quinta-feira, 29 de maio de 2008

A pegada em questão




Pegada de 10 milhões de anos

Há um mês, disseram que a Atlântida era aqui. Agora, encontraram, no altiplano, a pegada humana petrificada mais antiga do mundo (matéria abaixo). Acho que o lance não é mais vir pra Bolívia como jornalista, e sim como arqueólogo.

Já sei onde o quinto Indiana Jones será filmado.

--------------

Presentan en Bolivia huella humana más antigua del mundo

La Paz, 29 may (ABI).- La huella humana petrificada más antigua del mundo será presentada oficialmente hoy en esta ciudad tras ser descubierta en octubre del año pasado en el altiplano del departamento boliviano de La Paz.
La exposición del hallazgo, que se presume tenga de 10 millones a 15 millones de años de antigüedad, se realizará este jueves en el Ministerio de Relaciones Exteriores y Cultos con la presencia de la agrupación internacional Comunidad de la Sabiduría Ancestral.
Según consigna un informe redactado por la Unidad Nacional de Arqueología (UNAR), citado por Prensa Latina, la pisada humana es una huella paleontológica muy antigua de la época terciaria, cuando se estaba formando la cordillera de los Andes y en especial las serranías cercanas al lago Titicaca.
Conocido como la pisada del Inca, el vestigio fue encontrado por Fanny Pimentel, quien después de tomar fotografías las presentó ante el equipo de técnico de la referida institución científica para que realizaran los correspondientes estudios.
Hasta el momento la huella más arcaica del planeta era patrimonio de Egipto, donde un grupo de arqueólogos hallaron una que podría tener alrededor de dos millones años, por lo cual la boliviana es calificada como una muestra especial.
El proceso investigativo arrojó que la pisada corresponde a un hombre adulto con una estructura ósea bien desarrollada, una estatura aproximada de 1,70 a 1,75 metros y un peso cercano a 70 kilogramos.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Aliás...

Por falar em sopa e almoço, estou devendo um post sobre as comidas bolivianas. A conferir, num futuro breve (assim espero).

Enquanto isso, provecho para mim.

Duas coisas que acostumei a fazer na Bolívia e das quais vou sentir falta quando voltar para o Brasil (não necessariamente nesta mesma ordem)

- Tomar um prato de sopa antes do almoço (a que tomei agora estava ótima).

- Mascar coca.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Um pouco de bom senso às vezes é bom


Juro que não é porque moro em La Paz. Desde maio do ano passado, quando a FIFA decidiu limitar os jogos na altitude, e quando eu ainda nem sabia que viria para cá, achei um absurdo.

Pois, agora, resolveu voltar atrás “provisoriamente”, à espera de estudos médicos. É o mínimo.

Durante esse ano todo, pelo menos os meses que estive aqui, essa história foi uma espécie de comoção nacional. Manchetes dos principais jornais, o Evo (na foto, de verde) entrando diretamente na campanha de repúdio etc.

Falavam indignados que a ação da FIFA ia contra a universalidade do futebol, e que era discriminatória contra os países andinos. E acho que eles estão certos. Duvido que se países como Brasil, Argentina, Itália etc jogassem na altitude, iam dizer alguma coisa.

Fora que, vamos falar a verdade. As pessoas pintam a altitude como um monstro muito maior do que ele é. Afeta? Claro que afeta. Mas não é tudo isso, ainda mais se estamos tratando de atletas profissionais.

O que todos esquecem é que, internamente, isso também é um “problema”. A Bolívia, por exemplo, não fica só nos Andes. Os times das planícies têm que subir mais de 3 mil metros pra jogar o campeonato boliviano, e várias vezes por ano. E ninguém reclama.

E o curioso é que, das dez confederações sul-americanas de futebol, apenas a CBF (pressionada pelo Flamengo) não apoiou a Bolívia, o Peru e o Equador contra a FIFA. E a seleção e os times brasileiros deveriam ser os menos temerosos a jogar na altura, pela diferença gigante da qualidade do futebol.

Na Libertadores deste ano, o Santos perdeu do San José, de Oruro, aqui na Bolívia, enquanto os dois outros times do grupo, um mexicano e um colombiano, ganharam até com facilidade. O Cruzeiro tomou um cacete do Real Potosí, enquanto o San Lorenzo, da Argentina, ganhou de virada, depois de sair perdendo de 2 a 0.

Ou seja, os times brasileiros perdem porque já vêm com o medo da altitude na cabeça, em vez de esquecer isso e jogar bola.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Saudade... palavra triste?

– Una palabra que yo nunca entendí en portugués es “saudade”. ¿Es como nostalgia?

– No. No hay una palabra en español que la traduzca exactamente. A ver… Es como decir que tu extrañas a una persona. Extrañar a una persona es sentir “saudade”.

– Huuum… Todavía no logro entender bien. Pero ¿“saudade” es algo bueno, no? ¿Es algo gozoso, verdad?

– Ni siempre. Depende. Puede ser algo bueno o malo.

– ¿Ah, sí?

– Ya. Por ejemplo, si tu no vas a ver una persona querida por mucho tiempo, o nunca más, la “saudade” no es buena. Duele.

– Ya.

– Ahora, si sabes que vas a ver pronto una persona que te gusta mucho, es una “saudade” buena. Te pones feliz. Te sientes bien por querer a alguien.

– Huuum… Aún no comprendo muy bien.

domingo, 18 de maio de 2008

El Gran Poder



Já comentei aqui anteriormente como é impressionante a religiosidade do boliviano e extremamente forte o sincretismo entre o catolicismo e as crenças andinas. Ontem pude ver outro exemplo disso: a festa do Gran Poder.

A história diz que, no começo do século 20, uma pintura com a imagem da santíssima trindade, com três rostos de Cristo, chegou ao bairro de Chijini, em La Paz. Era uma zona bastante popular, com grande presença de migrantes aymaras.

