Abaixo, matéria sobre o programa de alfabetização na Bolívia. O novo prazo para a erradicação do analfabetismo é dezembro. Aqui e aqui, os relatos pessoais sobre a visita a Huanco Pallallani e à Villa San Antonio.
Brasil de Fato, edição 264 (de 20 a 26 de março de 2008)
Um passo para a emancipação
Bolívia quer tornar-se, em outubro de 2008, o terceiro país latino-americano a erradicar o analfabetismo
Igor Ojeda
de La Paz, El Alto e Huanco (Bolívia)
Estrada La Paz – Huanco Pallallani, por volta das 6:30 hs de um domingo
Depois de mais de cinco horas de viagem, amanhece. A escuridão vista da janela da caminhonete que há muito tempo não pára de chacoalhar dá lugar a um cenário impressionante.
Quatro ou cinco mil metros acima do nível do mar. Nesse ponto, a paisagem dos Andes é uma fusão entre desfiladeiros acentuados, verdes morros e planícies e picos nevados ao fundo. Em meio aos rios e pequenos lagos que, nessa época de chuva, estão cheios, conjuntos de poucas casas muito simples, de parede de barro e telhado de palha, misturam-se com milhares de lhamas e alpacas que fazem sua refeição diária ou caminham pelos cumes das montanhas.
A viagem através das subidas, descidas e curvas da estrada de terra, esburacada, enlameada, dura cerca de três horas mais, até a pequena Huanco Pallallani, uma pobre comunidade de, talvez, 200 famílias. Em quase toda a volta da mal-tratada praça principal, as rústicas moradias disputam espaço com o mercado de rua, que comercializa de sardinhas a roupas.
Em um ponto do local, um pequeno e simples palco, decorado com a bandeira boliviana e quadros de Simón Bolívar, o herói da independência da Bolívia. É aí que, em algumas horas, aconteceria a cerimônia de declaração de Aucapata, o município do qual Huanco faz parte, como território livre do analfabetismo.
Bairro Horizontes, El Alto, uma sexta-feira de noite
Apthapi, para os aymaras, é a comida compartilhada. Batata, chuño, frango, banana... Com estes alimentos, saboreados, com as mãos, por todos os que restam em uma sala de aula de uma escola precária na periferia de El Alto, é finalizada a alfabetização de um grupo de senhoras indígenas, conhecidas como cholas. Elas mesmas prepararam e levaram a comida. Estão felizes. Agradecem, a todo momento, aos responsáveis pelo curso. Querem seguir estudando.
Villa San Antonio, periferia de La Paz, noite de segunda-feira
Sob os olhares e o incentivo da professora, uma indígena típica da Bolívia, vestindo uma grande saia, um chale e um gorro azul, escreve na lousa. Tem por volta de 60 anos. Com dificuldade, ela olha no caderno, e as letras vão saindo, pouco a pouco. “F”, “E”, “L”, assim sucessivamente, até aparecer o nome “Felipa”, em extenso e em fôrma.
O resto da classe, formada quase totalmente por senhoras indígenas, observa, ao mesmo tempo em que faz exercícios no caderno. Trabalharam o dia inteiro, mas não demonstram cansaço. Mostram sim seu esforço em aprender. Conversam, brincam.
A escola fica na Villa San Antonio, no alto do morro. Muito alto. De lá, pode-se ver quase toda La Paz iluminada. Muitas das alunas certamente levaram uma hora e meia, duas horas, para vir dos bairros centrais, onde trabalham, e chegar a tempo para a aula. Mas parecem não se incomodar.
Escritório da seção departamental do Plano Nacional de Alfabetização, no bairro de Sopocachi, La Paz, uma quinta-feira à tarde
Nirvana Callejas tem 19 anos. É surda e fala com alguma dificuldade. Mas nada disso impediu que ela ensinasse a 13 surdos-mudos a lerem e escreverem. “Antes eles só usavam sinais. Ensinei a ler os lábios, a escrever orações ordenadas e completas. Por exemplo, ‘mamãe é boa’. Eles escreviam somente ‘mamãe boa’. Então, tem que ensinar a ordenar, a pôr verbo. Há palavras que eles não conhecem, tem que explicar”, conta, sem esconder o orgulho.
Bolívia, coração da América do Sul, início de 2006
Em 1º de março de 2006, é dado o pontapé inicial de um ambicioso projeto do governo do presidente Evo Morales. Tornar seu país o terceiro da América Latina a erradicar o analfabetismo, depois de Cuba, em 1961, e Venezuela, em 2005.
Para tal, decide contar com a ajuda justamente de cubanos e venezuelanos. Da nação governada por Hugo Chávez, viriam assessores. Da ilha, além destes, chegaria o método áudio-visual de alfabetização Yo, Sí Puedo (ver nesta página) – “eu posso, sim”, em espanhol.
Dois anos depois, os resultados são animadores. Até fevereiro deste ano, 472.418 pessoas haviam aprendido a ler e a escrever, número equivalente a 57,38% da meta total. Levando-se em conta os 149.711 alunos que estavam em aula no mesmo mês, o avanço chega a 75,57%. No dia 13 de março, Oruro foi declarado como o primeiro departamento livre do analfabetismo. O objetivo é que em outubro o país inteiro possa ser considerado sem iletrados.
“Antes estávamos muito atrasados, não entendíamos nada. Agora estamos captando as coisas. Quero ler livros, jornais, tudo, tudo, tudo”, diz Martin Mamani, de Huanco Pallallani. Nesta pequena comunidade rural, cerca de 600 pessoas aprenderam a ler e a escrever. Em Aucapata, município que a engloba, foram 1500 no total.
No dia 16 de março, com a presença de autoridades indígenas da região, se içou uma grande bandeira branca dizendo “Aucapata, livre de analfabetismo”. Foi a 128ª cidade do país, de 327, a alcançar o feito.
“Mais feliz”
Liriana Mendoza Choque, de 30 anos, é aluna do programa de alfabetização em Villa San Antonio, em La Paz. Sabia ler e escrever bem mal, pois não completou os estudos por falta de dinheiro. Tinha dificuldade, por exemplo, para preencher os formulários de matrícula dos três filhos que têm idade para ir à escola.
“Fui este ano, me deram três formulários, tinha que preenchê-lo, e te falo que só errei em uma folha. Preenchi os três com facilidade. Conforme eu ia lendo, ia preenchendo, e me sentindo mais feliz. Você se sente melhor quando já pode”, conta. Liriana, que usará o que aprendeu também para estudar a Bíblia, diz que, ao contrário do que fizeram seus pais, vai manter sempre seus filhos estudando. “Vou apoiá-los até o final”.
Já Ubaldina Flores Condori, uma das responsáveis pelo apthapi de El Alto, quer continuar aprendendo. Fazer o programa de pós-alfabetização e, inclusive, computação. “Tudo isso podemos aprender. Querer é poder. Quando não sabemos, aqueles mais capacitados nos humilham”, diz a senhora de 57 anos.
Emancipação
A professora de Liriana, Mery Chuquinia Carrasco, que atua como facilitadora do método Yo, Sí Puedo, explica que a alfabetização contribui para a emancipação feminina. “Quando uma mulher sabe ler e escrever, ela não vai se deixar enganar. Quando não sabem ler ou escrever, lhes podem dizer tantas coisas, tantas mentiras, podem fazê-las assinar papéis falsos, simplesmente com impressão digital. Hoje a mulher tem que saber assinar, saber ler, compreender”.
Emancipação, perda da timidez e elevação da auto-estima foi o que conquistaram cerca de 30 surdos-mudos com a alfabetização, segundo Edith Aguilar, professora que adaptou o método Yo, Sí Puedo para o ensino de pessoas com essa deficiência. “Eles agora acreditam que podem fazer tudo que faz uma pessoa não surda. Acham que não têm mais limitações, porque desenvolveram outras potencialidades: a visão, o tato, a leitura labial etc”.
Vontade
De acordo com ela, o primeiro passo foi convencer os pais, normalmente céticos quanto a evoluções de seus filhos, jovens entre 17 e 25 anos. Depois, a próxima etapa foi fazer a adaptação do método. “Eu punha suas mãos no televisor, para sentirem a vibração, os sons, a pronúncia, o tempo. Trabalhamos com materiais extracurriculares, como pirulitos, para estimular os músculos da língua e da cara. Eles puseram muito de sua vontade”, lembra Edith.
Trabalhando por muitas horas semanais, o curso acabou em três meses. No entanto, duas de suas alunas, uma delas Nirvana Callejas, pediram que os equipamentos não fossem devolvidos. “Então, elas alfabetizaram seus amigos surdos”, conta Edith.
Um método revolucionário
de La Paz (Bolívia)
Criado pela Revolução Cubana, o método de alfabetização Yo, Sí Puedo é inovador pelo uso de equipamentos audiovisuais. Uma televisão, um vídeo cassete e 65 fitas são os instrumentos de ensino. O professor está na tela. Na sala de aula, é imprescindível a presença de um facilitador.
“Estamos certos de que esse é o método mais econômico. É flexível. O custo por alfabetizado é muito menor que em outros países. Em outros lugares, o mínimo é 55 dólares por aluno. Aqui, gastamos de 18 a 20 dólares”, explica Benito Ayma Rojas, diretor-geral do Programa Nacional de Alfabetização (PNA) da Bolívia.
Segundo ele, justamente por ser flexível, o método cubano foi “bolivianizado”. Um grupo de especialistas do país gravou as fitas, fazendo um ajuste à realidade nacional. “Agora, está representada uma mulher de pollera [saia típica das indígenas], um camponês”, conta Benito.
Alfabetização indígena
Outra importante adaptação foi a inclusão da alfabetização em aymara e quéchua, os dois idiomas originários mais falados no país. Para tal, professores das duas etnias gravaram as fitas do curso. Até fevereiro deste ano, 6.089 pessoas haviam sido alfabetizadas em aymara, e 8.937 em quéchua. De acordo com Benito, ainda existe o desejo de se incorporar o guarani.
Uma das grandes dificuldades do programa de alfabetização na Bolívia é chegar nas comunidades rurais mais distantes, principalmente as que não possuem energia elétrica, elemento essencial para o método áudio-visual. Para resolver esse problema, milhares de painéis solares foram e estão sendo instalados nos locais, com a colaboração de Cuba e Venezuela.
Em média, leva-se de três a quatro meses para se alfabetizar uma pessoa com o método Yo, Sí Puedo, enquanto outros demoram de seis meses a um ano. O diretor-geral do PNA conta que os facilitadores não são necessariamente educadores, mas devem ser capacitados para tal. “São professores rurais, urbanos, militares, normalistas, universitários, líderes camponeses, voluntários etc”.
Quem capacita os facilitadores são os assessores cubanos e venezuelanos no país, que também instruem os supervisores e organiza aspectos do programa. No total, estão na Bolívia 120 profissionais de Cuba e 18 da Venezuela.
Agora, diz Benito, o próximo passo é o programa de pós-alfabetização. “Uma equipe técnica já está trabalhando nisso. Professores especialistas em cada matéria vão gravar as fitas, e o curso vai durar de dois a três anos”. (IO)
quinta-feira, 24 de julho de 2008
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Não vale comparar
Ontem foi feriado aqui em La Paz. Comemoraram 199 anos do grito libertário que a cidade deu contra a colonização espanhola, em 16 de julho de 1809.
Me chamou muito a atenção o “civismo” dos paceños. As ruas enfeitadas com flâmulas e luzes da cor local (vinho e verde, como as de Portugal), carros e vans com bandeirinhas no teto ou na janela, prédios, públicos ou não, com bandeiras enormes. Tinha até pessoas levando bandeirinhas nas mãos.
Parecia o Brasil em época de Copa do Mundo. Mas aqui o fervor é por um acontecimento político-social de 200 anos atrás. Os sete de setembro no Brasil não chegam nem perto disso.
Mas isso tem razão de ser. Os países sul-americanos de língua espanhola passaram por verdadeiras guerras de independência. Conquistaram a liberdade (mesmo que só formal) com muito sangue. No Brasil, já sabemos como foi a palhaçada da “proclamação” às margens do Ipiranga.
Já me perguntaram umas cinco ou seis vezes quem era o libertador do Brasil. Duro responder “Dom Pedro I” para quem tem como herói máximo da libertação ninguém menos que Simón Bolívar. E que tem outros inúmeros heróis coadjuvantes.
Quase todas as vezes fico sem graça, dou aquela gaguejada... e dou uma explicada básica de como não houve guerra, de como foi tudo arranjado etc etc etc. Não raro, meu interlocutor deixa transparecer um ar de surpresa, mas ao mesmo tempo de superioridade.
Me chamou muito a atenção o “civismo” dos paceños. As ruas enfeitadas com flâmulas e luzes da cor local (vinho e verde, como as de Portugal), carros e vans com bandeirinhas no teto ou na janela, prédios, públicos ou não, com bandeiras enormes. Tinha até pessoas levando bandeirinhas nas mãos.
Parecia o Brasil em época de Copa do Mundo. Mas aqui o fervor é por um acontecimento político-social de 200 anos atrás. Os sete de setembro no Brasil não chegam nem perto disso.
Mas isso tem razão de ser. Os países sul-americanos de língua espanhola passaram por verdadeiras guerras de independência. Conquistaram a liberdade (mesmo que só formal) com muito sangue. No Brasil, já sabemos como foi a palhaçada da “proclamação” às margens do Ipiranga.
Já me perguntaram umas cinco ou seis vezes quem era o libertador do Brasil. Duro responder “Dom Pedro I” para quem tem como herói máximo da libertação ninguém menos que Simón Bolívar. E que tem outros inúmeros heróis coadjuvantes.
Quase todas as vezes fico sem graça, dou aquela gaguejada... e dou uma explicada básica de como não houve guerra, de como foi tudo arranjado etc etc etc. Não raro, meu interlocutor deixa transparecer um ar de surpresa, mas ao mesmo tempo de superioridade.
terça-feira, 8 de julho de 2008
Coca não é cocaína!
Brasil de Fato, edição 263 (de 13 a 19 de março de 2008)
O desrespeito a uma cultura milenar
Bolivianos rechaçam recomendação da ONU para que se proíba o hábito de se mascar coca e defendem qualidades da planta
Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)
Acullicu ou pijcheo. Duas palavras que a Comissão de Entorpecentes da Organização das Nações Unidas (ONU) definitivamente não conhece. Pelo menos não no seu sentido mais transcendente, cultural. Sagrado.
Ambas significam o ato de se mascar folha de coca. A primeira é em aymara, a segunda em quéchua, as duas principais línguas indígenas da Bolívia. Acullicar ou pijchar, no entanto, vão mais além que isso. São um costume de mais de três mil anos dos povos andinos, assim como também são milenares os usos da planta na região.
Nas reuniões de sindicatos ou movimentos, em encontros de amigos, em festas, no trabalho nas minas, em rituais religiosos, em tratamentos médicos. Em muitas ocasiões do cotidiano boliviano, a coca ou o ato de mastigá-la está presente como elemento central. Freqüentemente, a bochecha avultada de alguma pessoa acusa o acullicu ou o pijcheo que, além de tudo, estão associados a inúmeros benefícios medicinais e nutritivos.
Pois a ONU, através do informe de 2007 da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (JIFE), entidade colaboradora de sua Comissão de Entorpecente, “exorta os governos da Bolívia e do Peru a adorarem medidas, sem demora, com vistas a abolir os usos da folha de coca contrários à Convenção de 1961, incluída a prática de mascá-la”.
Sustento
A Convenção de 1961 inclui a planta andina em uma lista de entorpecentes proibidos internacionalmente. De acordo com o documento, a mastigação de coca, assim como o consumo de chás ou qualquer outro derivado, tem um impacto no aumento da dependência às drogas na Bolívia que, segundo a entidade, vem aumentando no país.
Desse modo, pede que, além da proibição ao consumo de coca, o governo adote programas educativos que previnam “a expansão dessa prática nos estudantes e jovens em geral, nos condutores de veículos de transporte público e outros grupos vulneráveis da população da Bolívia”.
“Esse informe produz um dano grande a nós que cultuamos a coca e acullicamos. Não é a coquita que mata, que envenena. Ao contrário, ela nos dá força para o trabalho. Não podem cortar o acullicu e a coca. Esse é nosso pão, o sustento de nossas famílias. Nós temos todo o direito de nos mantermos, de sobrevivermos. A ONU não pode nos destruir com suas leis que impõem que a coca e o acullicu devem morrer”, revolta-se Pastor Mamani, dirigente da Federação de Chulumani, organização de plantadores de coca da região de Yungas, ao norte de La Paz. “Em seu estado natural, ela não é droga. É uma folha sagrada, milenar”, completa.
Para a nutricionista Maria Eugenio Tenorio, a ONU considera a folha de coca ruim porque “lhe disseram isso há muitos anos”. Segundo ela, existem produtos realmente danosos que não são levados em conta, como o tabaco e o óleo reciclado. “Ninguém sabe, fora dos EUA, que, antes de entrarem nas partidas, os jogadores de futebol americano mascam tabaco. Agora, muito mais prejudicial que o próprio tabaco é o óleo reciclado, cuja permissão de utilização foi dada em 1996 pela Organização Mundial da Saúde. Sabemos que ele causa câncer ao fígado e ao pâncreas”.
“Aberração”
Na opinião da socióloga Silvia Rivera, o informe da ONU é uma agressão à soberania boliviana e à cultura indígena. Além disso, baseia-se em um estudo sem rigor científico e vai de encontro aos interesses da medicina ocidental.
De acordo com ela, em 1950, a entidade enviou à Bolívia uma comissão para investigar a folha de coca. “O documento que se originou daí era uma aberração, baseado em especulações, em provas fragmentárias. Só estiveram aqui 18 dias e entrevistaram donos de fazendas, capatazes de minas, engenheiros, médicos. Nunca chegaram diretamente ao consumidor. Quem dirigia essa comissão era o presidente da American Pharmaceutical Association”, conta.
Segundo a socióloga, nessa época havia uma medicina com uma visão progressista, que considerava superstições qualquer medicina indígena. Desse modo, tal estudo segue vigente e com base nele a coca foi incluída como substância ilegal na Convenção de 1961. Ela lembra, ainda, que uma cláusula desta convenção permitia a produção, a compra e venda e o transporte da folha de coca apenas para saborizante sem alcalóides. “E a patente mundial da coca como saborizante é da Coca-Cola. Ou seja, se protege os interesses dessa corporação”.
