainda falam os paraguaios na hora da verdade, que é a hora do amor e do humor.
Em guarani, ñe’ significa palavra e também significa alma. Quem mente a palavra, trai a alma.
Se te dou minha palavra, me dói.
-------------------------------
Um século depois da guerra do Paraguai, um presidente do Chile deu sua palavra, e se deu.
Os aviões cuspiam bombas sobre o palácio do governo, também metralhado pelas tropas de terra. Ele havia dito:
- Eu, daqui, não saio vivo.
Na história latino-americana, é uma frase freqüente. Foi pronunciada por uns quantos presidentes que depois saíram vivos, para continuarem pronunciando-a. Mas, essa bala não mentiu. A bala de Salvador Allende não mentiu.
Paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago do Chile se chama, ainda, Onze de Setembro. E não tem esse nome pelas vítimas das Torres Gêmeas de Nova York. Não. Leva esse nome em homenagem aos verdugos da democracia no Chile, com todo respeito por esse país que amo, me atrevo a perguntar, por puro senso comum: Não seria hora de mudar o nome? Não seria hora de chamá-la Avenida Salvador Allende, em homenagem à dignidade da democracia e à dignidade da palavra?
---------------------------------
E saltando a cordilheira, me pergunto: Por que será que Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem o costume de continuar nascendo?
Paradoxalmente, quanto mais o manipulam, quanto mais o traem, mais nasce. Ele é o mais nascedor de todos.
E me pergunto: Não será porque ele dizia o que pensava, e fazia o que dizia? Não será que por isso continua sendo tão extraordinário, neste mundo onde as palavras e os fatos muito raramente se encontra, e quando se encontram não se saúdam, porque não se reconhecem?
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Os mapas da alma não têm fronteiras, e eu sou patriota de várias pátrias. Mas, quero culminar esta pequena viagem pelas terras da região evocando um homem nascido, como eu, aqui por perto.
Paradoxalmente, ele morreu há um século e meio, mas continua sendo meu compatriota mais perigoso. Tão perigoso é que a ditadura militar do Uruguai não pôde encontrar uma única frase sua que não fosse subversiva, e teve que decorar com datas e nomes de batalhas o mausoléu que ergueu para ofender sua memória.
A ele, que se negou a aceitar que nossa pátria grande se rompesse em pedaços;
a ele, que se negou a aceitar que a independência da América fosse uma emboscada contra seus filhos mais pobres,
a ele, que foi o verdadeiro primeiro cidadão ilustre da região, dedico esta distinção, que recebo em seu nome.
E termino com palavras que lhe escrevi há algum tempo:
1820, Paso del Boquerón. Sem voltar a cabeça, você afunda no exílio. O vejo, estou vendo-o: desliza do Paraná com agilidade de um lagarto e afasta flamejando seu poncho esfarrapado, ao trote do cavalo, e se perde na mata. Você nos diz adeus à sua terra. Ela não acreditava. Ou, talvez, você não sabe, ainda, que parte para sempre.
A paisagem fica cinza. Você vai, vencido, e sua terra fica sem alento.
Lhe devolverão a respiração os filhos que nascerem, os amantes que chegarem? Os que dessa terra brotam, os que nela entram, serão dignos de tristeza tão profunda?
Sua terra. Nossa terra do sul. Você lhe será muito necessário, don José cada vez que os ambiciosos se lastimarem e a humilharem, cada vez que os bobos a considerarem muda ou estéril, você fará falta. Porque você, don José Artigas, general dos simples, é a melhor palavra que ela pronunciou.
(IPS/Envolverde)
*Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, autor de As veias abertas da América Latina, Memórias do fogo e Espelhos/Uma história quase universal.
Nossa região é o reino dos paradoxos.
Brasil, peguemos alguns casos:
Paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas belezas da arte da época colonial;
paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e pela poliomielite, nascido para a infelicidade, foi o jogador que mais alegria deu em toda a história do futebol;
e, paradoxalmente, já completou cem anos de idade Oscar Niemeyer, que é o mais novo dos arquitetos e o mais jovem dos brasileiros.
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Peguemos o caso da Bolívia: em 1978, cinco mulheres enfrentaram uma ditadura militar.
Paradoxalmente, toda Bolívia riu delas quando iniciaram sua greve de fome.