Aí, bastou alguns milagres atribuídos à pintura para seu culto ter início. Antes, ficava numa casa particular, mas no final dos anos 30, construiu-se uma capela para abrigá-la. No dia do Gran Poder, celebrava-se missa e saía-se em procissão.

A partir da década de 70, a procissão, já transformada em desfile, começou a se expandir pela cidade, tornando-o uma festa de toda La Paz, e não mais restrita a Chijini. E, antes discriminada socialmente, passou a animar a classe média.

Mas, uma festa que tinha tudo para ser bem católica (afinal, eram milagres realizados por uma pintura da santíssima trindade), acabou ganhando fortes elementos da cultura andina.

Ontem, parecia bastante um desfile de carnaval (especialmente, com o de Oruro). A diferença é que aqui não tem um sambódromo: a procissão é por um longo trajeto pelas ruas da cidade.

À semelhança de Oruro, o desfile é dividido em inúmeros grupos, ou fraternidades. Cada grupo escolhe uma dança (e música) andina para representar: morenada (na foto), kullawada, llamerada, diablada, caporal...

Muita gente chega para assistir. A festa, auto-proclamada de “a maior dos Andes” é super concorrida, e, como se espera num caso desses, conta com uma rede gigante de comércio em sua volta, principalmente de comidas.

Para mim, confesso que não é algo que empolga muito. Afinal, como disse, lembra os desfiles de carnaval brasileiros. Mas, sem dúvida, é muito interessante observar ritmos, figurinos e passos de uma cultura tão próxima e tão distinta da nossa.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A direita atarantada

A direita boliviana sabe que a vitória no referendo de Santa Cruz não teve nada de retumbante e agora anda meio desesperada. Sem saber o que fazer, resolveu lançar mão do referendo revogatório.

Não sei parte da oposição acredita que o povo vai votar para que o Evo saia (embora possível, acho muito improvável). Mas o fato é que tal decisão causou briga. Os governadores do oriente meteram o pau na consulta aprovada pela oposição no Senado, dizendo que só vai favorecer o governo e atrapalhar as autonomias.

Afinal, o mais provável que aconteça é que Evo fique e alguns deles saiam. Embora possa servir para que a aprovação da nova Constituição seja mais uma vez postergada, acho que, no frigir dos ovos, foi uma jogada meio estúpida mesmo – a não ser que tenham uma cartada muito boa por trás disso tudo.

Apesar do referendo revogatório oferecer riscos ao Evo (como ele perder ou ganhar por pouco) e o fato dele se encontrar numa situação bem difícil, é muito bom ver a direita batendo cabeça de vez em quando. Embora nunca devemos subestimá-la.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Fim-de-semana de cultura e paixão bolivianas

Seis contos nacionais adaptados para uma peça de teatro, em formato de esquetes. Em uma delas, um homem conta sua história de profissões inusitadas (em uma delas, ele ganhava para rir nos shows de comédia) e a relação com sua esposa.

A segunda é o caso de um jovem de uma comunidade rural da Bolívia que vai para o Exército, e "esquece" suas origens. Na próxima, uma mineradora explica a dura vida dela e a de seu marido, também minerador.

A quarta e a quinta esquetes são a la Nelson Rodrigues, lembrando bastante os episódios da "Vida como ela é". Uma é a de um pai confessando observar todos os dias a filha fazendo sexo com diferentes rapazes, e a outra é de um jovem contando os podres de seu pai no dia de sua morte.

Na última, a melhor, mais engraçada e mais triste delas, um homem fala sobre a angústia e o medo dele em falar em público, e como isso arruinou sua vida.

"Amores que matan", uma bela peça boliviana.

---------------

Já domingão foi a vez de uma arte mais mundana, mas igualmente bela. Futebol, claro. Rumo ao Hernando Siles de novo, o estádio que a Fifa quer vetar, para assistir outro jogo do Bolívar, e, quem sabe, ver uma vitória.

Nas duas vezes anteriores, dois empates de 2 a 2, contra o The Strongest e o Real Potosí. Dessa vez, era de novo contra o arqui-rival The Strongest, pelo returno do campeonato boliviano. E, de novo, as duas torcidas chegando juntas ao estádio e sentando juntas lá dentro.

Agora, já sem medo do clássico, eu tava com meus apetrechos bolivaristas: um boné e um cachecol. Foi um jogo sensacional. Ouso dizer que o mais emocionante que eu vi (no estádio ou pela TV) em muito tempo.

Mas as coisas começaram bem mal... com um gol do The Strongest logo a dois ou três minutos de jogo. Depois disso, foi um festival de gols inacreditavelmente perdidos dos dois lados, até que, no começo do segundo tempo, 2 a 0. Bem, paciência, pensei, fica pra outro dia.

Já torço pro Bolívar a ponto de me incomodar com os sarros da torcida adversária. E óbvio que era isso que estava acontecendo no estádio. Como se não bastasse, começou a cair uma chuva fina, mas bem fria.

Eis que, aos 41 minutos, o Bolívar diminui numa cobrança de pênalti. A torcida se anima, o time também, e, aos 43, empata o jogo, num golaço. O estádio ficou uma loucura, mais ou menos como a comemoração de um título. Nem parecia que metade dele era ocupado por não-bolivaristas.

Fui pra casa outra vez sem vitória, mas mais do que satisfeito.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O jornalismo escroto, a luta de classes e o racismo

Impagável era ver a cara dos jornalistas de TV bolivianos quando, depois de perguntado o que eu tinha achado do referendo de Santa Cruz, eu respondia questionando o processo.

O sorriso virava carranca, surpresa. Insistiam perguntando se a vitória do “sim” não teria sido contundente e, diante da negativa, terminavam a entrevista, agradecendo com um sorriso forçado. Aconteceu umas três ou quatro vezes.