Interesses
No entanto, para Rivera, outros interesses também são atendidos, como os da indústria farmacêutica e da medicina ocidental. “O negócio é mais importante que a saúde. O objetivo não é curar, mas criar dependência. É o vício à droga tolerado. Nesse contexto, a coca é uma ameaça”.
Acompanhando a indignação da população em geral, o governo da Bolívia rechaçou a recomendação da ONU, chamando a Jife de “ignorante e anacrônica”. No dia 10, em Viena, na Áustria, uma delegação do país deixou claro seu protesto na abertura da reunião da Comissão de Entorpecentes do organismo.
Em seu discurso, o vice-chanceler boliviano, Hugo Fernández criticou a “desconsideração e falta de respeito” da Jife com relação a uma tradição de mais de três mil anos. Na ocasião, Fernández anunciou uma solicitação formal de retirada da folha de coca da lista de entorpecentes da ONU.
"Coca não é cocaína"
Pesquisadores relacionam as propriedades medicinais e nutritivas da "folha sagrada"
de La Paz (Bolívia)
O argumento de pesquisadores bolivianos e cidadãos comuns é contundente. Eles deixam claro que a cocaína é produzida através de um alcalóide da planta, e que, para isso, ele deve passar por um processo químico.
Mas, mais que tudo, defendem as diversas propriedades medicinais e nutritivas da “folha sagrada”. Segundo a nutricionista Maria Eugenio Tenorio, a planta andina atua nos sistemas respiratório, digestivo, circulatório e nervoso central. “É boa para dor de estômago, dor muscular. Eu, por exemplo, emagreci 14 quilos. Eliminei o problema grave de gota que tinha. Sinto-me muito bem, fisicamente e espiritualmente. Vejo a vida com outros olhos”, conta.
Ela explica também que a folha de coca contém uma grande quantidade de cálcio, maior, por exemplo, que a do leite. Tal nutriente ajuda a fortalecer os ossos e a combater a osteoporoses. “Por isso que os fósseis de nossos antepassados, quando desenterrados, possuem arcadas dentais completas”, exemplifica.
Benefícios
A folha de coca, de acordo com alguns estudos, elimina gorduras, o colesterol e os triglicérides, combate diarréias e hemorróidas, previne o câncer do cólon e do reto e é um bom suplemento para diabéticos, entre outros benefícios. A planta, além disso, aumenta o rendimento físico em trabalhos longos, pois faz baixar a produção de adrenalina e, conseqüentemente, o consumo de oxigênio. Daí o seu uso abundante nas minas.
Um estudo de 1973 realizado por investigadores da Universidade de Harvard, dos EUA, concluiu que a coca possui uma completa gama de vitaminas e minerais. Ela contém, por exemplo, três vezes mais fibra que os legumes, 14 vezes mais que as frutas e 15 vezes mais que os vegetais, além de uma grande quantidade de vitamina A.
Farinha
“Os lugares de grande altitude da Bolívia possuem comidas com poucas fibras, muitos carboidratos e bastante gordura. E a falta de fibra produz muitos problemas de estômago. Minha proposta é a industrialização da farinha de coca para adicionar à farinha de trigo ou qualquer outra”, explica Maria Eugenio.
É isso o que faz Silvia Quisbert, de uma padaria ecológica de La Paz. “Nós trabalhamos com a farinha de coca orgânica. Colocamos 90% de farinha de trigo, ou de milho, e 10% de farinha de coca”, explica. O resultado são as tortas, bolos, bolachas, empanadas e até chocolates que ela produz, todos com uma coloração verde.
Para a micro-empresária, a recomendação da ONU se deve à má informação por parte dos responsáveis pelo informe. “Nossa folha sagrada não surgiu esse ano. É nossa alimentação”. (IO)
Três milênios de tradição indígena
de La Paz (Bolívia)
O uso da folha de coca pelos povos indígenas dos Andes remonta a mais de três mil anos. A descoberta de estátuas representando humanos com uma protuberância em uma das bochechas demonstra que o hábito de se mascar coca é milenar.
De acordo com a socióloga Silvia Rivera, a coca, para os andinos, era um bem de grande valor, e que possuí-la era sinal de prestígio. Na época do Império Inca, havia, inclusive, plantações estatais. “Seu uso tinha a ver com as relações de poder”.
Já na era colonial, os espanhóis costumavam fornecer folha de coca para os índios que trabalhavam nas minas. “Os grandes produtores de coca eram espanhóis. A partir do século XVII, na região de Yungas [ao norte de La Paz], eles começaram a possuir grandes fazendas que utilizavam mão-de-obra escrava negra. Nesse período, há um aumento no consumo devido à intensificação do trabalho minerador. Havia uma enorme rede de comerciantes indígenas que vinculavam o produtor com o consumidor. Foi a primeira mercadoria indígena moderna”, conta.
Religião
A Bolívia é o terceiro maior produtor mundial de coca, depois da Colômbia e do Peru. O governo boliviano estima que, mensalmente, cerca de 1,1 mil toneladas de coca são consumidas no país. Silvia Rivera calcula que existam três milhões de acullicadores.
Além do uso medicinal e nutricional, a folha de coca está fortemente vinculada à religião andina, sendo parte central dos rituais. “A religião indígena está baseada no culto aos ancestrais, que estão encarnados em acidentes geográficos, como morros, rios, lagos. E em todas as cerimônias se utiliza a folha de coca”, explica.
Além disso, a planta possui uma significativa importância na socialização dos povos andinos. “Todo evento social começa sempre com a coca. Toda discussão em um sindicato, em uma organização indígena, todas a festividades, todos os conflitos etc”. (IO)
Tratamento anti-drogas com base na coca
Jorge Urtado, médico boliviano fundador do Museu da Coca de La Paz, contraria radicalmente a afirmação da ONU de que o acullicu leva ao vício em relação às drogas. Ele utiliza justamente a mastigação da folha de coca para recuperar dependentes de cocaína. De acordo com ele, antes de usar tal método, 25% dos viciados deixavam de consumir a droga. Com o acullicu, a proporção subiu para 50%. (IO)
O desrespeito a uma cultura milenar
Bolivianos rechaçam recomendação da ONU para que se proíba o hábito de se mascar coca e defendem qualidades da planta
Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)
Acullicu ou pijcheo. Duas palavras que a Comissão de Entorpecentes da Organização das Nações Unidas (ONU) definitivamente não conhece. Pelo menos não no seu sentido mais transcendente, cultural. Sagrado.
Ambas significam o ato de se mascar folha de coca. A primeira é em aymara, a segunda em quéchua, as duas principais línguas indígenas da Bolívia. Acullicar ou pijchar, no entanto, vão mais além que isso. São um costume de mais de três mil anos dos povos andinos, assim como também são milenares os usos da planta na região.
Nas reuniões de sindicatos ou movimentos, em encontros de amigos, em festas, no trabalho nas minas, em rituais religiosos, em tratamentos médicos. Em muitas ocasiões do cotidiano boliviano, a coca ou o ato de mastigá-la está presente como elemento central. Freqüentemente, a bochecha avultada de alguma pessoa acusa o acullicu ou o pijcheo que, além de tudo, estão associados a inúmeros benefícios medicinais e nutritivos.
Pois a ONU, através do informe de 2007 da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (JIFE), entidade colaboradora de sua Comissão de Entorpecente, “exorta os governos da Bolívia e do Peru a adorarem medidas, sem demora, com vistas a abolir os usos da folha de coca contrários à Convenção de 1961, incluída a prática de mascá-la”.
Sustento
A Convenção de 1961 inclui a planta andina em uma lista de entorpecentes proibidos internacionalmente. De acordo com o documento, a mastigação de coca, assim como o consumo de chás ou qualquer outro derivado, tem um impacto no aumento da dependência às drogas na Bolívia que, segundo a entidade, vem aumentando no país.
Desse modo, pede que, além da proibição ao consumo de coca, o governo adote programas educativos que previnam “a expansão dessa prática nos estudantes e jovens em geral, nos condutores de veículos de transporte público e outros grupos vulneráveis da população da Bolívia”.
“Esse informe produz um dano grande a nós que cultuamos a coca e acullicamos. Não é a coquita que mata, que envenena. Ao contrário, ela nos dá força para o trabalho. Não podem cortar o acullicu e a coca. Esse é nosso pão, o sustento de nossas famílias. Nós temos todo o direito de nos mantermos, de sobrevivermos. A ONU não pode nos destruir com suas leis que impõem que a coca e o acullicu devem morrer”, revolta-se Pastor Mamani, dirigente da Federação de Chulumani, organização de plantadores de coca da região de Yungas, ao norte de La Paz. “Em seu estado natural, ela não é droga. É uma folha sagrada, milenar”, completa.
Para a nutricionista Maria Eugenio Tenorio, a ONU considera a folha de coca ruim porque “lhe disseram isso há muitos anos”. Segundo ela, existem produtos realmente danosos que não são levados em conta, como o tabaco e o óleo reciclado. “Ninguém sabe, fora dos EUA, que, antes de entrarem nas partidas, os jogadores de futebol americano mascam tabaco. Agora, muito mais prejudicial que o próprio tabaco é o óleo reciclado, cuja permissão de utilização foi dada em 1996 pela Organização Mundial da Saúde. Sabemos que ele causa câncer ao fígado e ao pâncreas”.
“Aberração”
Na opinião da socióloga Silvia Rivera, o informe da ONU é uma agressão à soberania boliviana e à cultura indígena. Além disso, baseia-se em um estudo sem rigor científico e vai de encontro aos interesses da medicina ocidental.
De acordo com ela, em 1950, a entidade enviou à Bolívia uma comissão para investigar a folha de coca. “O documento que se originou daí era uma aberração, baseado em especulações, em provas fragmentárias. Só estiveram aqui 18 dias e entrevistaram donos de fazendas, capatazes de minas, engenheiros, médicos. Nunca chegaram diretamente ao consumidor. Quem dirigia essa comissão era o presidente da American Pharmaceutical Association”, conta.
Segundo a socióloga, nessa época havia uma medicina com uma visão progressista, que considerava superstições qualquer medicina indígena. Desse modo, tal estudo segue vigente e com base nele a coca foi incluída como substância ilegal na Convenção de 1961. Ela lembra, ainda, que uma cláusula desta convenção permitia a produção, a compra e venda e o transporte da folha de coca apenas para saborizante sem alcalóides. “E a patente mundial da coca como saborizante é da Coca-Cola. Ou seja, se protege os interesses dessa corporação”.
Interesses
No entanto, para Rivera, outros interesses também são atendidos, como os da indústria farmacêutica e da medicina ocidental. “O negócio é mais importante que a saúde. O objetivo não é curar, mas criar dependência. É o vício à droga tolerado. Nesse contexto, a coca é uma ameaça”.
Acompanhando a indignação da população em geral, o governo da Bolívia rechaçou a recomendação da ONU, chamando a Jife de “ignorante e anacrônica”. No dia 10, em Viena, na Áustria, uma delegação do país deixou claro seu protesto na abertura da reunião da Comissão de Entorpecentes do organismo.
Em seu discurso, o vice-chanceler boliviano, Hugo Fernández criticou a “desconsideração e falta de respeito” da Jife com relação a uma tradição de mais de três mil anos. Na ocasião, Fernández anunciou uma solicitação formal de retirada da folha de coca da lista de entorpecentes da ONU.
"Coca não é cocaína"
Pesquisadores relacionam as propriedades medicinais e nutritivas da "folha sagrada"
de La Paz (Bolívia)
O argumento de pesquisadores bolivianos e cidadãos comuns é contundente. Eles deixam claro que a cocaína é produzida através de um alcalóide da planta, e que, para isso, ele deve passar por um processo químico.
Mas, mais que tudo, defendem as diversas propriedades medicinais e nutritivas da “folha sagrada”. Segundo a nutricionista Maria Eugenio Tenorio, a planta andina atua nos sistemas respiratório, digestivo, circulatório e nervoso central. “É boa para dor de estômago, dor muscular. Eu, por exemplo, emagreci 14 quilos. Eliminei o problema grave de gota que tinha. Sinto-me muito bem, fisicamente e espiritualmente. Vejo a vida com outros olhos”, conta.
Ela explica também que a folha de coca contém uma grande quantidade de cálcio, maior, por exemplo, que a do leite. Tal nutriente ajuda a fortalecer os ossos e a combater a osteoporoses. “Por isso que os fósseis de nossos antepassados, quando desenterrados, possuem arcadas dentais completas”, exemplifica.
Benefícios
A folha de coca, de acordo com alguns estudos, elimina gorduras, o colesterol e os triglicérides, combate diarréias e hemorróidas, previne o câncer do cólon e do reto e é um bom suplemento para diabéticos, entre outros benefícios. A planta, além disso, aumenta o rendimento físico em trabalhos longos, pois faz baixar a produção de adrenalina e, conseqüentemente, o consumo de oxigênio. Daí o seu uso abundante nas minas.
Um estudo de 1973 realizado por investigadores da Universidade de Harvard, dos EUA, concluiu que a coca possui uma completa gama de vitaminas e minerais. Ela contém, por exemplo, três vezes mais fibra que os legumes, 14 vezes mais que as frutas e 15 vezes mais que os vegetais, além de uma grande quantidade de vitamina A.
Farinha
“Os lugares de grande altitude da Bolívia possuem comidas com poucas fibras, muitos carboidratos e bastante gordura. E a falta de fibra produz muitos problemas de estômago. Minha proposta é a industrialização da farinha de coca para adicionar à farinha de trigo ou qualquer outra”, explica Maria Eugenio.
É isso o que faz Silvia Quisbert, de uma padaria ecológica de La Paz. “Nós trabalhamos com a farinha de coca orgânica. Colocamos 90% de farinha de trigo, ou de milho, e 10% de farinha de coca”, explica. O resultado são as tortas, bolos, bolachas, empanadas e até chocolates que ela produz, todos com uma coloração verde.
Para a micro-empresária, a recomendação da ONU se deve à má informação por parte dos responsáveis pelo informe. “Nossa folha sagrada não surgiu esse ano. É nossa alimentação”. (IO)
Três milênios de tradição indígena
de La Paz (Bolívia)
O uso da folha de coca pelos povos indígenas dos Andes remonta a mais de três mil anos. A descoberta de estátuas representando humanos com uma protuberância em uma das bochechas demonstra que o hábito de se mascar coca é milenar.
De acordo com a socióloga Silvia Rivera, a coca, para os andinos, era um bem de grande valor, e que possuí-la era sinal de prestígio. Na época do Império Inca, havia, inclusive, plantações estatais. “Seu uso tinha a ver com as relações de poder”.
Já na era colonial, os espanhóis costumavam fornecer folha de coca para os índios que trabalhavam nas minas. “Os grandes produtores de coca eram espanhóis. A partir do século XVII, na região de Yungas [ao norte de La Paz], eles começaram a possuir grandes fazendas que utilizavam mão-de-obra escrava negra. Nesse período, há um aumento no consumo devido à intensificação do trabalho minerador. Havia uma enorme rede de comerciantes indígenas que vinculavam o produtor com o consumidor. Foi a primeira mercadoria indígena moderna”, conta.
Religião
A Bolívia é o terceiro maior produtor mundial de coca, depois da Colômbia e do Peru. O governo boliviano estima que, mensalmente, cerca de 1,1 mil toneladas de coca são consumidas no país. Silvia Rivera calcula que existam três milhões de acullicadores.
Além do uso medicinal e nutricional, a folha de coca está fortemente vinculada à religião andina, sendo parte central dos rituais. “A religião indígena está baseada no culto aos ancestrais, que estão encarnados em acidentes geográficos, como morros, rios, lagos. E em todas as cerimônias se utiliza a folha de coca”, explica.
Além disso, a planta possui uma significativa importância na socialização dos povos andinos. “Todo evento social começa sempre com a coca. Toda discussão em um sindicato, em uma organização indígena, todas a festividades, todos os conflitos etc”. (IO)
Tratamento anti-drogas com base na coca
Jorge Urtado, médico boliviano fundador do Museu da Coca de La Paz, contraria radicalmente a afirmação da ONU de que o acullicu leva ao vício em relação às drogas. Ele utiliza justamente a mastigação da folha de coca para recuperar dependentes de cocaína. De acordo com ele, antes de usar tal método, 25% dos viciados deixavam de consumir a droga. Com o acullicu, a proporção subiu para 50%. (IO)
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Colar de histórias
Por Eduardo Galeano*
Nossa região é o reino dos paradoxos.
Brasil, peguemos alguns casos:
Paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas belezas da arte da época colonial;
paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e pela poliomielite, nascido para a infelicidade, foi o jogador que mais alegria deu em toda a história do futebol;
e, paradoxalmente, já completou cem anos de idade Oscar Niemeyer, que é o mais novo dos arquitetos e o mais jovem dos brasileiros.
-------------------
Peguemos o caso da Bolívia: em 1978, cinco mulheres enfrentaram uma ditadura militar.
Paradoxalmente, toda Bolívia riu delas quando iniciaram sua greve de fome.
Paradoxalmente, toda Bolívia terminou jejuando com elas, até que a ditadura caiu.
Eu conheci uma dessas cinco lutadoras. Domitila Barrios, no povoado mineiro de Llallagua. Em uma assembléia de operários das minas, todos homens, ela se levantou e fez todos se calarem.
- Quero lhes dizer isto - disse. Nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso inimigo principal é o medo, e o levamos dentro de nós.
E anos depois reencontrei Domitila em Estocolmo. Expulsa da Bolívia, foi ao exílio, com seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, cuja liberdade admirava, mas eles lhe davam pena, tão solitários que estavam, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E lhes dava conselhos:
- Não sejam bobos – dizia a eles. Nós, lá na Bolívia, nos juntamos. Ainda que seja para lutar, nos unimos.
-----------------------
E quanta razão tinha.
Porque eu digo: Existem os dentes, e não se juntam na boca? Existem os dedos, e não se juntam na mão?Juntamos: e não apenas para defender o preço de nossos produtos, mas também, e sobretudo, para defender o valor de nossos direitos. Estão juntos, embora de vez em quando simulem rixas e disputas, os poucos países ricos que exercem a arrogância sobre todos os demais. Sua riqueza come pobreza, e sua arrogância come medo. Há bem pouco tempo, peguemos este caso, a Europa aprovou a lei que converte os imigrantes em criminosos. Paradoxo dos paradoxos: a Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha a porta nos narizes dos invadidos, quando retribuem a visita. E essa lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a ser comidos e viver com medo.
Medo de viver, medo de dizer, medo de ser. Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas, somente estando juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos adestrou para o medo e a resignação e a solidão e que cada dia nos ensina a não nos querermos, a cuspir no espelho, a copiar em lugar de criar.