Paradoxalmente, toda Bolívia terminou jejuando com elas, até que a ditadura caiu.
Eu conheci uma dessas cinco lutadoras. Domitila Barrios, no povoado mineiro de Llallagua. Em uma assembléia de operários das minas, todos homens, ela se levantou e fez todos se calarem.
- Quero lhes dizer isto - disse. Nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso inimigo principal é o medo, e o levamos dentro de nós.
E anos depois reencontrei Domitila em Estocolmo. Expulsa da Bolívia, foi ao exílio, com seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, cuja liberdade admirava, mas eles lhe davam pena, tão solitários que estavam, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E lhes dava conselhos:
- Não sejam bobos – dizia a eles. Nós, lá na Bolívia, nos juntamos. Ainda que seja para lutar, nos unimos.
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E quanta razão tinha.
Porque eu digo: Existem os dentes, e não se juntam na boca? Existem os dedos, e não se juntam na mão?Juntamos: e não apenas para defender o preço de nossos produtos, mas também, e sobretudo, para defender o valor de nossos direitos. Estão juntos, embora de vez em quando simulem rixas e disputas, os poucos países ricos que exercem a arrogância sobre todos os demais. Sua riqueza come pobreza, e sua arrogância come medo. Há bem pouco tempo, peguemos este caso, a Europa aprovou a lei que converte os imigrantes em criminosos. Paradoxo dos paradoxos: a Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha a porta nos narizes dos invadidos, quando retribuem a visita. E essa lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a ser comidos e viver com medo.
Medo de viver, medo de dizer, medo de ser. Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas, somente estando juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos adestrou para o medo e a resignação e a solidão e que cada dia nos ensina a não nos querermos, a cuspir no espelho, a copiar em lugar de criar.
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Ao longo de toda a primeira metade do século XIX, um venezuelano chamado Simon Rodríguez, andou pelos caminhos de nossa América, no lombo de mula, desafiando os novos donos do poder:
- Vocês – clamava don Simon – vocês que tanto imitam os europeus, por que não os imitam no mais importante, que é a originalidade?
Paradoxalmente, por ninguém era ouvido este homem que tanto merecia ser ouvido.
Paradoxalmente, o chamavam de louco,
porque tinha o bom senso de acreditar que devemos pensar com nossa própria cabeça,
porque tinha o bom senso de propor uma educação para todos e uma América de todos, e dizia que aquele que não sabe, qualquer um o engana e aquele que não tem, qualquer o compra.
Porque tinha o bom senso de duvidar da independência de nossos países recém-nascidos:
- Não somos donos de nós mesmos – dizia. Somos independentes, mas não somos livres.
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Quinze anos depois da morte do louco Rodríguez, o Paraguai foi exterminado. O único país hispano-americano verdadeiramente livre foi paradoxalmente assassinado em nome da liberdade. O Paraguai não estava preso na jaula da dívida externa, porque não devia um centavo a ninguém, e não praticava a mentirosa liberdade de comércio, que nos impunha e nos impõe uma economia de importação e uma cultura de impostação.
Paradoxalmente, após cinco anos de guerra feroz, entre tanta morte sobreviveu a origem.
Segundo a mais antiga de suas tradições, os paraguaios nasceram da língua que lhes deu nome, e entre as ruínas fumegantes sobreviveu essa língua sagrada, a língua primeira, a língua guarani. E em guarani ainda falam os paraguaios na hora da verdade, que é a hora do amor e do humor.
Em guarani, ñe’ significa palavra e também significa alma. Quem mente a palavra, trai a alma.
Se te dou minha palavra, me dói.
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Um século depois da guerra do Paraguai, um presidente do Chile deu sua palavra, e se deu.
Os aviões cuspiam bombas sobre o palácio do governo, também metralhado pelas tropas de terra. Ele havia dito:
- Eu, daqui, não saio vivo.
Na história latino-americana, é uma frase freqüente. Foi pronunciada por uns quantos presidentes que depois saíram vivos, para continuarem pronunciando-a. Mas, essa bala não mentiu. A bala de Salvador Allende não mentiu.
Paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago do Chile se chama, ainda, Onze de Setembro. E não tem esse nome pelas vítimas das Torres Gêmeas de Nova York. Não. Leva esse nome em homenagem aos verdugos da democracia no Chile, com todo respeito por esse país que amo, me atrevo a perguntar, por puro senso comum: Não seria hora de mudar o nome? Não seria hora de chamá-la Avenida Salvador Allende, em homenagem à dignidade da democracia e à dignidade da palavra?