Não que eu seja um pop star do jornalismo. É que, não sei por que cargas d’água, os repórteres locais adoravam entrevistar os jornalistas estrangeiros que estavam na sala de imprensa do referendo. Todos os dias.

Centenas de jornalistas apareceram para cobrir a consulta. Mas, mesmo assim, com honrosas exceções, faltou jornalismo. Para ser justo, não acompanhei a cobertura internacional, apenas a boliviana e a brasileira. Mas sei de um argentino que a Sue, amiga brasileira, escutou comentar para um meio local. Ele dizia que o objetivo dos que propunham o referendo era o de desburocratizar o Estado. Ai, ai, ai, fala sério.

No caso da imprensa boliviana, deu vergonha de meus colegas. Os canais de TV todos saudavam, seja nos telejornais regulares, seja nos programas especiais, a “festa democrática” e o “momento histórico” (no bom sentido) em Santa Cruz. Quase todos os repórteres e âncoras tinham orgasmos múltiplos ao noticiarem algum aspecto do referendo.

Como sempre, desconsideravam que o governo boliviano, os movimentos sociais, a OEA, a União Européia, os países vizinhos etc não reconheciam a legitimidade da consulta. Ignoravam também as muitas críticas sobre o estatuto autonômico, que foi redigido por um grupinho da elite cruceña e contém pontos claramente racistas e separatistas.

Faltou jornalismo também, e muito, ao se comemorar efusivamente os resultados parciais da apuração. “O ‘sim’ ganhou com 85%!”, gritavam, a la Galvão Bueno. “Vitória arrasadora da autonomia!”. A informação era a de que praticamente todos da região aprovavam o estatuto.

Os “analistas” chamados para comentar os resultados babavam de alegria: “Agora seria interessante ver o que vai dizer o governo, diante de sua derrota retumbante”, disse um deles.

Mas, de acordo com os próprios dados oficiais, a abstenção tinha sido de 35%, o “não” tinha levado 15% dos votos, enquanto os votos brancos e nulos somavam algo em torno de 3%. Ou seja, mais da metade dos eleitores cruceños não tinha votado pelo “sim”.

Alguma análise sobre o que isso significa? Não, claro que não.

Quanto aos meios brasileiros, as matérias que vi foram algo um tanto burocráticas. Mas o que eu notei é que alguns repórteres (que estavam em Santa Cruz) relatavam que os enfrentamentos que aconteceram no dia da votação eram entre “autonomistas” e “simpatizantes de Evo Morales”.

Esse tipo de afirmação é uma redução muito grande da complexidade da questão. Em primeiro lugar, ao colocarem um dos lados como “autonomistas”, automaticamente transformam o outro em anti-autonomista. Mas os que tentavam impedir o referendo também eram autonomistas. O que se questionava era o conteúdo do estatuto e a forma como ele foi feito.

Em segundo lugar, nem todos são simpatizantes do Evo. Muitos estão descontentes com o governo. Ou seja, falar que são apoiadores do Evo é dizer que estavam tentando impedir o referendo apenas por solidariedade a ele. É reduzir a questão a uma briga político-eleitoral.

Mas, mais do que tudo, é negar a luta de classes. Não me venha dizer que isso já não existe mais, que é anacrônico, que é discurso dos esquerdistas dinossauros. Enquanto houver no mundo a exploração do homem pelo homem, a luta de classes seguirá existindo.

Negá-la é corroborar a tese do fim da história, é determinar o triunfo do capitalismo sobre qualquer outro modelo de sociedade alternativo, é defender a resignação dos explorados com sua condição.

Quem esteve em Santa Cruz nos últimos dias viu que a luta de classes estava muito latente. No ato de encerramento da campanha pelo “sim”, havia de tudo, é verdade, inclusive indígenas pobres. Mas se via muitas pessoas de classe média e alta, dondocas com o cabelo pintado de loiro, usando roupas caras. No centro da cidade, diversos carrões circulavam com a bandeira pró-autonomia.

Agora, no Plan 3000, a história era completamente diferente. É um dos bairros mais pobres de Santa Cruz. Lixo no chão, ruas de terra, casas e praças deterioradas. E isso a apenas 15 minutos da praça principal de Santa Cruz. Quase 100% de seus moradores são indígenas, migrantes ou filhos de migrantes do ocidente. São os chamados collas.

Ao chegarmos lá no dia da votação, deu para notar na hora o clima pesado. Eles estavam concentrados numa praça, queimando urnas e cédulas que pegavam nos colégios. Tinham montado uma caixa de som com um microfone, usados para os discursos de qualquer um que se habilitasse.

Foi descermos do táxi para sentirmos quase todos os olhos em cima de nós. Paus nas mãos, e olhares desconfiados em direção aos brancos relativamente bem vestidos. A raiva nos olhos e nos discursos era algo impressionante. Tinham um inimigo muito bem definido: a oligarquia de Santa Cruz.

Mas a imprensa era respeitada. Queriam mostrar a verdade deles para o mundo. Por algumas vezes, ficamos no meio do fogo cruzado de paus e pedras, mas o grupo que avançava passava reto por nós, seja o dos pró-referendo, seja o dos seus opositores.

De volta a La Paz, infelizmente lembro de Santa Cruz como uma cidade racista. Certamente não deve ser todo mundo. De repente nem é a maior parte. Mas ver as pichações nos muros choca. Era “collas filhos da puta”, “morram collas” ou “depois do 4 de maio, os collas vão embora”.

Nas mobilizações pró-estatuto, vira e mexe tocava uma música alegre que começava com um “Camba, que viva o camba!”. Pois é disso que os cruceños estão se chamando agora. Inventaram esse termo, o camba. Não existe. Não é uma etnia, não é um povo... Na verdade, era como, antigamente, os indígenas eram chamados pejorativamente na região.

De uns tempos pra cá, as elites se apropriaram do termo, como contraposição aos collas. E, certamente, começaram a usá-lo para unir toda uma população em torno de uma identidade comum. Criaram a “Nação Camba”, uma espécie de novo país que excluiria a Bolívia andina. Vi muita gente com uma camiseta que tinha o mapa da nova nação desenhado.