--------------------------------
Ao longo de toda a primeira metade do século XIX, um venezuelano chamado Simon Rodríguez, andou pelos caminhos de nossa América, no lombo de mula, desafiando os novos donos do poder:
- Vocês – clamava don Simon – vocês que tanto imitam os europeus, por que não os imitam no mais importante, que é a originalidade?
Paradoxalmente, por ninguém era ouvido este homem que tanto merecia ser ouvido.
Paradoxalmente, o chamavam de louco,
porque tinha o bom senso de acreditar que devemos pensar com nossa própria cabeça,
porque tinha o bom senso de propor uma educação para todos e uma América de todos, e dizia que aquele que não sabe, qualquer um o engana e aquele que não tem, qualquer o compra.
Porque tinha o bom senso de duvidar da independência de nossos países recém-nascidos:
- Não somos donos de nós mesmos – dizia. Somos independentes, mas não somos livres.
------------------------------
Quinze anos depois da morte do louco Rodríguez, o Paraguai foi exterminado. O único país hispano-americano verdadeiramente livre foi paradoxalmente assassinado em nome da liberdade. O Paraguai não estava preso na jaula da dívida externa, porque não devia um centavo a ninguém, e não praticava a mentirosa liberdade de comércio, que nos impunha e nos impõe uma economia de importação e uma cultura de impostação.
Paradoxalmente, após cinco anos de guerra feroz, entre tanta morte sobreviveu a origem.
Segundo a mais antiga de suas tradições, os paraguaios nasceram da língua que lhes deu nome, e entre as ruínas fumegantes sobreviveu essa língua sagrada, a língua primeira, a língua guarani. E em guarani ainda falam os paraguaios na hora da verdade, que é a hora do amor e do humor.
Em guarani, ñe’ significa palavra e também significa alma. Quem mente a palavra, trai a alma.
Se te dou minha palavra, me dói.
-------------------------------
Um século depois da guerra do Paraguai, um presidente do Chile deu sua palavra, e se deu.
Os aviões cuspiam bombas sobre o palácio do governo, também metralhado pelas tropas de terra. Ele havia dito:
- Eu, daqui, não saio vivo.
Na história latino-americana, é uma frase freqüente. Foi pronunciada por uns quantos presidentes que depois saíram vivos, para continuarem pronunciando-a. Mas, essa bala não mentiu. A bala de Salvador Allende não mentiu.
Paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago do Chile se chama, ainda, Onze de Setembro. E não tem esse nome pelas vítimas das Torres Gêmeas de Nova York. Não. Leva esse nome em homenagem aos verdugos da democracia no Chile, com todo respeito por esse país que amo, me atrevo a perguntar, por puro senso comum: Não seria hora de mudar o nome? Não seria hora de chamá-la Avenida Salvador Allende, em homenagem à dignidade da democracia e à dignidade da palavra?
---------------------------------
E saltando a cordilheira, me pergunto: Por que será que Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem o costume de continuar nascendo?
Paradoxalmente, quanto mais o manipulam, quanto mais o traem, mais nasce. Ele é o mais nascedor de todos.
E me pergunto: Não será porque ele dizia o que pensava, e fazia o que dizia? Não será que por isso continua sendo tão extraordinário, neste mundo onde as palavras e os fatos muito raramente se encontra, e quando se encontram não se saúdam, porque não se reconhecem?
-----------------------------
Os mapas da alma não têm fronteiras, e eu sou patriota de várias pátrias. Mas, quero culminar esta pequena viagem pelas terras da região evocando um homem nascido, como eu, aqui por perto.
Paradoxalmente, ele morreu há um século e meio, mas continua sendo meu compatriota mais perigoso. Tão perigoso é que a ditadura militar do Uruguai não pôde encontrar uma única frase sua que não fosse subversiva, e teve que decorar com datas e nomes de batalhas o mausoléu que ergueu para ofender sua memória.
A ele, que se negou a aceitar que nossa pátria grande se rompesse em pedaços;
a ele, que se negou a aceitar que a independência da América fosse uma emboscada contra seus filhos mais pobres,
a ele, que foi o verdadeiro primeiro cidadão ilustre da região, dedico esta distinção, que recebo em seu nome.
E termino com palavras que lhe escrevi há algum tempo:
1820, Paso del Boquerón. Sem voltar a cabeça, você afunda no exílio. O vejo, estou vendo-o: desliza do Paraná com agilidade de um lagarto e afasta flamejando seu poncho esfarrapado, ao trote do cavalo, e se perde na mata. Você nos diz adeus à sua terra. Ela não acreditava. Ou, talvez, você não sabe, ainda, que parte para sempre.
A paisagem fica cinza. Você vai, vencido, e sua terra fica sem alento.
Lhe devolverão a respiração os filhos que nascerem, os amantes que chegarem? Os que dessa terra brotam, os que nela entram, serão dignos de tristeza tão profunda?
Sua terra. Nossa terra do sul. Você lhe será muito necessário, don José cada vez que os ambiciosos se lastimarem e a humilharem, cada vez que os bobos a considerarem muda ou estéril, você fará falta. Porque você, don José Artigas, general dos simples, é a melhor palavra que ela pronunciou.
(IPS/Envolverde)
*Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, autor de As veias abertas da América Latina, Memórias do fogo e Espelhos/Uma história quase universal.
Nossa região é o reino dos paradoxos.
Brasil, peguemos alguns casos:
Paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas belezas da arte da época colonial;
paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e pela poliomielite, nascido para a infelicidade, foi o jogador que mais alegria deu em toda a história do futebol;
e, paradoxalmente, já completou cem anos de idade Oscar Niemeyer, que é o mais novo dos arquitetos e o mais jovem dos brasileiros.
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Peguemos o caso da Bolívia: em 1978, cinco mulheres enfrentaram uma ditadura militar.
Paradoxalmente, toda Bolívia riu delas quando iniciaram sua greve de fome.
Paradoxalmente, toda Bolívia terminou jejuando com elas, até que a ditadura caiu.
Eu conheci uma dessas cinco lutadoras. Domitila Barrios, no povoado mineiro de Llallagua. Em uma assembléia de operários das minas, todos homens, ela se levantou e fez todos se calarem.
- Quero lhes dizer isto - disse. Nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso inimigo principal é o medo, e o levamos dentro de nós.
E anos depois reencontrei Domitila em Estocolmo. Expulsa da Bolívia, foi ao exílio, com seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, cuja liberdade admirava, mas eles lhe davam pena, tão solitários que estavam, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E lhes dava conselhos:
- Não sejam bobos – dizia a eles. Nós, lá na Bolívia, nos juntamos. Ainda que seja para lutar, nos unimos.
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E quanta razão tinha.
Porque eu digo: Existem os dentes, e não se juntam na boca? Existem os dedos, e não se juntam na mão?Juntamos: e não apenas para defender o preço de nossos produtos, mas também, e sobretudo, para defender o valor de nossos direitos. Estão juntos, embora de vez em quando simulem rixas e disputas, os poucos países ricos que exercem a arrogância sobre todos os demais. Sua riqueza come pobreza, e sua arrogância come medo. Há bem pouco tempo, peguemos este caso, a Europa aprovou a lei que converte os imigrantes em criminosos. Paradoxo dos paradoxos: a Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha a porta nos narizes dos invadidos, quando retribuem a visita. E essa lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a ser comidos e viver com medo.
Medo de viver, medo de dizer, medo de ser. Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas, somente estando juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos adestrou para o medo e a resignação e a solidão e que cada dia nos ensina a não nos querermos, a cuspir no espelho, a copiar em lugar de criar.
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Ao longo de toda a primeira metade do século XIX, um venezuelano chamado Simon Rodríguez, andou pelos caminhos de nossa América, no lombo de mula, desafiando os novos donos do poder:
- Vocês – clamava don Simon – vocês que tanto imitam os europeus, por que não os imitam no mais importante, que é a originalidade?
Paradoxalmente, por ninguém era ouvido este homem que tanto merecia ser ouvido.
Paradoxalmente, o chamavam de louco,
porque tinha o bom senso de acreditar que devemos pensar com nossa própria cabeça,
porque tinha o bom senso de propor uma educação para todos e uma América de todos, e dizia que aquele que não sabe, qualquer um o engana e aquele que não tem, qualquer o compra.
Porque tinha o bom senso de duvidar da independência de nossos países recém-nascidos:
- Não somos donos de nós mesmos – dizia. Somos independentes, mas não somos livres.
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Quinze anos depois da morte do louco Rodríguez, o Paraguai foi exterminado. O único país hispano-americano verdadeiramente livre foi paradoxalmente assassinado em nome da liberdade. O Paraguai não estava preso na jaula da dívida externa, porque não devia um centavo a ninguém, e não praticava a mentirosa liberdade de comércio, que nos impunha e nos impõe uma economia de importação e uma cultura de impostação.
Paradoxalmente, após cinco anos de guerra feroz, entre tanta morte sobreviveu a origem.
Segundo a mais antiga de suas tradições, os paraguaios nasceram da língua que lhes deu nome, e entre as ruínas fumegantes sobreviveu essa língua sagrada, a língua primeira, a língua guarani. E em guarani ainda falam os paraguaios na hora da verdade, que é a hora do amor e do humor.
Em guarani, ñe’ significa palavra e também significa alma. Quem mente a palavra, trai a alma.
Se te dou minha palavra, me dói.
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Um século depois da guerra do Paraguai, um presidente do Chile deu sua palavra, e se deu.
Os aviões cuspiam bombas sobre o palácio do governo, também metralhado pelas tropas de terra. Ele havia dito:
- Eu, daqui, não saio vivo.
Na história latino-americana, é uma frase freqüente. Foi pronunciada por uns quantos presidentes que depois saíram vivos, para continuarem pronunciando-a. Mas, essa bala não mentiu. A bala de Salvador Allende não mentiu.
Paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago do Chile se chama, ainda, Onze de Setembro. E não tem esse nome pelas vítimas das Torres Gêmeas de Nova York. Não. Leva esse nome em homenagem aos verdugos da democracia no Chile, com todo respeito por esse país que amo, me atrevo a perguntar, por puro senso comum: Não seria hora de mudar o nome? Não seria hora de chamá-la Avenida Salvador Allende, em homenagem à dignidade da democracia e à dignidade da palavra?
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E saltando a cordilheira, me pergunto: Por que será que Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem o costume de continuar nascendo?
Paradoxalmente, quanto mais o manipulam, quanto mais o traem, mais nasce. Ele é o mais nascedor de todos.
E me pergunto: Não será porque ele dizia o que pensava, e fazia o que dizia? Não será que por isso continua sendo tão extraordinário, neste mundo onde as palavras e os fatos muito raramente se encontra, e quando se encontram não se saúdam, porque não se reconhecem?
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Os mapas da alma não têm fronteiras, e eu sou patriota de várias pátrias. Mas, quero culminar esta pequena viagem pelas terras da região evocando um homem nascido, como eu, aqui por perto.
Paradoxalmente, ele morreu há um século e meio, mas continua sendo meu compatriota mais perigoso. Tão perigoso é que a ditadura militar do Uruguai não pôde encontrar uma única frase sua que não fosse subversiva, e teve que decorar com datas e nomes de batalhas o mausoléu que ergueu para ofender sua memória.
A ele, que se negou a aceitar que nossa pátria grande se rompesse em pedaços;
a ele, que se negou a aceitar que a independência da América fosse uma emboscada contra seus filhos mais pobres,
a ele, que foi o verdadeiro primeiro cidadão ilustre da região, dedico esta distinção, que recebo em seu nome.
E termino com palavras que lhe escrevi há algum tempo:
1820, Paso del Boquerón. Sem voltar a cabeça, você afunda no exílio. O vejo, estou vendo-o: desliza do Paraná com agilidade de um lagarto e afasta flamejando seu poncho esfarrapado, ao trote do cavalo, e se perde na mata. Você nos diz adeus à sua terra. Ela não acreditava. Ou, talvez, você não sabe, ainda, que parte para sempre.
A paisagem fica cinza. Você vai, vencido, e sua terra fica sem alento.
Lhe devolverão a respiração os filhos que nascerem, os amantes que chegarem? Os que dessa terra brotam, os que nela entram, serão dignos de tristeza tão profunda?
Sua terra. Nossa terra do sul. Você lhe será muito necessário, don José cada vez que os ambiciosos se lastimarem e a humilharem, cada vez que os bobos a considerarem muda ou estéril, você fará falta. Porque você, don José Artigas, general dos simples, é a melhor palavra que ela pronunciou.
(IPS/Envolverde)
*Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, autor de As veias abertas da América Latina, Memórias do fogo e Espelhos/Uma história quase universal.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Uma tarde no zoológico
Tenho algumas confissões a fazer.
A primeira é: eu gosto de zoológicos.
A segunda: minha namorada, a Tati, também.
A terceira: quando ela esteve aqui, há alguns dias, fomos, numa tarde de sábado, no zoológico de La Paz.
Bem, dito isso, resta falar que até que vale a pena, principalmente para os naturais de países não-andinos. Pois no zoológico paceño estão alguns animais com os quais não estamos acostumados, como o condor (só por esse já vale), o jucumari (o urso andino), a vizcacha (uma espécie de coelho com cauda de esquilo) e a raposa andina, além da lhama e de seus parentes, a alpaca e a vicuña, essas mais fáceis de avistar em qualquer viagem pelo altiplano.
Tudo isso, pagando mais ou menos 1 real de entrada.
O impressionante e imponente condor
A primeira é: eu gosto de zoológicos.
A segunda: minha namorada, a Tati, também.
A terceira: quando ela esteve aqui, há alguns dias, fomos, numa tarde de sábado, no zoológico de La Paz.
Bem, dito isso, resta falar que até que vale a pena, principalmente para os naturais de países não-andinos. Pois no zoológico paceño estão alguns animais com os quais não estamos acostumados, como o condor (só por esse já vale), o jucumari (o urso andino), a vizcacha (uma espécie de coelho com cauda de esquilo) e a raposa andina, além da lhama e de seus parentes, a alpaca e a vicuña, essas mais fáceis de avistar em qualquer viagem pelo altiplano.
Tudo isso, pagando mais ou menos 1 real de entrada.
O impressionante e imponente condorsegunda-feira, 30 de junho de 2008
Diálogos com La Paz
Brasil de Fato, edição 256 (de 24 a 30 de janeiro de 2008)
Oito bate-papos aleatórios na capital boliviana, sobre a vida e o presidente Evo Morales, que completou dois anos de governo no dia 22 de janeiro
Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)
No banco da praça, entre 55 e 60 anos
- O senhor tem horas?
- Vinte para às onze.
- Obrigado. Mora por aqui?
- Não.
- Trabalha?
- Não. Tenho uns trâmites para fazer por aqui.
- Entendi. Onde o senhor mora?
- Em El Alto.
- Legal. E o que o senhor está achando do presidente Evo Morales até agora?
- Tá mais ou menos, né?
- Mais ou menos?
- É.
- Acha que poderia estar melhor?
- Acho. Mas acredito que ainda vai melhorar.
- Que bom.
- Tem muita coisa que é difícil, porque não o deixam fazer as coisas.
- É verdade.
- Mas vai melhorar. Ele tem muito apoio na classe média e nas classes populares.
- Sim. Em El Alto ele tem bastante apoio, né?
- Ah sim, todos os alteños o apóiam.
- Uma das grandes brigas da oposição é sobre a Renda Dignidade [bolsa financiada, em parte, com recursos do gás destinados anteriormente para os governos departamentais] para os idosos, né?
- Sim, porque mexe no IDH [Imposto Direto sobre os Hidrocarbonetos].
- E o senhor acha que essa renda é boa?
- É sim. O presidente foi inteligente em favorecer os idosos. Não tinham feito isso antes.
- Vai melhorar a vida deles, né?
- Vai melhorar sim.
Engraxate, cerca de 15 anos
- Trabalha há muito tempo com isso?
- Uns quatro anos.
- Mas não dá para viver com o que você ganha, dá?
- Só às vezes.
- Quanto ganha por dia, mais ou menos?
- Uns 15 pesos [R$ 4, aproximadamente]
- E a vida, tá melhorando com o Evo?
- Tá sim.
- Ele tá indo bem?
- Tá indo bem sim.
- Que bom. Por que vocês cobrem o rosto?
- Por causa do cheiro do creme de engraxar.
- Ah, é por isso então?
- É sim. E por causa do frio também.
- Entendi.
(Outros engraxates sentam do lado. Eles conversam em aymara)
- Estão falando em aymara?
- Sim, estamos. Entende?
- Não entendo nada.
- Eu falo francês (Dá risada)
- Vocês aprendem aymara desde pequenos?
- Sim. Há quanto tempo está em La Paz?
- Três meses.
- E o que está achando?
- Estou gostando bastante. E vocês, são daqui?
- Claro, somos paceños de coração.
- E onde moram?
- Dormimos logo ali mesmo.
Faxineira, entre 20 e 25 anos
- Você vive por aqui?
- Sim, vivo sim.
- Legal. Uma curiosidade: o que você acha do governo Evo até agora?
- Uns dizem que vai mal. Outros, que vai bem.
- Mas e você, o que acha?
- Tá mais ou menos.
- Mas o que falta?
- Acho que falta um pouco de entendimento para ele.
- Como assim, você acha que ele não está preparado?
- Isso. Mas aos poucos ele está se preparando.
- Ah, então ainda vai melhorar.
- Sim, vai melhorar sim.
- Mas também é difícil para ele fazer algumas coisas. A oposição não o deixa trabalhar, né?
- Sim, tem isso também. Ele precisa de apoio.
- Sim. Tá dividido, mas a maioria o apóia, não?
- Sim.
- Você não acha que a situação pode melhorar com a nova Constituição?
- Sim, vai sim.
- Você a conhece?
- Um pouco só.
- Você trabalha com o quê?
- Numa micro-empresa.
- Fazendo o quê?
- Limpeza, essas coisas.
- Ah tá. Mas e a vida com o Evo, não mudou nada?
- Mudou um pouco sim.
- O que, por exemplo¿ Dinheiro?
- Sim, um pouco mais de dinheiro. Ele está fazendo alguma coisa, o que os outros presidentes não fizeram.
- O que, por exemplo?
- Por exemplo, antes havia muita gente que não sabia ler nem escrever. Agora sabe.
- Ah, que bom. Que mais?
- Também poucas pessoas não tinham documento de identidade. O Evo fez uma campanha de legalização gratuita.
- Que bom.