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E saltando a cordilheira, me pergunto: Por que será que Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem o costume de continuar nascendo?
Paradoxalmente, quanto mais o manipulam, quanto mais o traem, mais nasce. Ele é o mais nascedor de todos.
E me pergunto: Não será porque ele dizia o que pensava, e fazia o que dizia? Não será que por isso continua sendo tão extraordinário, neste mundo onde as palavras e os fatos muito raramente se encontra, e quando se encontram não se saúdam, porque não se reconhecem?
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Os mapas da alma não têm fronteiras, e eu sou patriota de várias pátrias. Mas, quero culminar esta pequena viagem pelas terras da região evocando um homem nascido, como eu, aqui por perto.
Paradoxalmente, ele morreu há um século e meio, mas continua sendo meu compatriota mais perigoso. Tão perigoso é que a ditadura militar do Uruguai não pôde encontrar uma única frase sua que não fosse subversiva, e teve que decorar com datas e nomes de batalhas o mausoléu que ergueu para ofender sua memória.
A ele, que se negou a aceitar que nossa pátria grande se rompesse em pedaços;
a ele, que se negou a aceitar que a independência da América fosse uma emboscada contra seus filhos mais pobres,
a ele, que foi o verdadeiro primeiro cidadão ilustre da região, dedico esta distinção, que recebo em seu nome.
E termino com palavras que lhe escrevi há algum tempo:
1820, Paso del Boquerón. Sem voltar a cabeça, você afunda no exílio. O vejo, estou vendo-o: desliza do Paraná com agilidade de um lagarto e afasta flamejando seu poncho esfarrapado, ao trote do cavalo, e se perde na mata. Você nos diz adeus à sua terra. Ela não acreditava. Ou, talvez, você não sabe, ainda, que parte para sempre.
A paisagem fica cinza. Você vai, vencido, e sua terra fica sem alento.
Lhe devolverão a respiração os filhos que nascerem, os amantes que chegarem? Os que dessa terra brotam, os que nela entram, serão dignos de tristeza tão profunda?
Sua terra. Nossa terra do sul. Você lhe será muito necessário, don José cada vez que os ambiciosos se lastimarem e a humilharem, cada vez que os bobos a considerarem muda ou estéril, você fará falta. Porque você, don José Artigas, general dos simples, é a melhor palavra que ela pronunciou.
(IPS/Envolverde)
*Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, autor de As veias abertas da América Latina, Memórias do fogo e Espelhos/Uma história quase universal.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Uma tarde no zoológico
Tenho algumas confissões a fazer.
A primeira é: eu gosto de zoológicos.
A segunda: minha namorada, a Tati, também.
A terceira: quando ela esteve aqui, há alguns dias, fomos, numa tarde de sábado, no zoológico de La Paz.
Bem, dito isso, resta falar que até que vale a pena, principalmente para os naturais de países não-andinos. Pois no zoológico paceño estão alguns animais com os quais não estamos acostumados, como o condor (só por esse já vale), o jucumari (o urso andino), a vizcacha (uma espécie de coelho com cauda de esquilo) e a raposa andina, além da lhama e de seus parentes, a alpaca e a vicuña, essas mais fáceis de avistar em qualquer viagem pelo altiplano.
Tudo isso, pagando mais ou menos 1 real de entrada.
O impressionante e imponente condor
A primeira é: eu gosto de zoológicos.
A segunda: minha namorada, a Tati, também.
A terceira: quando ela esteve aqui, há alguns dias, fomos, numa tarde de sábado, no zoológico de La Paz.
Bem, dito isso, resta falar que até que vale a pena, principalmente para os naturais de países não-andinos. Pois no zoológico paceño estão alguns animais com os quais não estamos acostumados, como o condor (só por esse já vale), o jucumari (o urso andino), a vizcacha (uma espécie de coelho com cauda de esquilo) e a raposa andina, além da lhama e de seus parentes, a alpaca e a vicuña, essas mais fáceis de avistar em qualquer viagem pelo altiplano.
Tudo isso, pagando mais ou menos 1 real de entrada.
O impressionante e imponente condor
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