Por isso que o clima pró-estatuto em Santa Cruz parecia o do Brasil em Copa do Mundo, quando todos se deixam levar pelo ufanismo (lembrava o clima pró-capitalidade em Sucre). O discurso da elite cruceña faz muitos acreditarem que a pobreza é culpa do centralismo, que todos os problemas são culpa dos collas. Daí se explica a “cooptação” da classe baixa.

Pois é, o discurso... muitas vezes se dá pouca importância pra ele, mas a retórica é fundamental. No caso de Santa Cruz, além do apelo ao regionalismo e ao racismo, as autoridades lançam mão de um termo muito caro a nós latino-americanos, que temos na memória recente ditaduras sanguinárias: a democracia.

Mas qual democracia? Claro, aquela que garante a liberdade dos grandes grupos econômicos e oferece ao resto a “grande possibilidade” de votar a cada quatro anos. A mesma evocada pela mídia para condenar Cuba, Venezuela e... agora, a Bolívia.

ps: Aqui, parte da matéria que fiz pra versão impressa do Brasil de Fato.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Notícias cruceñas

Ainda em Santa Cruz. Ontem, no dia "D", passei quase todo o dia num dos bairros mais pobres da cidade. Aqui, a matéria que fiz. Depois, com mais tempo, escrevo minhas impressões pessoais.

Aqui, uma matéria anterior.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Santa Cruz é verde e branca

Bem, aqui estou em Santa Cruz de la Sierra. Cheguei ontem de manhã, depois de 17 horas de busão (e só duas paradas, fala sério).

Do que eu pude ver até agora, a cidade respira autonomia. As bandeiras verde e brancas, as cores daqui, estão em todo lugar, assim como faixas e cartazes pedindo (ou exigindo?) o voto no "sim" no domingo.

Ontem no início da noite, fui no ato de encerramento da campanha. Uma multidão... impressionante. É assustador ver como um tipo de discurso regional consegue arrebatar gente de todas as classes sociais em torno de uma "luta". Dá medo. (fora que, como posso me sentir à vontade no meio de um mar de pessoas vestidas de verde e branco? É a visão do inferno)

Nas suas falas, as autoridades vieram com todo aquele blábláblá de que a autonomia trará o desenvolvimento e o fim da pobreza para todo o país. E, como sempre, evocaram a "democracia" e a "liberdade". Realmente, tudo muito bonito e comovedor. E sincero, claro.

O dia do referendo se aproxima, e as expectativas crescem. Se eu acreditasse em deus, escreveria agora aquele clichê de que só ele sabe o que pode acontecer.

Mas como odeio clichês, apenas direi que o as tensões estão à flor da pele e que o que está para vir, apenas o futuro dirá, e que agora é esperar para ver.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Rumo às terras baixas, ao calor... e ao olho do furacão

Agora, é pegar um ônibus ladeira abaixo e presenciar mais um momento decisivo para a Bolívia. Há muita expectativa por aqui em relação ao referendo autonômico de Santa Cruz, marcado para o próximo domingo.

Uns falam que podem ter enfrentamentos, outros dizem que a tendência depois da consulta será o separatismo... o fato é que as coisas podem até permanecer como estão, mas isso é bastante improvável.

Outro fato é que o estatuto autonômico é realmente uma aberração (o governo tem toda razão). Uma coisa é a demanda legítima pela autonomia e descentralização. Outra coisa é esse estatuto feito pela elite de Santa Cruz, que praticamente propõe uma espécie de separatismo mesmo.

Bem, resta aguardar os acontecimentos. Espero conseguir postar algo de lá.

Ditaduras bolivianas


Devagar e quase nunca, vou postando as matérias mais interessantes que fiz por aqui. Abaixo, uma de dezembro, quando se anunciou que o governo iria abrir os arquivos das ditaduras bolivianas.

Mas, pelo jeito, até agora nada...

Brasil de Fato, edição 249 (de 6 a 12 de dezembro de 2007)

Bolívia decide abrir caixa-preta
de um passado sangrento do país

Governo de Evo Morales decretará abertura dos arquivos dos regimes militares que causaram mortes e desaparecimentos entre 1964 e 1982

Igor Ojeda
de La Paz (Bolívia)

Cristina Moreira Ramírez era ainda muito pequena quando seu pai, Roberto Moreira, sofreu as mais diversas torturas físicas e psicológicas durante a ditadura de Hugo Bánzer, um dos vários regimes militares pela qual passou a Bolívia entre 1964 e 1982.
Ela não lembra de nada, mas conta, com detalhes, o que aconteceu. “Em 1972, meu pai foi preso e sofreu os mais terríveis mal-tratos que um homem pode sofrer”. Cristina relata que, muito torturado, Roberto, militante do Exército de Libertação Nacional, resistiu por muito tempo, “mas chegou um momento que não pôde mais e perdeu a razão”.
A partir de então, o pai de Cristina começou a ser levado a todas as prisões e campos de concentração, para que os demais presos políticos vissem o que os esperava se não cooperassem com o regime e não delatassem seus companheiros.
“Meu pai, em muitas ocasiões, tentou tirar sua própria vida”, conta Cristina. Roberto chegou a ser internado num manicômio em Sucre, no centro-sul da Bolívia. Recuperado, foi exilado no México. No entanto, os distúrbios psicológicos voltaram e ele foi levado a um hospital psiquiátrico.
“O diagnóstico foi um quadro de lesões mentais incuráveis que impressionou os médicos conhecedores de sua tragédia, que era um testemunho patético da selvageria que os militares bolivianos praticavam, degradados à condição de torturadores a soldo do imperialismo”, relata Cristina. Depois de muitas recaídas, cada vez mais graves, Roberto morre em 31 de dezembro de 1973.