Vendedora de barraquinha de sanduíches de lingüiça, aproximadamente 60 anos
- A barraquinha é sua?
- Não, não. Eu só atendo.
- Ah, tá. E dá para viver com o que a senhora ganha?
- Mais ou menos. Nem sempre.
- E a vida com o Evo, melhorou?
- Está pior.
- É mesmo? Por quê?
- Antes havia dinheiro circulante, havia grana. Hoje não tem mais.
- Mas por que a senhora acha que está assim? É um governo ruim?
- Não sei, não sei. Mas está pior. Não tem trabalho, as pessoas estão indo para o exterior...
- Antes não iam?
- Não.
- Mas a senhora não acha que pode melhorar?
- Tomara. Tomara que sim.
- Mas a senhora acha que vai?
- Não sei, vamos ver. Há quanto tempo você está morando aqui?
- Três meses.
- Ah é? E gosta do Evo?
- Gosto... algumas coisas não. Por um lado, acho que a oposição o atrapalha bastante.
- Ah sim, tem isso sim. Mas vai melhorar, vai sim.
Dono de barbearia, cerca de 45 anos
- A barbearia é sua?
- Sim, é.
- Faz muito tempo?
- Sim, faz um tempinho já.
- Legal. E como está a vida com o Evo?
- Acho que as mudanças ainda vão demorar para vir.
- Por quê?
- Porque as mudanças não são feitas da noite para o dia.
- Mas o que falta?
- Acho que falta a nova Constituição Política do Estado ser aprovada.
- Com ela, acha que vêm as mudanças?
- Acho que podem vir.
- Mas o Evo até agora não fez nada?
- Fez um pouco. O que mais diz respeito aos bolivianos é emprego, trabalho.
- E até agora não se criou emprego?
- Não. Mas está começando. Por exemplo, na empresa Mutum [mineradora]. Por enquanto, só tem empregos administrativos, mas daqui a pouco vai gerar bastante emprego de mineradores, pedreiros...
- Ah, entendi.
- E tem a mineradora ao sul de Potosí, onde está sendo investido muito dinheiro.
- Então, pouco a pouco vai criando emprego...
- Sim. Os governos anteriores endividavam o país. A dívida é de dois bilhões de dólares. Mas, agora, o Banco Central tem cinco bilhões de dólares. Então, hoje existe dinheiro para pagar a dívida.
- Entendi.
- Mas há também os que não querem as mudanças.
- Os de Santa Cruz, por exemplo?
- Exato.
Universitária, entre 20 e 25 anos
- Estuda aqui?
- Estudo.
- Que curso?
- Serviço social.
- Ah, legal. E o que vocês pensam do Evo?
- Ele está fazendo o que pode... Pelo menos faz bem mais que os governos anteriores.
- Entendi. O que, por exemplo?
- Ele nacionalizou os hidrocarbonetos, recuperou os recursos que os outros presidentes tinham vendido.
- Sei. Mas falta ainda muito o que fazer, né?
- Falta.
- Mas por que há coisas que ele não pode fazer?
- Ele está tentando fazer o que pode.
Dona de carrinho de suco de laranja em Huyustus, maior mercado de rua de La Paz: entre 45 e 50 anos
- Hoje tá menos cheio do que outros dias, né?
- É sim, hoje está tranqüilo.
- A senhora trabalha há muito tempo por aqui?
- Sim, faz tempo.
- E o que vocês estão achando do Evo?
- Não está bom não. Só a agricultura, para cá não.
- Ah é?
- Estamos exportando frutas para o Brasil, para a Espanha, mas para a gente não tem.
- Entendi.
- Abacaxi, por exemplo, deste tamanho [faz o gesto com as mãos], estão exportando para o Brasil, para a Espanha. Para nós é caro.
- O Evo não está fazendo nada para a cidade?
- Não, só para os povoados.
- Só para a área rural, é isso?
- Isso. Você é de onde?
- Do Brasil.
- Ah é?
- Sim, mas estou morando aqui em La Paz.
- Tem bastante boliviano no Brasil, né?
- Tem sim. Na minha cidade, São Paulo, tem muitos.
- E o que tem para os bolivianos fazerem lá?
- A maioria trabalha na fabricação de tecidos.
- Ah, fazem roupa, né?
- Isso. É muito duro. Trabalham 12, 14 horas, quase não ganham nada. São muito explorados.
- Sei. Não tem mais nada para os bolivianos fazerem lá?
- É difícil. Às vezes trabalham como pedreiros, como comerciantes de rua também...
- Ah tá.
- E para os comerciantes de rua daqui, o Evo não fez nada?
- O prefeito que está fazendo.
- Ah é?
- Sim, está construindo mercados.
- Entendi. Sem ser isso, é difícil conseguir trabalho, né?
- É, não tem...
- Mas a senhora não acha que vai melhorar no próximo ano? Com a nova Constituição?
- É, o Evo está há só dois anos. É pouco. Vai fazer as coisas ainda. Quanto de dinheiro é preciso para ir para o Brasil?
- Hum... não sei. Bastante, porque tem o ônibus e um dinheiro para ficar lá até conseguir trabalho, né?
- É verdade.
- Mas a maioria dos bolivianos fora está na Argentina, não é mesmo?
- É sim, tem bastante.
- Eles mandam muito dinheiro para cá, né, para suas famílias?
- Mandam. É que a Argentina aceita sem exigir nada.
- Ah é?
- É. Só precisa do documento de identidade, não precisa de passaporte.
- Ah tá.
- Antes pediam passaporte, agora não mais.
Engraxate, 13 anos
- Quer que lustre?
- Não, obrigado.
- Lendo jornal?
- Sim.
- O que está acontecendo hoje?
- Nada demais. Pouca novidade.
- Chovendo muito, né?
- Sim, mas pelo menos agora parou.
- É.
- Vai e volta.
- De que país você é?
- Brasil, mas moro aqui.
- Ah tá.
- Eu gosto bastante da Bolívia.
- É linda, não?
- É sim. Você também gosta?
- Gosto sim. O Brasil é maior que a Bolívia, né?
- Sim, bem maior.
- A Bolívia perdeu muito.
- Terras?
- É, territórios.
- É verdade, perdeu para vários países, né?
- É.
- Você mora por aqui?
- Sim, moro. E você?
- Em Sopocachi.
- Ah, para cima.
- É. (Bocejo)
- Tá com sono?
- Estou sim. Você não?
- Não, eu tenho é fome.
- É?
- Você não quer ser o padrinho de um refrigerante? É que ainda não almocei. [Era por volta das 17h30]
- (Pego 10 bolivianos, cerca de R$ 3) Aqui está.
- Muito obrigado.
- De nada. Você trabalha há muito tempo?
- Quatro anos.
- Quantos anos você tem?
- 13.
- Sei. E como está o Evo?
- Bem.
- Ele é bom?
- É sim.
- Por quê? O que ele está fazendo?
- Está doando... está proporcionando dinheiro para a Bolívia.
- Ah, é?
- É. Antes não era assim.
- Como era?
- Antes não faziam nada, só roubavam.
- O Evo não rouba não, né?
- Não. Ele está usando o dinheiro para mudar o país.
- Você acha que ele faz as coisas para os mais necessitados?
- Acho sim.
- A vida vai melhorar para todos, então?
- Vai sim.
- Que bom. Tomara. Você está na escola?
- Estou.
- Legal. E o que você quer ser quando crescer?
- Doutor.
- Médico?
- Isso.
- Que legal. E por que você quer ser doutor?
- Para salvar vidas.
Oito bate-papos aleatórios na capital boliviana, sobre a vida e o presidente Evo Morales, que completou dois anos de governo no dia 22 de janeiro
Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)
No banco da praça, entre 55 e 60 anos
- O senhor tem horas?
- Vinte para às onze.
- Obrigado. Mora por aqui?
- Não.
- Trabalha?
- Não. Tenho uns trâmites para fazer por aqui.
- Entendi. Onde o senhor mora?
- Em El Alto.
- Legal. E o que o senhor está achando do presidente Evo Morales até agora?
- Tá mais ou menos, né?
- Mais ou menos?
- É.
- Acha que poderia estar melhor?
- Acho. Mas acredito que ainda vai melhorar.
- Que bom.
- Tem muita coisa que é difícil, porque não o deixam fazer as coisas.
- É verdade.
- Mas vai melhorar. Ele tem muito apoio na classe média e nas classes populares.
- Sim. Em El Alto ele tem bastante apoio, né?
- Ah sim, todos os alteños o apóiam.
- Uma das grandes brigas da oposição é sobre a Renda Dignidade [bolsa financiada, em parte, com recursos do gás destinados anteriormente para os governos departamentais] para os idosos, né?
- Sim, porque mexe no IDH [Imposto Direto sobre os Hidrocarbonetos].
- E o senhor acha que essa renda é boa?
- É sim. O presidente foi inteligente em favorecer os idosos. Não tinham feito isso antes.
- Vai melhorar a vida deles, né?
- Vai melhorar sim.
Engraxate, cerca de 15 anos
- Trabalha há muito tempo com isso?
- Uns quatro anos.
- Mas não dá para viver com o que você ganha, dá?
- Só às vezes.
- Quanto ganha por dia, mais ou menos?
- Uns 15 pesos [R$ 4, aproximadamente]
- E a vida, tá melhorando com o Evo?
- Tá sim.
- Ele tá indo bem?
- Tá indo bem sim.
- Que bom. Por que vocês cobrem o rosto?
- Por causa do cheiro do creme de engraxar.
- Ah, é por isso então?
- É sim. E por causa do frio também.
- Entendi.
(Outros engraxates sentam do lado. Eles conversam em aymara)
- Estão falando em aymara?
- Sim, estamos. Entende?
- Não entendo nada.
- Eu falo francês (Dá risada)
- Vocês aprendem aymara desde pequenos?
- Sim. Há quanto tempo está em La Paz?
- Três meses.
- E o que está achando?
- Estou gostando bastante. E vocês, são daqui?
- Claro, somos paceños de coração.
- E onde moram?
- Dormimos logo ali mesmo.
Faxineira, entre 20 e 25 anos
- Você vive por aqui?
- Sim, vivo sim.
- Legal. Uma curiosidade: o que você acha do governo Evo até agora?
- Uns dizem que vai mal. Outros, que vai bem.
- Mas e você, o que acha?
- Tá mais ou menos.
- Mas o que falta?
- Acho que falta um pouco de entendimento para ele.
- Como assim, você acha que ele não está preparado?
- Isso. Mas aos poucos ele está se preparando.
- Ah, então ainda vai melhorar.
- Sim, vai melhorar sim.
- Mas também é difícil para ele fazer algumas coisas. A oposição não o deixa trabalhar, né?
- Sim, tem isso também. Ele precisa de apoio.
- Sim. Tá dividido, mas a maioria o apóia, não?
- Sim.
- Você não acha que a situação pode melhorar com a nova Constituição?
- Sim, vai sim.
- Você a conhece?
- Um pouco só.
- Você trabalha com o quê?
- Numa micro-empresa.
- Fazendo o quê?
- Limpeza, essas coisas.
- Ah tá. Mas e a vida com o Evo, não mudou nada?
- Mudou um pouco sim.
- O que, por exemplo¿ Dinheiro?
- Sim, um pouco mais de dinheiro. Ele está fazendo alguma coisa, o que os outros presidentes não fizeram.
- O que, por exemplo?
- Por exemplo, antes havia muita gente que não sabia ler nem escrever. Agora sabe.
- Ah, que bom. Que mais?
- Também poucas pessoas não tinham documento de identidade. O Evo fez uma campanha de legalização gratuita.
- Que bom.
Vendedora de barraquinha de sanduíches de lingüiça, aproximadamente 60 anos
- A barraquinha é sua?
- Não, não. Eu só atendo.
- Ah, tá. E dá para viver com o que a senhora ganha?
- Mais ou menos. Nem sempre.
- E a vida com o Evo, melhorou?
- Está pior.
- É mesmo? Por quê?
- Antes havia dinheiro circulante, havia grana. Hoje não tem mais.
- Mas por que a senhora acha que está assim? É um governo ruim?
- Não sei, não sei. Mas está pior. Não tem trabalho, as pessoas estão indo para o exterior...
- Antes não iam?
- Não.
- Mas a senhora não acha que pode melhorar?
- Tomara. Tomara que sim.
- Mas a senhora acha que vai?
- Não sei, vamos ver. Há quanto tempo você está morando aqui?
- Três meses.
- Ah é? E gosta do Evo?
- Gosto... algumas coisas não. Por um lado, acho que a oposição o atrapalha bastante.
- Ah sim, tem isso sim. Mas vai melhorar, vai sim.
Dono de barbearia, cerca de 45 anos
- A barbearia é sua?
- Sim, é.
- Faz muito tempo?
- Sim, faz um tempinho já.
- Legal. E como está a vida com o Evo?
- Acho que as mudanças ainda vão demorar para vir.
- Por quê?
- Porque as mudanças não são feitas da noite para o dia.
- Mas o que falta?
- Acho que falta a nova Constituição Política do Estado ser aprovada.
- Com ela, acha que vêm as mudanças?
- Acho que podem vir.
- Mas o Evo até agora não fez nada?
- Fez um pouco. O que mais diz respeito aos bolivianos é emprego, trabalho.
- E até agora não se criou emprego?
- Não. Mas está começando. Por exemplo, na empresa Mutum [mineradora]. Por enquanto, só tem empregos administrativos, mas daqui a pouco vai gerar bastante emprego de mineradores, pedreiros...
- Ah, entendi.
- E tem a mineradora ao sul de Potosí, onde está sendo investido muito dinheiro.
- Então, pouco a pouco vai criando emprego...
- Sim. Os governos anteriores endividavam o país. A dívida é de dois bilhões de dólares. Mas, agora, o Banco Central tem cinco bilhões de dólares. Então, hoje existe dinheiro para pagar a dívida.
- Entendi.
- Mas há também os que não querem as mudanças.
- Os de Santa Cruz, por exemplo?
- Exato.
Universitária, entre 20 e 25 anos
- Estuda aqui?
- Estudo.
- Que curso?
- Serviço social.
- Ah, legal. E o que vocês pensam do Evo?
- Ele está fazendo o que pode... Pelo menos faz bem mais que os governos anteriores.
- Entendi. O que, por exemplo?
- Ele nacionalizou os hidrocarbonetos, recuperou os recursos que os outros presidentes tinham vendido.
- Sei. Mas falta ainda muito o que fazer, né?
- Falta.
- Mas por que há coisas que ele não pode fazer?
- Ele está tentando fazer o que pode.
Dona de carrinho de suco de laranja em Huyustus, maior mercado de rua de La Paz: entre 45 e 50 anos
- Hoje tá menos cheio do que outros dias, né?
- É sim, hoje está tranqüilo.
- A senhora trabalha há muito tempo por aqui?
- Sim, faz tempo.
- E o que vocês estão achando do Evo?
- Não está bom não. Só a agricultura, para cá não.
- Ah é?
- Estamos exportando frutas para o Brasil, para a Espanha, mas para a gente não tem.
- Entendi.
- Abacaxi, por exemplo, deste tamanho [faz o gesto com as mãos], estão exportando para o Brasil, para a Espanha. Para nós é caro.
- O Evo não está fazendo nada para a cidade?
- Não, só para os povoados.
- Só para a área rural, é isso?
- Isso. Você é de onde?
- Do Brasil.
- Ah é?
- Sim, mas estou morando aqui em La Paz.
- Tem bastante boliviano no Brasil, né?
- Tem sim. Na minha cidade, São Paulo, tem muitos.
- E o que tem para os bolivianos fazerem lá?
- A maioria trabalha na fabricação de tecidos.
- Ah, fazem roupa, né?
- Isso. É muito duro. Trabalham 12, 14 horas, quase não ganham nada. São muito explorados.
- Sei. Não tem mais nada para os bolivianos fazerem lá?
- É difícil. Às vezes trabalham como pedreiros, como comerciantes de rua também...
- Ah tá.
- E para os comerciantes de rua daqui, o Evo não fez nada?
- O prefeito que está fazendo.
- Ah é?
- Sim, está construindo mercados.
- Entendi. Sem ser isso, é difícil conseguir trabalho, né?
- É, não tem...
- Mas a senhora não acha que vai melhorar no próximo ano? Com a nova Constituição?
- É, o Evo está há só dois anos. É pouco. Vai fazer as coisas ainda. Quanto de dinheiro é preciso para ir para o Brasil?
- Hum... não sei. Bastante, porque tem o ônibus e um dinheiro para ficar lá até conseguir trabalho, né?
- É verdade.
- Mas a maioria dos bolivianos fora está na Argentina, não é mesmo?
- É sim, tem bastante.
- Eles mandam muito dinheiro para cá, né, para suas famílias?
- Mandam. É que a Argentina aceita sem exigir nada.
- Ah é?
- É. Só precisa do documento de identidade, não precisa de passaporte.
- Ah tá.
- Antes pediam passaporte, agora não mais.
Engraxate, 13 anos
- Quer que lustre?
- Não, obrigado.
- Lendo jornal?
- Sim.
- O que está acontecendo hoje?
- Nada demais. Pouca novidade.
- Chovendo muito, né?
- Sim, mas pelo menos agora parou.
- É.
- Vai e volta.
- De que país você é?
- Brasil, mas moro aqui.
- Ah tá.
- Eu gosto bastante da Bolívia.
- É linda, não?
- É sim. Você também gosta?
- Gosto sim. O Brasil é maior que a Bolívia, né?
- Sim, bem maior.
- A Bolívia perdeu muito.
- Terras?
- É, territórios.
- É verdade, perdeu para vários países, né?
- É.
- Você mora por aqui?
- Sim, moro. E você?
- Em Sopocachi.
- Ah, para cima.
- É. (Bocejo)
- Tá com sono?
- Estou sim. Você não?
- Não, eu tenho é fome.
- É?
- Você não quer ser o padrinho de um refrigerante? É que ainda não almocei. [Era por volta das 17h30]
- (Pego 10 bolivianos, cerca de R$ 3) Aqui está.
- Muito obrigado.
- De nada. Você trabalha há muito tempo?
- Quatro anos.
- Quantos anos você tem?
- 13.
- Sei. E como está o Evo?
- Bem.
- Ele é bom?
- É sim.
- Por quê? O que ele está fazendo?
- Está doando... está proporcionando dinheiro para a Bolívia.
- Ah, é?
- É. Antes não era assim.
- Como era?
- Antes não faziam nada, só roubavam.
- O Evo não rouba não, né?
- Não. Ele está usando o dinheiro para mudar o país.
- Você acha que ele faz as coisas para os mais necessitados?
- Acho sim.
- A vida vai melhorar para todos, então?
- Vai sim.
- Que bom. Tomara. Você está na escola?
- Estou.
- Legal. E o que você quer ser quando crescer?
- Doutor.
- Médico?
- Isso.
- Que legal. E por que você quer ser doutor?
- Para salvar vidas.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Imagens do Paraíso
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Estações bem definidas

Cheguei à conclusão de que é preciso ir no Salar de Uyuni no verão e no inverno. Pois são dois cenários completamente diferentes.
Fui em janeiro, quando as águas das chuvas formavam uma camada de alguns centímetros sobre o deserto de sal. O resultado é que a água fazia as vezes de um grande espelho. Parecia que estávamos voando (foto de cima).
Voltei agora em junho com a Tati, que ainda não conhecia. Já sem água, o maior salar do mundo é uma imensidão em branco. Impressionante. Dá a sensação de estarmos na superfície de outro planeta (foto de baixo).
De qualquer forma, seja no inverno, seja no verão, é o lugar mais inacreditável que já estive até agora.
Pra completar, ainda tem, ao sul do salar, a Reserva Natural Eduardo Avaroa. Com tudo o que você imaginar: desertos, lagos, vulcões, neve, terma, gêisers, animais andinos... Outro lugar maravilhoso.
Mais fotos num próximo post.
Fui em janeiro, quando as águas das chuvas formavam uma camada de alguns centímetros sobre o deserto de sal. O resultado é que a água fazia as vezes de um grande espelho. Parecia que estávamos voando (foto de cima).
Voltei agora em junho com a Tati, que ainda não conhecia. Já sem água, o maior salar do mundo é uma imensidão em branco. Impressionante. Dá a sensação de estarmos na superfície de outro planeta (foto de baixo).
De qualquer forma, seja no inverno, seja no verão, é o lugar mais inacreditável que já estive até agora.
Pra completar, ainda tem, ao sul do salar, a Reserva Natural Eduardo Avaroa. Com tudo o que você imaginar: desertos, lagos, vulcões, neve, terma, gêisers, animais andinos... Outro lugar maravilhoso.
Mais fotos num próximo post.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Torcendo pelo colonizador

Por causa das minhas origens, é pra Espanha que torço nesta Eurocopa. Nem preciso falar que vibrei com a vitória sobre a Itália ontem. Tenho ascendência italiana também, gosto do país (embora sem conhecer ainda), mas odeio o futebol retranqueiro da azurra. Sempre tento gorar.
Pode ser besteira, mas confesso que me senti meio culpado pelo entusiasmo pela vitória espanhola, vivendo onde e vivo e vendo as coisas que vejo. Não sei, mas tenho a impressão que o estrago que a Espanha fez por aqui foi (e ainda é, através da elite descendente de espanhóis) bem maior do que o que Portugal fez no Brasil.
Pelo menos, a raiva pelos espanhóis incrustada no inconsciente coletivo dos bolivianos é mais forte. Talvez porque 70% deles sejam indígenas. Obviamente, os mais afetados pela colonização e, hoje, os mais excluídos e desrespeitados em suas crenças e tradições.
A Bolívia é o país mais pobre da América do Sul. E Potosí chegou a ser capital do mundo, quando a prata das suas montanhas bancava a opulência e o desenvolvimento europeus.
A Europa não seria o que é sem os recursos naturais do terceiro mundo. Agora, a União Européia vem com essa de pôr na cadeia os imigrantes ilegais, que basicamente querem fugir dos países que o primeiro mundo detonou.
Alguém pode dizer que a culpa não é só dos colonizadores, mas também dos próprios colonizados, que governam, há dois séculos, países independentes. Não levam em conta, porém, que as colonizações criaram uma estrutura de poder e uma elite político-econômica vigentes até hoje.
E quanto às leis anti-imigrações, cadê a tão aclamada globalização? Já sei, globalização é só pras empresas dos países ricos virem aqui no quintal deles brincar de tomar conta dos recursos naturais, da telefonia, da educação privada, da mão-de-obra barata etc.
Mas se os bichos do quintal quiserem entrar na casa deles, mata que dá doença!
Pode ser besteira, mas confesso que me senti meio culpado pelo entusiasmo pela vitória espanhola, vivendo onde e vivo e vendo as coisas que vejo. Não sei, mas tenho a impressão que o estrago que a Espanha fez por aqui foi (e ainda é, através da elite descendente de espanhóis) bem maior do que o que Portugal fez no Brasil.
Pelo menos, a raiva pelos espanhóis incrustada no inconsciente coletivo dos bolivianos é mais forte. Talvez porque 70% deles sejam indígenas. Obviamente, os mais afetados pela colonização e, hoje, os mais excluídos e desrespeitados em suas crenças e tradições.
A Bolívia é o país mais pobre da América do Sul. E Potosí chegou a ser capital do mundo, quando a prata das suas montanhas bancava a opulência e o desenvolvimento europeus.
A Europa não seria o que é sem os recursos naturais do terceiro mundo. Agora, a União Européia vem com essa de pôr na cadeia os imigrantes ilegais, que basicamente querem fugir dos países que o primeiro mundo detonou.
Alguém pode dizer que a culpa não é só dos colonizadores, mas também dos próprios colonizados, que governam, há dois séculos, países independentes. Não levam em conta, porém, que as colonizações criaram uma estrutura de poder e uma elite político-econômica vigentes até hoje.
E quanto às leis anti-imigrações, cadê a tão aclamada globalização? Já sei, globalização é só pras empresas dos países ricos virem aqui no quintal deles brincar de tomar conta dos recursos naturais, da telefonia, da educação privada, da mão-de-obra barata etc.
Mas se os bichos do quintal quiserem entrar na casa deles, mata que dá doença!
ps: na foto, o Cerro Rico, em Potosí, de onde saía a prata para a Espanha.
domingo, 15 de junho de 2008
Chique demais
Quem vier para a Bolívia, pode pedir o vinho nacional, sem medo. Vem de Tarija, no sul. Demorou, mas experimentei. E gostei.
Aos trancos e barrancos
Abaixo, mais uma avaliação sobre os dois anos do governo Evo. Dessa vez, uma entrevista com o sociólogo que me hospedou em sua casa nas minhas primeiras duas semanas em La Paz:
Brasil de Fato, edição 254 (de 10 a 16 de janeiro de 2008)
Processo revolucionário em xeque
Para sociólogo, Evo Morales e o MAS pecam por não possuírem um projeto político-econômico para o país
Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)
Após um começo animador, o governo de Evo Morales, eleito em dezembro de 2005, estancou. Em alguns pontos, até retrocedeu. A avaliação é do sociólogo boliviano Eduardo Paz Rada, que atribui tal situação à falta de um projeto político-econômico de transformações do país por parte do MAS e do presidente. Segundo ele, os impulsos iniciais, como a nacionalização dos hidrocarbonetos e o pontapé na reforma agrária, foram seguidos por constantes erros estratégicos – como o não fortalecimento da capacidade produtiva boliviana – e concessões às oligarquias.
QUEM É
Docente da Universidad Mayor de San Andres (UMSA), de La Paz, o sociólogo Eduardo Paz Rada foi deputado federal, entre 1997 e 2002, pelo partido Conciencia de Patria (Condepa). Escreve para as revistas América XXI (Argentina-Venezuela) e Patria Grande (Bolívia).
Brasil de Fato – Dois anos de Evo Morales. Quais foram seus principais acertos e erros?
Eduardo Paz Rada – No processo anterior a 2005, e no momento que Evo Morales ganhou as eleições com 54%, vivia-se no país uma efervescência popular, praticamente um estado de revolução muito profundo. Isso se refletiu na primeira parte do primeiro ano do governo dele. Mas, paulatinamente, foi-se observando que, em termos de respaldo social, de 2005 a 2007, há uma queda, que pode ser resultado de um desgaste normal do poder. Mas acredito que não seja apenas isso. Tem a ver também com as limitações para se implementar um projeto completo e integral de mudanças. A falta desse projeto tem feito com que muitos setores percam confiança e deixem de apoiar a Evo Morales. O que não quer dizer que os setores sociais mais fortes não sigam apoiando-o. Mas, sua gestão começa a gerar muitas dúvidas porque, embora nos campos social, político e cultural se tenha dado grandes passos, hoje eles estão estancados. No campo econômico, houve um grande impulso nos primeiros meses, mas os marcos neoliberais seguem vigentes. Isso é o preocupante.
Você disse que o modelo neoliberal segue vigente. Por que não foram feitas mudanças mais profundas nesse sentido?
O primeiro impulso foi muito bom, porque a idéia central era que a economia nacional passasse a ser controlada pelo Estado boliviano. Daí que a nacionalização dos hidrocarbonetos foi uma decisão histórica, fundamental, e que implicou em reações muito poderosas das transnacionais e dos governos que as apóiam, como Espanha, Estados Unidos, França e Brasil. Mas, paulatinamente, esse processo foi se debilitando. Novos contratos com as mesmas transnacionais foram assinados, claro que em melhores condições para a Bolívia, mas que ainda são muito vantajosas para as empresas. Antes da nacionalização, a distribuição da renda petroleira era de 18% para o Estado boliviano, e 82% para as transnacionais. Com a nacionalização de maio de 2006, isso se inverteu: 18% para as petroleiras, como pagamento a seus serviços, e 82% ao Estado. Com os contratos de outubro de 2006, essa relação mudou. Cerca de 50% vai para as petroleiras, e 50% para o Estado boliviano. Geralmente, menos para o Estado e mais para as petroleiras, porque elas têm uma série de vantagens para evitar o pagamento de impostos. E agora, o que se está observando claramente é que a Petrobras vai começar a ter novamente o controle fundamental do negócio petroleiro na Bolívia. Vai receber novos contratos, novos campos. E a PDVSA [estatal venezuelana de petróleo], que havia a possibilidade de se aliar com a estatal boliviana, praticamente está perdendo terreno. Além disso, confiava-se que, com a nacionalização, a YPFB [estatal boliviana] passasse a ter uma grande força. Mas isso não aconteceu e ela continua tão fraca como antes.
Além disso, as empresas que haviam sido, entre aspas, capitalizadas, continuam igual. As maiorias das ações não foram recuperadas pelo Estado boliviano. Todo o sistema de gasodutos segue nas mãos de uma empresa holandesa-estadunidense.
No campo bancário, as grandes corporações seguem com as mesmas condições, tendo os mesmos negócios de sempre, e grandes vantagens. Então, esse primeiro impulso foi freado, inclusive retrocedeu nesse momento.
Mas, o que falta para que se dê um outro impulso nesse sentido?
A falta de um projeto político-econômico do governo. Um exemplo. Os excedentes que estão entrando com os maiores ingressos por causa do gás estão se convertendo em bônus de beneficência. Para as crianças que estudam, para os aposentados. E é muito dinheiro. Pelo menos grande parte desse recurso deveria ser utilizada em projetos produtivos, em potencializar a YPFB, as empresas públicas, em financiamentos para empresas agrícolas, para cooperativas, em uma série de campos que permitissem o desenvolvimento nacional. Isso não foi e não está sendo feito. Outro exemplo. Quem faz empréstimos para se construir rodovias, ou para projetos do Estado? A Corporação Andina de Fomento (CAF). Empresta com juros de 7%. E o Banco Central faz empréstimos a empresas estrangeiras a 3%. Então, é uma loucura. Quando esse dinheiro deveria ser investido aqui. A explicação é que a equipe econômica que rodeia Evo é, em termos de concepção, formada pelos mesmos que estiveram nos 15 anos anteriores.
Como você avalia, nesses dois anos, a relação de Evo Morales com a oligarquia?
Tem sido uma relação muito conflituosa, de crise permanente. Era o que deveria ocorrer, devido à pressão social e ao ponto de vista de Evo e do MAS de ir adiante com a reforma agrária. Pelo menos 50% das terras produtivas (100 milhões de hectares) estão nas mãos de não mais que 500 famílias. E, com outras medidas, iria provocar a reação de outros setores oligárquicos, como as petroleiras, os bancos etc.
Mas, nessa disputa, quem foi ganhando terreno foi a oligarquia e seus interesses, em retrocesso do projeto de Evo Morales. E por que isso ocorreu? Desde o começo, nos primeiros seis meses de gestão, Evo fez muitas concessões aos governadores departamentais. Porque nenhuma lei respalda a autonomia dos governadores. A lei na Bolívia diz que eles são nomeados pelo presidente e dependem do ministro da Presidência. Mas, como foram eleitos por voto direto, avalizados por Evo Morales, pouco a pouco eles foram alçando seus próprios vôos. E Evo não os freou de cara. Deu muito poderes a eles. Converteu-os em interlocutores quando deveriam ser subalternos do governo central. Além disso, eles têm o apoio da embaixada dos EUA, da embaixada do Brasil, dos senadores, que são em sua maioria da oligarquia, das petroleiras e dos latifundiários. O governo ainda tem força, mas já não a que tinha há um ano e meio.
Uma das grandes promessas do Evo foi a chamada revolução agrária. Como está esse aspecto, já que também é um instrumento para debilitar a força dessas oligarquias?
Provavelmente, esse tem sido, em termos da correlação de forças políticas internas, o tema chave. Porque, as petroleiras, as mineradoras, os bancos, estão mais ligados ao exterior. O que não quer dizer que os latifundiários não estejam ligados a capitais brasileiros, paraguaios, estadunidenses. Mas a propriedade das terras está, majoritariamente, em mãos nacionais. E o projeto de Evo Morales era fazer uma nova reforma agrária. E começou a levá-lo adiante com muita força, enfrentando aos proprietários de terra. No entanto, o ministro de Desenvolvimento Rural, Hugo Salvatierra, entrou em um problema de ter feito tráfico de alguns tratores e foi substituído. O vice-ministro de terras, Alejandro Almaraz, que estava levando adiante esse processo, entrou em um choque muito duro com os latifundiários. Começaram a atacá-lo com muita força. E, num momento, recebeu muito apoio do governo. Mas, pouco a pouco, ele mesmo passou a sentir cada vez menos apoio do entorno do governo, e a situação está quase paralisada. A idéia era, primeiro, fazer um inventário das terras estatais e começar a distribuí-las. Isso está bastante atrasado. O segundo passo era recuperar as terras improdutivas e redistribuí-las. Aqui foi a luta mais forte. E hoje está numa situação de quase estancamento. Porque os setores latifundiários estão armados, têm pequenos exércitos, que amedrontam aos camponeses que estavam ocupando terras. E o governo, que estava tentando avançar nesse aspecto, o faz com muita lentidão. O projeto segue, está presente. Mas está muito ligado ao contexto. Os temas da Constituinte, de Sucre, da autonomia, estão sendo argumentos para evitar que o poder dos latifundiários seja afetado.
Um dos instrumentos mais fortes das oligarquias são os meios de comunicação. O que o governo de Evo tem feito para enfrentar esse poder?
Grandes passos foram dados. Em nenhum momento, Evo Morales tem conciliado com esses setores proprietários que foram e continuam sendo seus inimigos. Ele começou a implementar as rádios comunitárias, com um importante apoio econômico e técnico da Venezuela. Sem dúvida, aqui há um avanço, mas não o suficiente, sobretudo nas cidades, para se contrapor ao peso dos meios privados. Nesse momento, apesar dessa disputa, os meios privados estão muito fortes. Porque se fortalecem através do apoio dos setores econômicos. E, se assistimos os canais de televisão, vemos que todos têm publicidade estatal. E com isso vivem. Então, há essa grande contradição. O governo dá dinheiro para que os ataquem.
Como é a relação entre Evo e o MAS no governo? Até que ponto o Evo toma decisões mais autônomas, ou o MAS tem um papel mais forte?
O MAS nunca foi uma organização política no sentido clássico. Não tem estrutura partidária. É mais uma espécie de federação de movimentos sociais muito heterogêneos. E entre seus dirigentes, alguns tem cargos como parlamentares, constituintes, ministros, mas não obedecem a uma estrutura, e sim a formas sindicais. Como existe uma organização muito fraca, o papel de Evo Morales é sempre muito poderoso. Eu poderia dizer que o Evo Morales concentra o MAS e o governo. O que, sim, existe institucionalmente, é o fato de que muitos dos integrantes da sua equipe de governo, do meu ponto de vista, estejam comprometidos com o projeto neoliberal e muitos tenham feito do governo simplesmente um espaço de administração de poder e não uma instância para transformar o país.
Quais são os desafios de Evo para o próximo ano?
Ele tem que ir por dois caminhos. O primeiro, político, está relacionado com o referendo revocatório. Mas a aposta nele não tem que ser somente “que o Evo se vá”, mas também quais projetos há por trás de uns e outros, quais bandeiras, qual país querem construir. E não cometer os erros desses dois anos. Ou seja, que as pessoas participem, que votem com a convicção de que é para mudar profundamente, como era em 2005.
Por outro lado, não esperar o referendo revocatório para deixar de fazer política e de governar. O governo teria que impulsionar novamente o projeto original da nacionalização dos hidrocarbonetos, de fortalecimento da capacidade produtiva do país.
Brasil de Fato, edição 254 (de 10 a 16 de janeiro de 2008)
Processo revolucionário em xeque
Para sociólogo, Evo Morales e o MAS pecam por não possuírem um projeto político-econômico para o país
Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)
Após um começo animador, o governo de Evo Morales, eleito em dezembro de 2005, estancou. Em alguns pontos, até retrocedeu. A avaliação é do sociólogo boliviano Eduardo Paz Rada, que atribui tal situação à falta de um projeto político-econômico de transformações do país por parte do MAS e do presidente. Segundo ele, os impulsos iniciais, como a nacionalização dos hidrocarbonetos e o pontapé na reforma agrária, foram seguidos por constantes erros estratégicos – como o não fortalecimento da capacidade produtiva boliviana – e concessões às oligarquias.
QUEM É
Docente da Universidad Mayor de San Andres (UMSA), de La Paz, o sociólogo Eduardo Paz Rada foi deputado federal, entre 1997 e 2002, pelo partido Conciencia de Patria (Condepa). Escreve para as revistas América XXI (Argentina-Venezuela) e Patria Grande (Bolívia).
Brasil de Fato – Dois anos de Evo Morales. Quais foram seus principais acertos e erros?