Esclarecimento e justiça

Mais de 30 anos depois, Cristina trabalha cotidianamente para pedir justiça e esclarecimento sobre os crimes cometidos contra seu pai. Tal busca pode ser finalmente recompensada a partir do dia 10, dia internacional dos direitos humanos, quando o governo boliviano deverá emitir um decreto supremo através do qual serão abertos os arquivos das ditaduras militares que deixaram centenas de mortos e desaparecidos desde 1964.
“Mais que tudo, os que os familiares de vítimas querem é que se aplique todo o rigor da lei aos que participaram desses atos impunes, e que isso seja um ressarcimento moral”, explica Cristina. Até hoje, poucos responsáveis pelos crimes cometidos durantes os regimes militares foram julgados ou processados. As exceções são o ex-ditador Luis García Meza (1980-1981) e seu ex-ministro do Interior, Luis Arce Gómez.
Ambos foram julgados pela Corte Suprema boliviana e sentenciados a 30 anos de prisão, sem direito a indulto, em abril de 1993.
Meza foi capturado em 1994, no Brasil, e cumpre sua pena. Já Gómez acabou de cumprir uma sentença nos EUA por narcotráfico e espera-se que seja extraditado para a Bolívia.
Loyola Guzmán, ativista da Associação de Familiares de Detidos, Desaparecidos e Mártires Pela Liberação Nacional (ASOFAMD) e hoje deputada constituinte pelo Movimiento Al Socialismo (MAS), diz que já está comprovado que as Forças Armadas da Bolívia, sobretudo o exército, concentrou documentação sobre a repressão.
“Porque eles foram os que, apoiados por, ou apoiando os civis, comandaram as ditaduras. Então, eles têm informação sobre todos os casos. E deveriam pôr-los à disposição para esclarecê-los”, explica a ativista, segundo a qual até hoje só foi possível averiguar o paradeiro de 14 militantes desaparecidos da ditadura de Hugo Bánzer (1971-1978) e um da ditadura de Luis García Meza.

Inimigo interno

De acordo com Loyola, como na Bolívia não existe nenhuma legislação que diga que certos documentos que atentem contra a integridade territorial ou a soberania do país devem ser abertos depois de um determinado número de anos, os militares utilizam esse argumento para censurar as informações.
Loyola Guzmán espera, com a abertura dos arquivos, obter esclarecimentos sobre o desaparecimento de seu companheiro, Félix Melgar Antelo, também do Exército de Libertação Nacional e detido em abril de 1972. “Disseram que o levaram ferido, mas nunca nos entregaram seus restos”, conta a ativista, ela própria prisioneira do regime de Hugo Bánzer, entre 1972 e 1974, e depois em 1975.
Tanto a ditadura que causou o desaparecimento de seu companheiro, como as demais, obedeceram, de acordo com Loyola, à aplicação da Doutrina da Segurança Nacional, “pela qual se considerava que o comunismo já não era o inimigo externo representado pela Europa Oriental, e sim o inimigo interno de cada país. Havia que liquidá-lo, evitar que houvesse novas revoluções cubanas”.
Tal necessidade significou a eliminação física de centenas de militantes de esquerda, a destruição de partidos, sindicatos e organizações populares. Tudo com o “apoio de civis, das forças que têm poder econômico e não queriam perdê-lo”, lembra a ativista da ASOFAMD.

Plano Condor

Mas a chamada Doutrina de Segurança Nacional não foi exclusividade da Bolívia. Quase todas as ditaduras dos países vizinhos na mesma época a tiveram como base.
E, justamente por compartilharem da mesma ideologia, os regimes militares de Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai, Chile e Bolívia elaboraram um sistema conjunto de troca de presos políticos e de informações sobre “subversivos”. Era o chamado Plano Condor.
“Está comprovado que o golpe de Bánzer teve apoio da ditadura brasileira, firmou pactos com a paraguaia etc. Há quase 40 bolivianos desaparecidos na Argentina, uns seis no Chile”, exemplifica Loyola. Segundo ela, na Argentina, a situação de nenhum desaparecido foi esclarecida até agora.

Oposição convoca Forças Armadas a agir contra Evo

Para analistas, respaldo da base militar a Evo e novo cenário internacional reduzem a possibilidade de triunfo de um golpe

de La Paz (Bolívia)

No dia 28 de novembro, Leopoldo Fernández, governador do departamento de Pando, um dos seis que fazem oposição ao governo de Evo Morales, deu um alerta: “Este povo não vai tolerar que as Forças Armadas (...) se prestem ao servilismo de acatar ordens de gente irresponsável na condução deste país”.
Em seguida, fez um chamado para que “os comandantes das forças baseadas em Pando possam dar um exemplo a esse alto mando militar, conformado por uns covardes traidores dessa pátria, e digam a eles qual é o papel que devem jogar as Forças Armadas”.
Poucos dias depois, foi a vez de outro governador opositor, o do departamento de Cochabamba, Manfred Reyes Villa. “As Forças Armadas, que sempre foram as guardiãs da democracia, têm que seguir sendo as guardiãs da soberania de nosso país e evitar a submissão do alto mando”, convocou.

Novo golpe?

Tais declarações comprovaram que os fantasmas das diversas ditaduras protagonizadas pelos militares entre 1964 e1982 estão muito longe de desaparecer. Num contexto de polarização acentuada que hoje vive a Bolívia, um novo golpe, embora ainda considerada improvável, não é descartada pela esquerda do país.
“Existem fissuras dentro das Forças Armadas. Há, pelo menos, diferenças de critério. É uma situação delicada, principalmente porque os setores da direita têm conexões com elas”, preocupa-se o sociólogo Eduardo Paz Rada.
Ele explica que durante décadas, a influência da embaixada dos EUA nesse setor é muito grande. No período, ajudou com armas e dinheiro, controlou as forças anti-drogas e criou seu aparato de inteligência.
Ainda de acordo com Rada, o governo de Evo Morales tem tentado reverter tal lógica e criar uma inteligência mais autônoma. “Mas isso ainda não foi desmontado totalmente. Ainda existe uma parte que sofre muito fortemente uma influência estadunidense, e, por outro lado, uma parte nacionalista que apóia o Evo”, analisa.