Eduardo Paz Rada – No processo anterior a 2005, e no momento que Evo Morales ganhou as eleições com 54%, vivia-se no país uma efervescência popular, praticamente um estado de revolução muito profundo. Isso se refletiu na primeira parte do primeiro ano do governo dele. Mas, paulatinamente, foi-se observando que, em termos de respaldo social, de 2005 a 2007, há uma queda, que pode ser resultado de um desgaste normal do poder. Mas acredito que não seja apenas isso. Tem a ver também com as limitações para se implementar um projeto completo e integral de mudanças. A falta desse projeto tem feito com que muitos setores percam confiança e deixem de apoiar a Evo Morales. O que não quer dizer que os setores sociais mais fortes não sigam apoiando-o. Mas, sua gestão começa a gerar muitas dúvidas porque, embora nos campos social, político e cultural se tenha dado grandes passos, hoje eles estão estancados. No campo econômico, houve um grande impulso nos primeiros meses, mas os marcos neoliberais seguem vigentes. Isso é o preocupante.
Você disse que o modelo neoliberal segue vigente. Por que não foram feitas mudanças mais profundas nesse sentido?
O primeiro impulso foi muito bom, porque a idéia central era que a economia nacional passasse a ser controlada pelo Estado boliviano. Daí que a nacionalização dos hidrocarbonetos foi uma decisão histórica, fundamental, e que implicou em reações muito poderosas das transnacionais e dos governos que as apóiam, como Espanha, Estados Unidos, França e Brasil. Mas, paulatinamente, esse processo foi se debilitando. Novos contratos com as mesmas transnacionais foram assinados, claro que em melhores condições para a Bolívia, mas que ainda são muito vantajosas para as empresas. Antes da nacionalização, a distribuição da renda petroleira era de 18% para o Estado boliviano, e 82% para as transnacionais. Com a nacionalização de maio de 2006, isso se inverteu: 18% para as petroleiras, como pagamento a seus serviços, e 82% ao Estado. Com os contratos de outubro de 2006, essa relação mudou. Cerca de 50% vai para as petroleiras, e 50% para o Estado boliviano. Geralmente, menos para o Estado e mais para as petroleiras, porque elas têm uma série de vantagens para evitar o pagamento de impostos. E agora, o que se está observando claramente é que a Petrobras vai começar a ter novamente o controle fundamental do negócio petroleiro na Bolívia. Vai receber novos contratos, novos campos. E a PDVSA [estatal venezuelana de petróleo], que havia a possibilidade de se aliar com a estatal boliviana, praticamente está perdendo terreno. Além disso, confiava-se que, com a nacionalização, a YPFB [estatal boliviana] passasse a ter uma grande força. Mas isso não aconteceu e ela continua tão fraca como antes.
Além disso, as empresas que haviam sido, entre aspas, capitalizadas, continuam igual. As maiorias das ações não foram recuperadas pelo Estado boliviano. Todo o sistema de gasodutos segue nas mãos de uma empresa holandesa-estadunidense.
No campo bancário, as grandes corporações seguem com as mesmas condições, tendo os mesmos negócios de sempre, e grandes vantagens. Então, esse primeiro impulso foi freado, inclusive retrocedeu nesse momento.
Mas, o que falta para que se dê um outro impulso nesse sentido?
A falta de um projeto político-econômico do governo. Um exemplo. Os excedentes que estão entrando com os maiores ingressos por causa do gás estão se convertendo em bônus de beneficência. Para as crianças que estudam, para os aposentados. E é muito dinheiro. Pelo menos grande parte desse recurso deveria ser utilizada em projetos produtivos, em potencializar a YPFB, as empresas públicas, em financiamentos para empresas agrícolas, para cooperativas, em uma série de campos que permitissem o desenvolvimento nacional. Isso não foi e não está sendo feito. Outro exemplo. Quem faz empréstimos para se construir rodovias, ou para projetos do Estado? A Corporação Andina de Fomento (CAF). Empresta com juros de 7%. E o Banco Central faz empréstimos a empresas estrangeiras a 3%. Então, é uma loucura. Quando esse dinheiro deveria ser investido aqui. A explicação é que a equipe econômica que rodeia Evo é, em termos de concepção, formada pelos mesmos que estiveram nos 15 anos anteriores.
Como você avalia, nesses dois anos, a relação de Evo Morales com a oligarquia?
Tem sido uma relação muito conflituosa, de crise permanente. Era o que deveria ocorrer, devido à pressão social e ao ponto de vista de Evo e do MAS de ir adiante com a reforma agrária. Pelo menos 50% das terras produtivas (100 milhões de hectares) estão nas mãos de não mais que 500 famílias. E, com outras medidas, iria provocar a reação de outros setores oligárquicos, como as petroleiras, os bancos etc.
Mas, nessa disputa, quem foi ganhando terreno foi a oligarquia e seus interesses, em retrocesso do projeto de Evo Morales. E por que isso ocorreu? Desde o começo, nos primeiros seis meses de gestão, Evo fez muitas concessões aos governadores departamentais. Porque nenhuma lei respalda a autonomia dos governadores. A lei na Bolívia diz que eles são nomeados pelo presidente e dependem do ministro da Presidência. Mas, como foram eleitos por voto direto, avalizados por Evo Morales, pouco a pouco eles foram alçando seus próprios vôos. E Evo não os freou de cara. Deu muito poderes a eles. Converteu-os em interlocutores quando deveriam ser subalternos do governo central. Além disso, eles têm o apoio da embaixada dos EUA, da embaixada do Brasil, dos senadores, que são em sua maioria da oligarquia, das petroleiras e dos latifundiários. O governo ainda tem força, mas já não a que tinha há um ano e meio.
Uma das grandes promessas do Evo foi a chamada revolução agrária. Como está esse aspecto, já que também é um instrumento para debilitar a força dessas oligarquias?
Provavelmente, esse tem sido, em termos da correlação de forças políticas internas, o tema chave. Porque, as petroleiras, as mineradoras, os bancos, estão mais ligados ao exterior. O que não quer dizer que os latifundiários não estejam ligados a capitais brasileiros, paraguaios, estadunidenses. Mas a propriedade das terras está, majoritariamente, em mãos nacionais. E o projeto de Evo Morales era fazer uma nova reforma agrária. E começou a levá-lo adiante com muita força, enfrentando aos proprietários de terra. No entanto, o ministro de Desenvolvimento Rural, Hugo Salvatierra, entrou em um problema de ter feito tráfico de alguns tratores e foi substituído. O vice-ministro de terras, Alejandro Almaraz, que estava levando adiante esse processo, entrou em um choque muito duro com os latifundiários. Começaram a atacá-lo com muita força. E, num momento, recebeu muito apoio do governo. Mas, pouco a pouco, ele mesmo passou a sentir cada vez menos apoio do entorno do governo, e a situação está quase paralisada. A idéia era, primeiro, fazer um inventário das terras estatais e começar a distribuí-las. Isso está bastante atrasado. O segundo passo era recuperar as terras improdutivas e redistribuí-las. Aqui foi a luta mais forte. E hoje está numa situação de quase estancamento. Porque os setores latifundiários estão armados, têm pequenos exércitos, que amedrontam aos camponeses que estavam ocupando terras. E o governo, que estava tentando avançar nesse aspecto, o faz com muita lentidão. O projeto segue, está presente. Mas está muito ligado ao contexto. Os temas da Constituinte, de Sucre, da autonomia, estão sendo argumentos para evitar que o poder dos latifundiários seja afetado.
Um dos instrumentos mais fortes das oligarquias são os meios de comunicação. O que o governo de Evo tem feito para enfrentar esse poder?
Grandes passos foram dados. Em nenhum momento, Evo Morales tem conciliado com esses setores proprietários que foram e continuam sendo seus inimigos. Ele começou a implementar as rádios comunitárias, com um importante apoio econômico e técnico da Venezuela. Sem dúvida, aqui há um avanço, mas não o suficiente, sobretudo nas cidades, para se contrapor ao peso dos meios privados. Nesse momento, apesar dessa disputa, os meios privados estão muito fortes. Porque se fortalecem através do apoio dos setores econômicos. E, se assistimos os canais de televisão, vemos que todos têm publicidade estatal. E com isso vivem. Então, há essa grande contradição. O governo dá dinheiro para que os ataquem.
Como é a relação entre Evo e o MAS no governo? Até que ponto o Evo toma decisões mais autônomas, ou o MAS tem um papel mais forte?
O MAS nunca foi uma organização política no sentido clássico. Não tem estrutura partidária. É mais uma espécie de federação de movimentos sociais muito heterogêneos. E entre seus dirigentes, alguns tem cargos como parlamentares, constituintes, ministros, mas não obedecem a uma estrutura, e sim a formas sindicais. Como existe uma organização muito fraca, o papel de Evo Morales é sempre muito poderoso. Eu poderia dizer que o Evo Morales concentra o MAS e o governo. O que, sim, existe institucionalmente, é o fato de que muitos dos integrantes da sua equipe de governo, do meu ponto de vista, estejam comprometidos com o projeto neoliberal e muitos tenham feito do governo simplesmente um espaço de administração de poder e não uma instância para transformar o país.
Quais são os desafios de Evo para o próximo ano?
Ele tem que ir por dois caminhos. O primeiro, político, está relacionado com o referendo revocatório. Mas a aposta nele não tem que ser somente “que o Evo se vá”, mas também quais projetos há por trás de uns e outros, quais bandeiras, qual país querem construir. E não cometer os erros desses dois anos. Ou seja, que as pessoas participem, que votem com a convicção de que é para mudar profundamente, como era em 2005.
Por outro lado, não esperar o referendo revocatório para deixar de fazer política e de governar. O governo teria que impulsionar novamente o projeto original da nacionalização dos hidrocarbonetos, de fortalecimento da capacidade produtiva do país.
quarta-feira, 11 de junho de 2008
El Alto desceu
El Alto está descendo! As classes média e alta se apavoram. A imprensa aterroriza. El Alto está descendo! Não foi a primeira vez. Tampouco foi a última.
Acho que nunca tinha visto uma manifestação tão impressionante. 50, 60, 70, 80 mil pessoas? Não dá pra dizer, mas era muita gente. Descendo de El Alto, a 4.100 metros de altitude, para La Paz, a 3.600.
Pararam o trânsito, pararam a cidade. Desceram em fila, super organizados, divididos por distritos, por associações etc. Levando faixas, cartazes, bandeiras bolivianas e a whipala. A maioria vestindo ponchos, polleras, chapéus-coco. Aguayos nas costas, alguns com crianças dentro.
Até a Embaixada dos EUA, para protestar contra o asilo político dado ao ex-Ministro da Defesa, acusado de ser um dos responsáveis pela morte de mais de 60 pessoas na Guerra do Gás.
Acostumado a manifestações no Brasil, sempre me causa uma certa estranheza as mobilizações na Bolívia. Lá, sempre uma imensa maioria de estudantes de classe média. Aqui, a classe baixa. Indígena. Trabalhadora.
Mas, mesmo aqui, ainda não tinha visto nada dessa magnitude. Não parava de chegar gente. Queriam entrar na Embaixada. Expulsar o embaixador. Estavam emputados.
Não se brinca com El Alto. Morreram dezenas. Centenas ficaram feridos, mutilados. Mas quem ganhou a Guerra do Gás foram eles.
Mas a infâmia da repressão do Estado vai permanecer para sempre. Vai ficar na memória coletiva dos alteños permanentemente, mais ou menos como a perda do mar está na mente de todos os bolivianos.
El Alto não vai descansar enquanto os responsáveis pela morte de seus pais, filhos, maridos, esposas, irmãos e amigos não responderem pelo que fizeram.
Não se brinca com El Alto.
Acho que nunca tinha visto uma manifestação tão impressionante. 50, 60, 70, 80 mil pessoas? Não dá pra dizer, mas era muita gente. Descendo de El Alto, a 4.100 metros de altitude, para La Paz, a 3.600.
Pararam o trânsito, pararam a cidade. Desceram em fila, super organizados, divididos por distritos, por associações etc. Levando faixas, cartazes, bandeiras bolivianas e a whipala. A maioria vestindo ponchos, polleras, chapéus-coco. Aguayos nas costas, alguns com crianças dentro.
Até a Embaixada dos EUA, para protestar contra o asilo político dado ao ex-Ministro da Defesa, acusado de ser um dos responsáveis pela morte de mais de 60 pessoas na Guerra do Gás.
Acostumado a manifestações no Brasil, sempre me causa uma certa estranheza as mobilizações na Bolívia. Lá, sempre uma imensa maioria de estudantes de classe média. Aqui, a classe baixa. Indígena. Trabalhadora.
Mas, mesmo aqui, ainda não tinha visto nada dessa magnitude. Não parava de chegar gente. Queriam entrar na Embaixada. Expulsar o embaixador. Estavam emputados.
Não se brinca com El Alto. Morreram dezenas. Centenas ficaram feridos, mutilados. Mas quem ganhou a Guerra do Gás foram eles.
Mas a infâmia da repressão do Estado vai permanecer para sempre. Vai ficar na memória coletiva dos alteños permanentemente, mais ou menos como a perda do mar está na mente de todos os bolivianos.
El Alto não vai descansar enquanto os responsáveis pela morte de seus pais, filhos, maridos, esposas, irmãos e amigos não responderem pelo que fizeram.
Não se brinca com El Alto.
ps: fotos de Sue Iamamoto
sábado, 7 de junho de 2008
Atajo, outra vez
Sexta-feira à noite, espera de 45 minutos para entrar, sob um frio de uns 3º C. Meu segundo show do Atajo, banda da qual já falei aqui.
Uma apresentação que serviu pra confirmar a primeira impressão. Os caras são bons mesmo. O show chamava “O beijo da morte”. O cenário, as pinturas nas caras, até uma espécie de encenação com atores no começo... tudo remetia ao tema.
Algumas excelentes canções novas, outras já de sucesso, mas igualmente ótimas, músicos convidados... eles são mais uns entre tantos que mostram que dá pra fazer arte engajada sem ser aquela coisa pesada e sem poesia.
Abaixo, a matéria que fiz sobre eles:
Brasil de Fato, edição 267 (de 10 a 16 de abril de 2008)
Retratos da Bolívia
Atajo, grupo de rock boliviano, experimenta ritmos andinos e do resto da América Latina, além de apresentar letras com temáticas político-sociais
Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)
A idéia era ir direito ao ponto. Não fazer como a maioria das bandas bolivianas de então: começar tocando covers, ficar conhecida e só então compor canções. Pelo contrário, o objetivo era tomar um caminho mais curto. Um atalho.
Surgiu, assim, em 1996, o grupo Atajo (atalho, em espanhol), uma das bandas de rock de maior sucesso na Bolívia atualmente. O projeto, além de tocar músicas próprias, era compô-las em espanhol e “falar do que acontece com a gente, individualmente e na sociedade”, explica Panchi Maldonado, compositor, guitarrista e voz principal do grupo.
No entanto, mais do que as letras no idioma nacional, chamam a atenção as composições de caráter social e político da banda e suas experimentações com outros ritmos, como os sons tradicionais da região andina, do resto da América Latina, o reggae e o blues.
“Eu tinha um grupo chamado ‘La Bluesera’. Marcelo Siles, meu parceiro, gostava bastante de blues. Eu também, mas queria experimentar mais com outros ritmos. Então decidimos nos separar e eu fundei Atajo. Não tem limites, não tem teto, estamos totalmente abertos a fazer o que quisermos”, conta Panchi.
Elmer Cuba, percussionista do Atajo, conta que a banda parte de uma base rockeira comum a todos os membros, e utiliza as influências musicais de cada um. “O modo que fusionamos essas influências faz com que saia um produto muito particular”, opina.
Ritmos latinos
Caporal e morenada dos Andes bolivianos, cajón afro-peruano, saya afro-boliviana, corrido mexicano, huayno peruano. A lista de ritmos mesclados ao rock do Atajo é interminável, contribuindo para valorizar as expressões musicais latino-americanas.
Sem, no entanto, chegar a tocar o ritmo autóctono de forma pura. “Porque estaríamos desrespeitando-o. Não somos feitos para fazer essas músicas. Escutamo-nas, e as trabalhamos para misturá-las”, explica Germán Romero Andrade, guitarrista da banda, que enfatiza que nunca caracterizam as canções tradicionais como folclóricas.
No caso boliviano, Elmer diz que seu país possui uma riqueza cultural e musical muito grande, e que usar as influências dos ritmos andinos é relativamente fácil, “porque as vivemos muito fortemente”.
Panchi, porém, conta que o contato mais próximo com tais ritmos não foi imediato. “Na adolescência, ouvi bastante heavy metal (***). Depois, comecei a escutar rock melódico, ou em espanhol. A partir disso, comecei a olhar mais para dentro, aprendi a escutar música andina, e a tocar também. Então, foi uma viagem por muitos ritmos. E agora, tento experimentá-los”.
Tal incursão por novos sons trouxe desafios ao grupo e seus integrantes, como a obrigação de estudar e aprender a tocar instrumentos incomuns na música “moderna”. O baixista Gonzalo Molina González, por exemplo, considera possuir uma base ainda bastante rockeira. “Estou aprendendo um pouco mais dos ritmos latinos”, diz.
Manifesto
Da formação original do Atajo, apenas Panchi Maldonado, seu fundador, permanece. Hoje, além dele e do percussionista Elmer Cuba, do guitarrista Germán Romero Andrade e do baixista Gonzalo Molina González, fazem parte da banda o tecladista Marco Antonio Flores Gutiérrez e o baterista Edgar Arene.
Todos eles, assim como os membros anteriores, com profunda sensibilidade social. Em 1998, o primeiro disco do grupo, chamado Personajes Paceños (Personagens Pacenhos, como são conhecidos os naturais de La Paz), trazia uma espécie de manifesto traduzido em 12 canções com histórias reais, costumes, problemas e denúncias envolvendo personagens da capital boliviana.
Uma delas, Reggae de los lustras (Reggae dos engraxates), conta a dura vida dos meninos engraxates, que em La Paz costumam cobrir seus rostos para não serem reconhecidos pelos colegas de escola.
Não demorou muito para a imprensa posicionar o Atajo no gênero “rock urbano”, ao mesmo tempo em que afirmava que o rock da Bolívia havia nascido com o álbum. A categorização ganhou força em 2000, quando a banda lançou Calles Baldías (Ruas Baldias), que contemplava a temática da vida marginal da cidade, unindo as canções com sons de rua e cantos populares urbanos.
Experimental
“As pessoas têm sempre que classificar. Com a gente, há um problema, porque tocamos de tudo. Então, quando tocamos uma morenada, não sabem o que dizer”, pondera Panchi. Já Elmer faz uma proposta: se desejam classificar o Atajo, que o coloquem no gênero experimental. “Fazemos a música que gostamos e a que queremos fazer. Por isso não queremos estar em uma categoria, porque é muito limitante, no sentido de não podermos explorar mais além de determinada fronteira”, diz.
A temática social, a realidade e a história recente da Bolívia estão presentes também, por exemplo, em músicas como Ay! Mamita (Ai! Mãezinha), Que la D.E.A no me vea (Que a D.E.A não me veja) e Hoja Verde (Folha Verde).
A primeira trata da Guerra do Gás, quando, em outubro de 2003, dezenas de pessoas que reivindicavam a utilização do gás para o desenvolvimento do país foram mortas pela repressão do governo do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada. Na letra, mãezinha é a terra, enquanto o ex-mandatário é tratado como Goni, seu apelido, e Gringo, como também é chamado pelo fato de ter vivido boa parte de sua vida nos EUA.
Compromisso social
Já as duas últimas defendem a importância da folha de coca para a cultura andina e denuncia a ação da D.E.A (Drug Enforcement Administration, a agência anti-drogas estadunidense) na Bolívia, que trouxe como conseqüência a criminalização da coca e de seus cultivadores.
O Atajo participou, ainda, da campanha à presidência de Evo Morales, em 2006. Para os componentes da banda, que afirmam que mais do que o apoio a uma pessoa, foi um apoio a um processo de mudanças, o artista deve ter compromisso social e político. “Alguns se queixam de estarem em um sistema com o qual não estão de acordo, mas, se não dizem nada contra isso, são cúmplices, parte disso. Acho importante que o músico diga o que pensa, não só a nível social, mas também pessoal”, opina Panchi.
Quanto aos dois anos de governo Evo, o compositor do Atajo diz que não culpa o presidente por ainda não ter solucionado os problemas. “É duro fazer isso num país podre. O indígena sempre foi considerado um inseto. Vem sendo a merda, o pária de nossa sociedade. Agora, é difícil para o poderoso aceitar um índio no governo”.
Em www.atajo.org, é possível conferir todas as letras do grupo e até baixar alguns CDs e músicas.
LETRAS
Ay! Mamita (Pachamama) / Ai! Mãezinha (Mãe-terra)
Letra e música: Panchi Maldonado
Ay! mamita me duelen los ojos
de ver como te manchan con sangre
se callaron a más de ochenta personas
que el gringo ha mandado a matar
goni go home!
ay! mamita tengo los oídos confundidos
de escuchar tanta porquería
cuando el caballero se va a justificar
del uso de bala a la turba
zorro cabrón!
Ay! Mamita te pido perdón
por las cosas que pasan en tu vientre
ay! mamita canto esta canción
a esa gente que dio su ejemplo y su vida
ay! mamita recíbelos
queremos vivir mejor
ay! mamita me tiemblan las manos
de un presidente y sus dos promesas
defendió con las armas su democracia
luchó contra la pobreza,
goni cumplió!
ay! mamita aún me queda el corazón
mi guitarra y mi voz al viento
---
Ai! Mãezinha, meus olhos doem
de ver como te mancham de sangue
calaram a mais de oitenta pessoas
que o gringo mandou matar
goni go home!
Ai! Mãezinha, tenho os ouvidos confundidos
de escutar tanta porcaria
quando o cavalheiro vai justificar
o uso de bala contra a turba
puto sacana!
Ai! Mãezinha, te peço perdão
pelas coisas que acontecem em seu ventre
Ai! Mãezinha, canto esta canção
a essa gente que deu seu exemplo e sua vida
Ai! Mãezinha receba-os
queremos viver melhor
Ai! Mãezinha minhas mãos tremem
por causa de um presidente e suas duas promessas
defendeu com as armas sua democracia
lutou contra a pobreza
Goni cumpriu!
Ai! Mãezinha, ainda me resta o coração
meu violão e minha voz ao vento
Que la D.E.A. no me vea / Que a D.E.A não me veja
Letra e música: Panchi Maldonado
Que la d.e.a. no me vea que me causa estrés
y es mas el abuelo me enseño a pijchar
y es mas el hambre me hace olvidar
y es mas el akulliku no se perderá
y es mas el cansancio me lo va quitar
que la d.e.a. no me vea que me causa estrés
que la d.e.a. no me vea
No mates al cocalero
la coca no es cocaína
no acoses al cocalero
la coca es milenaria
Yankee mother fucker green go!
yankee mother fucker go home!
que la d.e.a. no me vea que me causa estrés////
que la d.e.a. no me vea
Que la d.e.a. no me green go!
que la d.e.a. no me go home!
---
Que a D.E.A não me veja que me causa estresse
E tem mais, meu avô me ensinou a pijchar [mascar coca, em quéchua]
E tem mais, me faz esquecer da fome
E tem mais, o akulliku [mascar coca, em aymara] não se perderá
E tem mais, me vai tirar o cansaço
Que a D.E.A não me veja que me causa estresse
Que a D.E.A não me veja
Não mate o cocalero
A coca não é cocaína
Não acosse o cocalero
A coca é milenar
Yankee mother fucker, green go!yankee mother fucker, go home!
Que a D.E.A não me veja que me causa estresse
Que a D.E.A não me veja
Que a D.E.A não me… green go!
Que a D.E.A não me… go home!
-----
Reggae de los lustras / Reggae dos engraxates
Letra e música: Panchi Maldonado
Ya es muy temprano quisiera seguir
durmiendo un ratito pero hay que salir
además si tardo ya pueden venir
esos señores de verde
que nos pegan y nos queman
Recojo mi caja sigo a ese señor
sus zapatos sucios le limpio por favor?
él me dice bueno de muy mal humor
así que saco un buen lustrey empiezo el día (aha)
Y digo popopopo popopo por eso, yo hago eso
Popopopo popo por eso, por ganarme un peso
Pero hay gente que se sigue olvidando
Que nuestros estómagos nos piden rancho
Y que también somos seres humanos
(de carne y hueso)
A veces clefeamos o nos tomamos un trago
y aunque no creannos olvidamos del mundo por un rato
uoyo, uoyoyoyo...
Rastaman is the way oh is the way
rastaman is the way oh is the way
rastaman provied the bread
---
Já é muito cedo, queria continuar
Dormindo um pouquinho, mas é preciso sair
Além disso, se demoro, já podem vir
Esses senhores de verde
Que nos batem e nos queimam
Pego minha caixa, me dirijo a esse senhor
Seus sapatos sujos, os limpo, por favor?
Ele me diz “tudo bem” de muito mal humor
Assim que consigo uma boa engraxada
E começo o dia (aha)
E digo popopopo popopo por isso, eu faço isso
Popopopo popo por isso, para ganhar um peso
Mas há pessoas que continuam esquecendo
Que nossos estômagos nos pedem comida
E que também somos seres humanos
(de carne e osso)
Às vezes cheiramos cola ou tomamos um trago
E mesmo que não acreditem
Esquecemos do mundo um pouco
uoyo, uoyoyoyo...
Rastaman is the way oh is the way
rastaman is the way oh is the way
rastaman provied the bread
A arte engajada
Algunas participações de Atajo em eventos políticos:
2006: Participação em disco de apoio à candidatura de Evo Morales à presidência.
Abril de 2005: Semana de ação mundial por um comércio justo e solidário (Campanha continental contra a Alca/ Movimento Boliviano contra a Alca e o TLC). La Paz.
Outubro de 2004, Novembro de 2005 e Janeiro de 2006: Campanha Coca e Soberania (Primeira Feira pela Despenalização da Folha de Coca).
Outubro de 2004: Feira Cultural em Homenagem aos caídos de outubro de 2003. La Paz.
Dezembro de 2003: Concerto pelos Direitos Humanos, promovido ela Assembléia Permanente de Direitos Humanos da Bolívia.
Novembro de 2003: Concerto em benefício de viúvas e órfãos dos acontecimentos de outubro de 2003. La Paz.
Uma apresentação que serviu pra confirmar a primeira impressão. Os caras são bons mesmo. O show chamava “O beijo da morte”. O cenário, as pinturas nas caras, até uma espécie de encenação com atores no começo... tudo remetia ao tema.
Algumas excelentes canções novas, outras já de sucesso, mas igualmente ótimas, músicos convidados... eles são mais uns entre tantos que mostram que dá pra fazer arte engajada sem ser aquela coisa pesada e sem poesia.
Abaixo, a matéria que fiz sobre eles:
Brasil de Fato, edição 267 (de 10 a 16 de abril de 2008)
Retratos da Bolívia
Atajo, grupo de rock boliviano, experimenta ritmos andinos e do resto da América Latina, além de apresentar letras com temáticas político-sociais
Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)
A idéia era ir direito ao ponto. Não fazer como a maioria das bandas bolivianas de então: começar tocando covers, ficar conhecida e só então compor canções. Pelo contrário, o objetivo era tomar um caminho mais curto. Um atalho.
Surgiu, assim, em 1996, o grupo Atajo (atalho, em espanhol), uma das bandas de rock de maior sucesso na Bolívia atualmente. O projeto, além de tocar músicas próprias, era compô-las em espanhol e “falar do que acontece com a gente, individualmente e na sociedade”, explica Panchi Maldonado, compositor, guitarrista e voz principal do grupo.
No entanto, mais do que as letras no idioma nacional, chamam a atenção as composições de caráter social e político da banda e suas experimentações com outros ritmos, como os sons tradicionais da região andina, do resto da América Latina, o reggae e o blues.
“Eu tinha um grupo chamado ‘La Bluesera’. Marcelo Siles, meu parceiro, gostava bastante de blues. Eu também, mas queria experimentar mais com outros ritmos. Então decidimos nos separar e eu fundei Atajo. Não tem limites, não tem teto, estamos totalmente abertos a fazer o que quisermos”, conta Panchi.
Elmer Cuba, percussionista do Atajo, conta que a banda parte de uma base rockeira comum a todos os membros, e utiliza as influências musicais de cada um. “O modo que fusionamos essas influências faz com que saia um produto muito particular”, opina.
Ritmos latinos
Caporal e morenada dos Andes bolivianos, cajón afro-peruano, saya afro-boliviana, corrido mexicano, huayno peruano. A lista de ritmos mesclados ao rock do Atajo é interminável, contribuindo para valorizar as expressões musicais latino-americanas.
Sem, no entanto, chegar a tocar o ritmo autóctono de forma pura. “Porque estaríamos desrespeitando-o. Não somos feitos para fazer essas músicas. Escutamo-nas, e as trabalhamos para misturá-las”, explica Germán Romero Andrade, guitarrista da banda, que enfatiza que nunca caracterizam as canções tradicionais como folclóricas.
No caso boliviano, Elmer diz que seu país possui uma riqueza cultural e musical muito grande, e que usar as influências dos ritmos andinos é relativamente fácil, “porque as vivemos muito fortemente”.
Panchi, porém, conta que o contato mais próximo com tais ritmos não foi imediato. “Na adolescência, ouvi bastante heavy metal (***). Depois, comecei a escutar rock melódico, ou em espanhol. A partir disso, comecei a olhar mais para dentro, aprendi a escutar música andina, e a tocar também. Então, foi uma viagem por muitos ritmos. E agora, tento experimentá-los”.
Tal incursão por novos sons trouxe desafios ao grupo e seus integrantes, como a obrigação de estudar e aprender a tocar instrumentos incomuns na música “moderna”. O baixista Gonzalo Molina González, por exemplo, considera possuir uma base ainda bastante rockeira. “Estou aprendendo um pouco mais dos ritmos latinos”, diz.
Manifesto
Da formação original do Atajo, apenas Panchi Maldonado, seu fundador, permanece. Hoje, além dele e do percussionista Elmer Cuba, do guitarrista Germán Romero Andrade e do baixista Gonzalo Molina González, fazem parte da banda o tecladista Marco Antonio Flores Gutiérrez e o baterista Edgar Arene.
Todos eles, assim como os membros anteriores, com profunda sensibilidade social. Em 1998, o primeiro disco do grupo, chamado Personajes Paceños (Personagens Pacenhos, como são conhecidos os naturais de La Paz), trazia uma espécie de manifesto traduzido em 12 canções com histórias reais, costumes, problemas e denúncias envolvendo personagens da capital boliviana.
Uma delas, Reggae de los lustras (Reggae dos engraxates), conta a dura vida dos meninos engraxates, que em La Paz costumam cobrir seus rostos para não serem reconhecidos pelos colegas de escola.
Não demorou muito para a imprensa posicionar o Atajo no gênero “rock urbano”, ao mesmo tempo em que afirmava que o rock da Bolívia havia nascido com o álbum. A categorização ganhou força em 2000, quando a banda lançou Calles Baldías (Ruas Baldias), que contemplava a temática da vida marginal da cidade, unindo as canções com sons de rua e cantos populares urbanos.
Experimental
“As pessoas têm sempre que classificar. Com a gente, há um problema, porque tocamos de tudo. Então, quando tocamos uma morenada, não sabem o que dizer”, pondera Panchi. Já Elmer faz uma proposta: se desejam classificar o Atajo, que o coloquem no gênero experimental. “Fazemos a música que gostamos e a que queremos fazer. Por isso não queremos estar em uma categoria, porque é muito limitante, no sentido de não podermos explorar mais além de determinada fronteira”, diz.
A temática social, a realidade e a história recente da Bolívia estão presentes também, por exemplo, em músicas como Ay! Mamita (Ai! Mãezinha), Que la D.E.A no me vea (Que a D.E.A não me veja) e Hoja Verde (Folha Verde).
A primeira trata da Guerra do Gás, quando, em outubro de 2003, dezenas de pessoas que reivindicavam a utilização do gás para o desenvolvimento do país foram mortas pela repressão do governo do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada. Na letra, mãezinha é a terra, enquanto o ex-mandatário é tratado como Goni, seu apelido, e Gringo, como também é chamado pelo fato de ter vivido boa parte de sua vida nos EUA.
Compromisso social
Já as duas últimas defendem a importância da folha de coca para a cultura andina e denuncia a ação da D.E.A (Drug Enforcement Administration, a agência anti-drogas estadunidense) na Bolívia, que trouxe como conseqüência a criminalização da coca e de seus cultivadores.
O Atajo participou, ainda, da campanha à presidência de Evo Morales, em 2006. Para os componentes da banda, que afirmam que mais do que o apoio a uma pessoa, foi um apoio a um processo de mudanças, o artista deve ter compromisso social e político. “Alguns se queixam de estarem em um sistema com o qual não estão de acordo, mas, se não dizem nada contra isso, são cúmplices, parte disso. Acho importante que o músico diga o que pensa, não só a nível social, mas também pessoal”, opina Panchi.
Quanto aos dois anos de governo Evo, o compositor do Atajo diz que não culpa o presidente por ainda não ter solucionado os problemas. “É duro fazer isso num país podre. O indígena sempre foi considerado um inseto. Vem sendo a merda, o pária de nossa sociedade. Agora, é difícil para o poderoso aceitar um índio no governo”.
Em www.atajo.org, é possível conferir todas as letras do grupo e até baixar alguns CDs e músicas.
LETRAS
Ay! Mamita (Pachamama) / Ai! Mãezinha (Mãe-terra)
Letra e música: Panchi Maldonado
Ay! mamita me duelen los ojos
de ver como te manchan con sangre
se callaron a más de ochenta personas
que el gringo ha mandado a matar
goni go home!
ay! mamita tengo los oídos confundidos
de escuchar tanta porquería
cuando el caballero se va a justificar
del uso de bala a la turba
zorro cabrón!
Ay! Mamita te pido perdón
por las cosas que pasan en tu vientre
ay! mamita canto esta canción
a esa gente que dio su ejemplo y su vida
ay! mamita recíbelos
queremos vivir mejor
ay! mamita me tiemblan las manos
de un presidente y sus dos promesas
defendió con las armas su democracia
luchó contra la pobreza,
goni cumplió!
ay! mamita aún me queda el corazón
mi guitarra y mi voz al viento
---
Ai! Mãezinha, meus olhos doem
de ver como te mancham de sangue
calaram a mais de oitenta pessoas
que o gringo mandou matar
goni go home!
Ai! Mãezinha, tenho os ouvidos confundidos
de escutar tanta porcaria
quando o cavalheiro vai justificar
o uso de bala contra a turba
puto sacana!
Ai! Mãezinha, te peço perdão
pelas coisas que acontecem em seu ventre
Ai! Mãezinha, canto esta canção
a essa gente que deu seu exemplo e sua vida
Ai! Mãezinha receba-os
queremos viver melhor
Ai! Mãezinha minhas mãos tremem
por causa de um presidente e suas duas promessas
defendeu com as armas sua democracia
lutou contra a pobreza
Goni cumpriu!
Ai! Mãezinha, ainda me resta o coração
meu violão e minha voz ao vento
Que la D.E.A. no me vea / Que a D.E.A não me veja
Letra e música: Panchi Maldonado
Que la d.e.a. no me vea que me causa estrés
y es mas el abuelo me enseño a pijchar
y es mas el hambre me hace olvidar
y es mas el akulliku no se perderá
y es mas el cansancio me lo va quitar
que la d.e.a. no me vea que me causa estrés
que la d.e.a. no me vea
No mates al cocalero
la coca no es cocaína
no acoses al cocalero
la coca es milenaria
Yankee mother fucker green go!
yankee mother fucker go home!
que la d.e.a. no me vea que me causa estrés////
que la d.e.a. no me vea
Que la d.e.a. no me green go!
que la d.e.a. no me go home!
---
Que a D.E.A não me veja que me causa estresse
E tem mais, meu avô me ensinou a pijchar [mascar coca, em quéchua]
E tem mais, me faz esquecer da fome
E tem mais, o akulliku [mascar coca, em aymara] não se perderá
E tem mais, me vai tirar o cansaço
Que a D.E.A não me veja que me causa estresse
Que a D.E.A não me veja
Não mate o cocalero
A coca não é cocaína
Não acosse o cocalero
A coca é milenar
Yankee mother fucker, green go!yankee mother fucker, go home!
Que a D.E.A não me veja que me causa estresse
Que a D.E.A não me veja
Que a D.E.A não me… green go!
Que a D.E.A não me… go home!
-----
Reggae de los lustras / Reggae dos engraxates
Letra e música: Panchi Maldonado
Ya es muy temprano quisiera seguir
durmiendo un ratito pero hay que salir
además si tardo ya pueden venir
esos señores de verde
que nos pegan y nos queman
Recojo mi caja sigo a ese señor
sus zapatos sucios le limpio por favor?