Respaldo a Evo

Loyola Guzmán, ativista da Associação de Familiares de Detidos, Desaparecidos e Mártires Pela Liberação Nacional (ASOFAMD), lembra que há um esforço hoje de vincular as Forças Armadas com a questão dos direitos humanos, mas pondera que “ainda é pouco tempo para dizer que são Forças Armadas a serviço do povo. Eu, pessoalmente, não confiaria muito nisso”.
No entanto, ela se mostra incrédula em relação à possibilidade real de um novo golpe depois de 25 anos de governos civis e eleitos. Na opinião da ativista, as condições internacionais, no século XXI, são outras. “Aparentemente, descartou-se as ditaduras como uma forma de impor políticas econômicas e sociais desfavoráveis à maioria”, analisa Loyola, que cita também o ambiente favorável de governos progressistas nos países vizinhos como um freio a qualquer intento golpista.
Já Eduardo Paz Rada, embora não descarte uma tentativa de golpe fomentada pelo oriente boliviano, bastião da oposição, acredita que no momento não há condições para que se obtenha sucesso nesse sentido.
Segundo ele, a cúpula das Forças Armadas, formada por representantes dos setores médios e acomodados, não pode atuar numa linha anti-governo, pois não obterá resposta da base. “A sub-oficialidade e os soldados rasos são de origem popular. E essa base é totalmente de respaldo a Evo”, afirma. (IO)

Os 18 anos de terror

1964: em novembro, René Barrientos e Alfredo Ovando Candía assumem como co-presidentes após um golpe de Estado.

1966: em eleições contestadas, René Barrientos é eleito presidente. Promulga uma nova Constituição, vigente até hoje.

1967: exército boliviano aniquila, com o apoio da CIA, a guerrilla de Che Guevara. Em 8 de outubro, revolucionário argentino é executado.

1969: em 27 de abril, Barrientos morre em um acidente de helicóptero. Seu vice, Luis Adolfo Siles, assume, mas é derrubado cinco meses depois em um golpe conduzido por Alfredo Ovando Candía.

1969-1970: Candía adota medidas como a abolição da lei de Segurança de Estado, a autorização para a reorganização sindical etc. Guerrilha guevarista de Teoponte é aniquilada pelo exército.

1970: em outubro, novo golpe militar derruba Candía. Poucos dias depois, um contragolpe militar de tendência esquerdista é levado a cabo, levando ao poder Juan José Torres.

1970-1971: o novo presidente, apoiado por organizações sociais, passa a adotar medidas populares, como nacionalização de empresas, reposição salarial aos mineiros, aumento do orçamento das universidades etc.

1971: em agosto, um golpe de Estado leva Hugo Bánzer ao poder. Juan José Torres seria assassinado em 1976, na Argentina, no marco do Plano Condor.

1971-1978: o governo de Bánzer torna ilegais os partidos políticos, suspende os direitos civis e envia tropas aos centros mineiros. Recebe apoio direto do Chile de Augusto Pinochet e dos EUA.

1978: Bánzer é derrotado por uma junta militar liderada por Juan Pereda Asbún. Em novembro, David Padilla, do setor nacionalista-popular do exército, derrota Asbún e no ano seguinte convoca eleições.

1979: o socialista Hernán Siles Suazo é eleito presidente. No entanto, como não obteve 50% dos votos, o Congresso, como previa a Constituição, designou de forma temporária Walter Guevara Arce para a presidência, até as eleições do ano seguinte. Em novembro, Alberto Natusch Busch assume o poder em outro golpe de Estado. A reação de organizações populares foi seguida de uma violenta repressão. Duas semanas depois, Busch devolve o poder ao Congresso, que elege interinamente Lídia Gueiler como presidente.

1980: em junho, Hernán Siles Suazo é eleito presidente mais uma vez. No mês seguinte, um novo golpe, liderado por Luis García Meza e com o apoio da ditadura argentina e da CIA, derruba Lídia Gueiler e impede a posse de Suazo.

1980-1981: o governo de Meza, ligado ao marcotráfico, resulta em centenas de mortos e desaparecidos. A exportação de cocaína dispara. Em agosto, Meza renuncia, dando lugar a Celso Torrelio Villa.

1982: em julho, um novo golpe leva Guido Vildoso Calderón à presidência, com a intenção de promover a transição à democracia. Uma greve de operários faz com que a ditadura devolva o poder ao Congresso, que decide validar as eleições de 1980, designando Hernán Siles Suazo como presidente.

Números das ditaduras na Bolívia*

René Barrientos (1964-1969):

5 desaparecidos

Alfredo Ovando Candía (1969-1970):

60 desaparecidos (todos da guerrilha guevarista de Teoponte (1970)

Hugo Bánzer (1971-1978):

85 mortos

77 desaparecidos

6 mortos e 35 desaparecidos na Argentina (Plano Condor)

8 mortos e desaparecidos no Chile (Plano Condor)

Alberto Natusch Busch (1979):

77 mortos

Luis García Meza (1980-1981):

94 mortos

26 desaparecidos

Total: 239 mortos e 168 desaparecidos

*Fonte: Associação de Familiares de Detidos, Desaparecidos e Mártires Pela Liberação Nacional (ASOFAMD)

domingo, 27 de abril de 2008

Atlântida era aqui?

É o que está dizendo um engenheiro boliviano, segundo a matéria de um dos jornais locais.

O tal cidadão, chamado David Antelo, diz que encontrou mais de cem coincidências entre a Acrópoles de Atlântida, descrita por Platão, e uma região localizada no Beni, na Amazônia boliviana, perto da fronteira com o Brasil (ele dá até as coordenadas do local).