él me dice bueno de muy mal humor
así que saco un buen lustrey empiezo el día (aha)
Y digo popopopo popopo por eso, yo hago eso
Popopopo popo por eso, por ganarme un peso
Pero hay gente que se sigue olvidando
Que nuestros estómagos nos piden rancho
Y que también somos seres humanos
(de carne y hueso)
A veces clefeamos o nos tomamos un trago
y aunque no creannos olvidamos del mundo por un rato
uoyo, uoyoyoyo...
Rastaman is the way oh is the way
rastaman is the way oh is the way
rastaman provied the bread
---
Já é muito cedo, queria continuar
Dormindo um pouquinho, mas é preciso sair
Além disso, se demoro, já podem vir
Esses senhores de verde
Que nos batem e nos queimam
Pego minha caixa, me dirijo a esse senhor
Seus sapatos sujos, os limpo, por favor?
Ele me diz “tudo bem” de muito mal humor
Assim que consigo uma boa engraxada
E começo o dia (aha)
E digo popopopo popopo por isso, eu faço isso
Popopopo popo por isso, para ganhar um peso
Mas há pessoas que continuam esquecendo
Que nossos estômagos nos pedem comida
E que também somos seres humanos
(de carne e osso)
Às vezes cheiramos cola ou tomamos um trago
E mesmo que não acreditem
Esquecemos do mundo um pouco
uoyo, uoyoyoyo...
Rastaman is the way oh is the way
rastaman is the way oh is the way
rastaman provied the bread
A arte engajada
Algunas participações de Atajo em eventos políticos:
2006: Participação em disco de apoio à candidatura de Evo Morales à presidência.
Abril de 2005: Semana de ação mundial por um comércio justo e solidário (Campanha continental contra a Alca/ Movimento Boliviano contra a Alca e o TLC). La Paz.
Outubro de 2004, Novembro de 2005 e Janeiro de 2006: Campanha Coca e Soberania (Primeira Feira pela Despenalização da Folha de Coca).
Outubro de 2004: Feira Cultural em Homenagem aos caídos de outubro de 2003. La Paz.
Dezembro de 2003: Concerto pelos Direitos Humanos, promovido ela Assembléia Permanente de Direitos Humanos da Bolívia.
Novembro de 2003: Concerto em benefício de viúvas e órfãos dos acontecimentos de outubro de 2003. La Paz.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Sucre, capital do racismo
O artigo abaixo fala de um fato assombroso ocorrido em Sucre há pouco mais de uma semana, quando indígenas foram humilhados na praça principal da cidade.
Já tinha falado aqui como a direita usava o regionalismo e o racismo para arrebatar toda uma população a seu favor. Pois bem, o exemplo perfeito disso está aí.
Para ilustrar melhor, um vídeo curto sobre o que aconteceu.
ps: prestem atenção na última frase do artigo, entre parênteses. Reflete bem o clima na cidade, que senti em novembro, onde os que ousam discordar do senso comum correm sérios riscos de serem agredidos e terem suas casas queimadas.
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Sucre, capital del racismo
César Brie
Enviado por Indy La Paz el Mar, 03/06/2008 - 18:52.
Desde noviembre, Sucre está gobernada de hecho por el Comité Interinstitucional cuyos representantes (la mayoría políticos derrotados en las urnas) deciden todo en esa ciudad. Ellos alentaron la formación de los grupos de choque que el 24 de mayo vejaron a los campesinos, obligándolos a besar el suelo y la bandera de Chuquisaca a punta de chicotazos. El 24 de mayo en Sucre quedará como un capítulo más de la historia universal de la infamia. Un grupos de campesinos vejados a chicotazos y patadas, obligados a marchar semidesnudos hasta la plaza 25 de Mayo, a arrodillarse frente a la Casa de la Libertad, a besar el suelo, la bandera de la capitalía plena, a cantar el himno de Chuquisaca y quemar ellos mismos sus whipalas y pancartas. Pude filmar este espanto y cualquiera puede encontrarlo en You tube en el sitio www.youtube.com .
No tuve la frialdad para quedarme en la plaza y seguir filmando a los responsables, la mayoría con pasamontañas que les cubrían el rostro. Sólo reconocí a uno de los exaltados, que luego de haberlos correteado se estrecho la mano con personeros de la Alcaldía en la puerta de la misma y se fue en una moto que allí tenía parqueada. Muchas personas, testigos de la vejación, alzaron la voz pidiendo que los campesinos no sean golpeados. Oí un inefable: "No les peguen, si no van a decir que somos racistas". Como si el racismo dependiera de una paliza final y no del secuestro y humillación recibidos. Seres humanos vejados y maltratados.
Al día siguiente entrevisté a campesinos que fueron rehenes en la plaza y a otros maltratados y vejados en diferentes lugares de Sucre. Filmé el relato atroz de lo que pasaron, las cortaduras y marcas provocadas por las agresiones. Supe de dos violaciones por un testimonio ocular, agravadas por la decisión de las mujeres violadas de no decir nada para no " deshonrar a sus maridos" . Filme los piedrazos, las huellas de patadas en la puerta, los vidrios rotos y las marcas de la dinamita arrojada dentro de la casa de Wilber Flores, diputado del MAS que el 10 de abril pasado fue perseguido desde la Alcaldía, golpeado y torturado dentro de un albergue en el cual trató de refugiarse. Flores estaba en El Abra en el momento del ataque a su casa, donde su mujer y su hija debieron huir cerro arriba para no ser linchadas. En Gigavisión los bolivianos pudieron ver a Fidel Herrera (uno de los miembros del Comité Interinstitucional) aplaudiendo a la turba que arrastraba a los campesinos. Luego, este señor pidió disculpas (¿de haberlo organizado, de haberlo aplaudido, o de ambas cosas?) y a última hora del 26 de mayo se retractó declarando que toda esta agresión había sido realizada por infiltrados del gobierno. Está ultima versión es recogida por el Correo del Sur, periódico parcializado completamente con las opciones de la derecha y que merece el graffiti escrito en una pared de Sucre: "Las paredes callarán, cuando la prensa diga la verdad".
A riesgo de ser linchados
Que el Comité acuse, en este caso, al gobierno por los hechos de violencia que anunció y desencadenó finalmente, es ridículo. Desde noviembre Sucre está gobernada de hecho por el Comité Interinstitucional cuyos representantes (la mayoría políticos derrotados en las urnas) deciden todo en nuestra ciudad. Muchos de nosotros, que no somos ni simpatizantes del Comité ni miembros del MAS, hemos optado en estos meses por trabajar en silencio para evitar que nuestras opiniones críticas terminaran con una agresión a nuestras personas o a nuestras familias y casas. Pero la infamia del 24 de mayo ha sido la gota que ha rebalsado el vaso. Nos hemos mirado a la cara y hemos decidido que era hora no ya de comunicarnos vía Internet nuestras impresiones sino de declararlas a riesgo de ser linchados por alguna de las bandas fascistas que el Comité Interinstitucional ha promovido. Nos manifestaremos por la paz y el diálogo, de todas las formas posibles, seremos nosotros los periodistas que recogerán los testimonios que la prensa de Sucre, con pocas excepciones, no quiere recoger. Nuestra ciudad debe volver a ser lo suficientemente grande para albergar opiniones diferentes que diriman en modo democrático, con el voto de los ciudadanos, sus diferencias.
Otras consideraciones
El gobierno no se ha destacado por tener hacia Sucre una actitud coherente. Los sucrenses, del bando que sean, todavía esperan del Presidente de la República al menos un pésame por los muertos, y disculpas por haber excluido de la Asamblea Constituyente el tema de la Capitalía. Quien escribe esta convencido que la Capitalía fue introducida en la Asamblea para poder bloquearla. Esto no excluye que dicho tema debía de ser discutido, tratado y finalmente votado. Si la votación hubiera sido contraria a las aspiraciones de Sucre, supongo que hubiera sido ésta la excusa para bloquear la Asamblea. La ilusión masiva con que se ha engañado a los sucrenses radica en haber vuelto de cariz político una reivindicación histórica. La Paz se quedó con la sede de gobierno por la fuerza de las armas y Sucre, hoy día, tiene dos posibilidades: o dirimir el tema a través de un referéndum nacional, o recurrir a la fuerza. Por eso el lema del Comité y de los exaltados "Ni un paso atrás" es un lema suicida, que no puede conducir a nada, pero muy motivador.
El gobierno no ha comprendido que el fascismo, para triunfar debe volverse popular. Y esa popularidad se obtiene a través de slogans demagógicos como el mencionado. El caldo del cultivo de los grupos fascistas ha sido siempre la clase media. Los errores del gobierno y su escasa vocación democrática han colaborado a popularizar este fascismo. Hoy Sucre tiene las paredes llenas de consignas opuestas, y entre ellas destaca la Falange, dada por sepultada desde la muerte de Unzaga de la Vega. No debe olvidarse que el racismo nunca desapareció de Sucre. Subsistió velado por los buenos modales y un hipócrita barniz cultural. En los cafés de la plaza de Sucre y alrededores no entraban los indios, y si entraban, eran invitados a marcharse. Con el triunfo de Evo Morales y la instalación de la Asamblea, la clase media comenzó a resignarse a convivir con los indígenas, pero el cariz de los hechos que llevaron a noviembre retrasó el estado de las cosas hasta que la agresión del 24 de mayo nos hizo precipitar a los humillantes escarmientos de la Colonia. Quienes maltrataron a los indígenas el 24 de mayo tienen la misma piel morena, hablan algo de quechua pero visten diferente. Ese es un axioma del racista: parecerse demasiado al objeto de su odio y por lo tanto enseñarse con el otro para ignorar la parte de sí que se le asemeja.
La Prefectura de Chuquisaca fue ganada por el MAS con los votos del campo, dado que la ciudad votaba mayoritariamente por la derecha. Pero la sede de la Prefectura está en la ciudad de Sucre, y a la clase media de Sucre le resultaba intolerable que el partido "del indio" los gobernara. Un intelectual me dijo en la Plaza que la culpa de todo esto era "de ese indio resentido que nos gobierna. Antes vivíamos en paz". Pienso que esa paz en la que este intelectual ha vivido toda su vida ha sido en realidad la paz de la sumisión, ideal para quien somete, aceptable para quien no la sufre y se beneficia indirectamente de ella (las clases medias), pero atroz y degradante para los sometidos, los indígenas.
(Si estas opiniones provocan algún tipo de agresión, ruego a los potenciales agresores ensañarse - no excesivamente- directamente con el interesado y no con el Teatro que dirijo ni con mi familia, que no son responsables de lo que escribo y ni siquiera comparten muchas de mis opiniones).
Já tinha falado aqui como a direita usava o regionalismo e o racismo para arrebatar toda uma população a seu favor. Pois bem, o exemplo perfeito disso está aí.
Para ilustrar melhor, um vídeo curto sobre o que aconteceu.
ps: prestem atenção na última frase do artigo, entre parênteses. Reflete bem o clima na cidade, que senti em novembro, onde os que ousam discordar do senso comum correm sérios riscos de serem agredidos e terem suas casas queimadas.
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Sucre, capital del racismo
César Brie
Enviado por Indy La Paz el Mar, 03/06/2008 - 18:52.
Desde noviembre, Sucre está gobernada de hecho por el Comité Interinstitucional cuyos representantes (la mayoría políticos derrotados en las urnas) deciden todo en esa ciudad. Ellos alentaron la formación de los grupos de choque que el 24 de mayo vejaron a los campesinos, obligándolos a besar el suelo y la bandera de Chuquisaca a punta de chicotazos. El 24 de mayo en Sucre quedará como un capítulo más de la historia universal de la infamia. Un grupos de campesinos vejados a chicotazos y patadas, obligados a marchar semidesnudos hasta la plaza 25 de Mayo, a arrodillarse frente a la Casa de la Libertad, a besar el suelo, la bandera de la capitalía plena, a cantar el himno de Chuquisaca y quemar ellos mismos sus whipalas y pancartas. Pude filmar este espanto y cualquiera puede encontrarlo en You tube en el sitio www.youtube.com .
No tuve la frialdad para quedarme en la plaza y seguir filmando a los responsables, la mayoría con pasamontañas que les cubrían el rostro. Sólo reconocí a uno de los exaltados, que luego de haberlos correteado se estrecho la mano con personeros de la Alcaldía en la puerta de la misma y se fue en una moto que allí tenía parqueada. Muchas personas, testigos de la vejación, alzaron la voz pidiendo que los campesinos no sean golpeados. Oí un inefable: "No les peguen, si no van a decir que somos racistas". Como si el racismo dependiera de una paliza final y no del secuestro y humillación recibidos. Seres humanos vejados y maltratados.
Al día siguiente entrevisté a campesinos que fueron rehenes en la plaza y a otros maltratados y vejados en diferentes lugares de Sucre. Filmé el relato atroz de lo que pasaron, las cortaduras y marcas provocadas por las agresiones. Supe de dos violaciones por un testimonio ocular, agravadas por la decisión de las mujeres violadas de no decir nada para no " deshonrar a sus maridos" . Filme los piedrazos, las huellas de patadas en la puerta, los vidrios rotos y las marcas de la dinamita arrojada dentro de la casa de Wilber Flores, diputado del MAS que el 10 de abril pasado fue perseguido desde la Alcaldía, golpeado y torturado dentro de un albergue en el cual trató de refugiarse. Flores estaba en El Abra en el momento del ataque a su casa, donde su mujer y su hija debieron huir cerro arriba para no ser linchadas. En Gigavisión los bolivianos pudieron ver a Fidel Herrera (uno de los miembros del Comité Interinstitucional) aplaudiendo a la turba que arrastraba a los campesinos. Luego, este señor pidió disculpas (¿de haberlo organizado, de haberlo aplaudido, o de ambas cosas?) y a última hora del 26 de mayo se retractó declarando que toda esta agresión había sido realizada por infiltrados del gobierno. Está ultima versión es recogida por el Correo del Sur, periódico parcializado completamente con las opciones de la derecha y que merece el graffiti escrito en una pared de Sucre: "Las paredes callarán, cuando la prensa diga la verdad".
A riesgo de ser linchados
Que el Comité acuse, en este caso, al gobierno por los hechos de violencia que anunció y desencadenó finalmente, es ridículo. Desde noviembre Sucre está gobernada de hecho por el Comité Interinstitucional cuyos representantes (la mayoría políticos derrotados en las urnas) deciden todo en nuestra ciudad. Muchos de nosotros, que no somos ni simpatizantes del Comité ni miembros del MAS, hemos optado en estos meses por trabajar en silencio para evitar que nuestras opiniones críticas terminaran con una agresión a nuestras personas o a nuestras familias y casas. Pero la infamia del 24 de mayo ha sido la gota que ha rebalsado el vaso. Nos hemos mirado a la cara y hemos decidido que era hora no ya de comunicarnos vía Internet nuestras impresiones sino de declararlas a riesgo de ser linchados por alguna de las bandas fascistas que el Comité Interinstitucional ha promovido. Nos manifestaremos por la paz y el diálogo, de todas las formas posibles, seremos nosotros los periodistas que recogerán los testimonios que la prensa de Sucre, con pocas excepciones, no quiere recoger. Nuestra ciudad debe volver a ser lo suficientemente grande para albergar opiniones diferentes que diriman en modo democrático, con el voto de los ciudadanos, sus diferencias.
Otras consideraciones
El gobierno no se ha destacado por tener hacia Sucre una actitud coherente. Los sucrenses, del bando que sean, todavía esperan del Presidente de la República al menos un pésame por los muertos, y disculpas por haber excluido de la Asamblea Constituyente el tema de la Capitalía. Quien escribe esta convencido que la Capitalía fue introducida en la Asamblea para poder bloquearla. Esto no excluye que dicho tema debía de ser discutido, tratado y finalmente votado. Si la votación hubiera sido contraria a las aspiraciones de Sucre, supongo que hubiera sido ésta la excusa para bloquear la Asamblea. La ilusión masiva con que se ha engañado a los sucrenses radica en haber vuelto de cariz político una reivindicación histórica. La Paz se quedó con la sede de gobierno por la fuerza de las armas y Sucre, hoy día, tiene dos posibilidades: o dirimir el tema a través de un referéndum nacional, o recurrir a la fuerza. Por eso el lema del Comité y de los exaltados "Ni un paso atrás" es un lema suicida, que no puede conducir a nada, pero muy motivador.
El gobierno no ha comprendido que el fascismo, para triunfar debe volverse popular. Y esa popularidad se obtiene a través de slogans demagógicos como el mencionado. El caldo del cultivo de los grupos fascistas ha sido siempre la clase media. Los errores del gobierno y su escasa vocación democrática han colaborado a popularizar este fascismo. Hoy Sucre tiene las paredes llenas de consignas opuestas, y entre ellas destaca la Falange, dada por sepultada desde la muerte de Unzaga de la Vega. No debe olvidarse que el racismo nunca desapareció de Sucre. Subsistió velado por los buenos modales y un hipócrita barniz cultural. En los cafés de la plaza de Sucre y alrededores no entraban los indios, y si entraban, eran invitados a marcharse. Con el triunfo de Evo Morales y la instalación de la Asamblea, la clase media comenzó a resignarse a convivir con los indígenas, pero el cariz de los hechos que llevaron a noviembre retrasó el estado de las cosas hasta que la agresión del 24 de mayo nos hizo precipitar a los humillantes escarmientos de la Colonia. Quienes maltrataron a los indígenas el 24 de mayo tienen la misma piel morena, hablan algo de quechua pero visten diferente. Ese es un axioma del racista: parecerse demasiado al objeto de su odio y por lo tanto enseñarse con el otro para ignorar la parte de sí que se le asemeja.
La Prefectura de Chuquisaca fue ganada por el MAS con los votos del campo, dado que la ciudad votaba mayoritariamente por la derecha. Pero la sede de la Prefectura está en la ciudad de Sucre, y a la clase media de Sucre le resultaba intolerable que el partido "del indio" los gobernara. Un intelectual me dijo en la Plaza que la culpa de todo esto era "de ese indio resentido que nos gobierna. Antes vivíamos en paz". Pienso que esa paz en la que este intelectual ha vivido toda su vida ha sido en realidad la paz de la sumisión, ideal para quien somete, aceptable para quien no la sufre y se beneficia indirectamente de ella (las clases medias), pero atroz y degradante para los sometidos, los indígenas.
(Si estas opiniones provocan algún tipo de agresión, ruego a los potenciales agresores ensañarse - no excesivamente- directamente con el interesado y no con el Teatro que dirijo ni con mi familia, que no son responsables de lo que escribo y ni siquiera comparten muchas de mis opiniones).
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