Para ele, existem indícios da cultura dessa civilização em grande parte da Bolívia. A Atlântida, inclusive, teria englobado uma boa porção da América do Sul, há mais de 11.500 anos.

Ou seja, foram os “atlântidos” que descobriram e colonizaram a Europa, além da África e da Ásia. Para o engenheiro, Platão soube da história de Atlântida através de outros sábios gregos que haviam visitado os egípcios, os primeiros colonizados.

Que coisa mais doida...

quinta-feira, 24 de abril de 2008

A herança racista e oligarca da elite de Santa Cruz

Sobre o livro que comentei em um post abaixo, saiu a entrevista com dois dos autores no site do Brasil de Fato. Está longa, mais vale a pena ler.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A mesma lua


Foi por pouco tempo. Eu estava deitado, me preparando pra dormir, e ela lá, cheia, iluminada. Uma parte do teto do meu quarto é de vidro, mas foi a primeira vez que a vi por ali. Talvez pela posição dos astros e a inclinação da Terra nessa época do ano, sei lá... o fato é que nunca tinha aparecido antes.

Olhando pra lua por poucos minutos, já que ela se foi logo depois (ou melhor, nosso planeta que seguiu com seu teimoso movimento de rotação), de repente meu deu um estalo: essa lua é a mesma do Brasil. É a mesma que algum conterrâneo deve estar admirando nesse exato momento, a milhares de quilômetros daqui (morar em La Paz torna dupla a distância: na horizontal e na vertical).

Claro que eu sei que só temos uma lua. Mas tive que vir pra cá pra me dar conta, realmente, disso.

Com os olhos nela, imaginei o quão sensacional seria se, no Brasil, uma das muitas pessoas que amo e que sinto falta – uma que fosse – estivesse olhando para a lua ao mesmo tempo que eu. Distantes, mas muito próximos. Conectados por uma visão em comum.

Adormeci sorrindo.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Pra matar a saudade

Nada como almoçar ao som do glorioso pagode "Mal Acostumado", do não menos glorioso Araketu.

Só que em espanhol.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Mujeres

A mulher boliviana talvez seja a melhor representação da pobreza e miséria que se vive no país. Certamente o que mais chama a atenção de quem vem para cá é a figura da chola. A indígena com longas tranças, a pollera (uma saia grande), o xale, o chapéu-coco e o aguayo, um pano colorido que elas levam nas costas, com todo tipo de coisa dentro. Não raro, bebês.

Pois é nos rostos delas que vemos o trabalho árduo de todos os dias, passando horas e mais horas tomando conta de uma barraquinha de rua, sob sol ou chuva. Sabe-se lá que horas acordam e quando podem dormir. Quanto tempo levam para chegar, quanto para voltar. Quantos quilômetros caminham diariamente... E são de todas as idades. Todas com peles machucadas pelo frio, pelo sol, pelo clima seco... Muitas, maltratadas pelos maridos.

Ontem fui ver um filme com a Sue, uma amiga brasileira que está fazendo um trabalho aqui na Bolívia, chamado Mamá no me lo dijo. É uma espécie de documentário, pontuado com algumas encenações. Fala do extremo machismo na sociedade boliviana e os maus-tratos cometidos contra as mulheres.

A diretora o divide em três partes: a índia, a puta e a monja. Na primeira, as cholas nas ruas são entrevistadas sobre o que pensam dos homens. As respostas não são nada elogiosas.

A segunda parte trata do preconceito contra as prostitutas, enquanto o que prostituem saem ilesos de críticas. Já a terceira fala do machismo dentro da Igreja católica, através de uma encenação, no centro de La Paz, de uma missa celebrada por uma mulher. O crucifixo traz de um lado, o Cristo homem. Do outro, um Cristo mulher, o que causa indignação em muitos dos transeuntes (inclusive mulheres).

Enfim, muito bom. O triste é entrar na sala de cinema e ver que, além de nós, só mais duas pessoas estavam lá para ver o filme.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Os barões do oriente

Não poderia existir melhor expressão para caracterizar a oligarquia de Santa Cruz do que “barões do oriente”. Saiu na semana passada um livro muito bom sobre a elite cruceña, chamado, justamente, “Barones del Oriente”. Mas seus autores (já os entrevistei, deve ser publicado nos próximos dias) não escolheram o nome como uma forma de azucrinar o pessoal de lá. Ao contrário, a opção foi feita sobre bases históricas, políticas, econômicas e sociológicas.

É muito simples. Eles afirmam que o processo de constituição dessa elite é muito semelhante ao dos chamados “barões do estanho”, a oligarquia mineradora, baseada no ocidente, que controlou o país por quase todo o século XX.

A lógica é a mesma. Um modelo econômico extrativista (estanho no ocidente e borracha no oriente) e exclusivamente voltado ao mercado externo, gerando profundas desigualdades sociais. Ou seja, uma burguesia anti-nacional (qualquer semelhança com o agronegócio brasileiro não é mera coincidência).

O livro estuda a formação histórica da elite de Santa Cruz para analisar suas características atuais. E conclui que a lógica segue sendo a mesma (com a diferença que agora o ciclo é o da soja). E o que eles mais querem é manter esse poder gerado pelo modelo econômico.

Mas não desejam tomar o poder nacional. Seu objetivo central não é o Estado boliviano (mesmo porque não possuem apelo nacional). O que eles querem mesmo é criar um novo Estado dentro (ou fora) do boliviano. Ou seja, separatismo.

O estatuto autonômico de Santa Cruz, que deve ser aprovado em 4 de maio, é mostra evidente disso. Por ele, o controle sobre, por exemplo, a terra e os recursos naturais (em qualquer país do mundo, de competência do governo federal) será exercido pela região. Isso não é autonomia, é separatismo. Quer melhor forma para garantir intactos os latifúndios e a concentração de riquezas?

E, para manter toda uma população coesa em torno da luta autonômica, a oligarquia maneja muito bem o discurso regionalista e racista. Um dos capítulos do livro analisa esse discurso. Desde há muito tempo, o povo cruceño é bombardeado com a idéia de que o oriente majoritariamente mestiço sempre é prejudicado pelo ocidente indígena.

Conclusão: a luta não é de classe, e sim regional e étnica. Santa Cruz contra La Paz, mestiços contra indígenas. O que serve direitinho para encobrir as gritantes desigualdades sociais na região.

E o racismo é tão latente que o estatuto autonômico só reconhece os direitos (bem de leve, claro) dos cinco povos indígenas oriundos da região. Só que 40% da população indígena de Santa Cruz é formada por imigrantes que vieram do ocidente. Então, não haverá outro remédio que excluí-los, renegá-los, expulsá-los.

Um assunto atualmente em pauta por aqui também ajuda muito bem a expor o perfil da oligarquia cruceña. Há duas semanas que um grupo de fazendeiros de uma região de Santa Cruz simplesmente impede, à força, que o governo faça a vistoria de suas propriedades, para saber se cumprem ou não a função econômica e social.

A terra é o grande calcanhar de Aquiles da elite cruceña. Tanto que o governador, Rubén Costas, é criador de gado, e Branko Marinkovic, presidente do comitê cívico, é produtor de soja. E são os dois principais líderes da luta pela autonomia.

Além disso, cerca de mil famílias guaranis trabalham nessas fazendas em condições análogas à escravidão (o que mostra outra característica da elite local: a prática de um capitalismo colonial). As vistorias nessas terras que estão sendo impedidas pelos latifundiários têm como objetivo justamente sua distribuição para os camponeses guaranis.

Mas o duro mesmo é ler nos jornais a declaração do principal nome da Igreja Católica por aqui. O cidadão tem a cara-de-pau de dizer que o governo estava enganando o povo ao afirmar que em Santa Cruz há escravidão. Sendo que há inúmeros estudos, investigações e testemunhos que comprovam tal realidade. Bem, o que esperar da Igreja mesmo...

Quem tiver interesse no livro, pode baixá-lo neste site.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Desvarios do estado pré-sono

“Que saco. Esse cara não vai parar de falar no telefone não? Não dá pra dormir assim. Puta que o pariu, essas paredes são muito finas. Dá pra escutar tudo. Deve ter mudado ontem, fazia tempo que eu não ouvia nada. Ainda bem que ele tá sozinho e não veio com a mulher, senão ia ser foda. Pelo sotaque, deve ser dos EUA. Olha que ridículo ele falando... Pára de falar pelo nariz, meu! Tô com preconceito de quem fala inglês, ainda mais quem fala inglês e vem prum país pobre. Pffff, a culpa é toda deles. Tá falando com uma mulher, dá pra escutar bem. Tá no viva-voz, será? Ah, deve ser Skype. Deve estar sem o fone. Filho-da-puta, não desliga. E tinha que ser americano? Deve estar xavecando a mulher. Todo, todo no telefone. Ou é a mulher dele? Putz, se for, ele vai falar no telefone todas as noites. Vai ser sempre um parto pra dormir. O que será que ele tá falando? Vou prestar atenção. Ah, mas aí é que eu não durmo mesmo. Não vou ouvir não. Vou tentar dormir. Boa, desse lado ficou melhor. Será se vai ser legal a entrevista amanhã com a mulher do livro? Queria ler mais do livro. Vou acordar cedo amanhã e ler. Cacete, o cara não pára de falar? Ah, vou ouvir. Nooossaaaa, magina se eu escuto uma mega conspiração contra o Evo? E se o cara for da CIA e veio pra cá tentar derrubar o governo? Veio como quem não quer nada, alugou o apartamento do seu Luiz, e vai ficar conspirando. Ele nem deve saber que dá pra escutar aqui, tô quietinho, não faço barulho. Putz, esse sino da Igreja a esta hora é insuportável. Padre mais louco! Vixe, já pensou se eu ouço ele falar pra mulher que tá tudo certo, que o plano pra dar o golpe no presidente vai caminhando bem, que logo logo o governo cai? Cacildis, o que eu faria? Nossa, ia ter que avisar o governo. Já sei! Avisaria o Alfredo Rada, já entrevistei ele mesmo. Ligaria pro assessor dele e diria que tenho uma denúncia gravíssima pra fazer. Ai, não viaja, um agente da CIA não iria falar essas coisas por telefone. E por Skype, será se ele falaria? Acho que também eu teria que perguntar pro seu Luiz quem é ele, de onde ele veio... Ih, mas tô pensando nisso tudo e nem tô escutando o que o cara tá falando. Vou ouvir. Não posso esquecer de comprar pilha pro gravador amanhã. Nooossaaaa, se eu ouvisse que o cara tá conspirando mesmo e denunciasse, eu poderia escrever uma matéria em primeira pessoa. Será que as perguntas que eu pensei pra mulher do livro tão boas? Ia ficar bem bacana a matéria. Haha, agora eu quero mesmo que o cara seja da CIA e esteja conspirando contra o Evo? Ai, esse lado já deu. Vou virar. Ah, mas um cara da CIA não falaria essas coisas por telefone. Só se fosse em código. Cacete, dá vontade de ir lá xingar o padre que toca a porra do sino. Como seria o código? Olha, o condor tá com mal de altura e já não voará. Hahaha. Ai, Igor, deixa disso e vê se dorme. Vou parar de mascar folha de coca. Mas e se eu não tiver viajando? Então, se eu ouvir algo... pilha pro gravador. Acordar umas oito. As perguntas do livro... padre desgraçado... Domingo que vem... dia 23 ou dia 30? Avião não tão caro... Pilha pro gravjkjdkeuehrrjhs. ...........”

quinta-feira, 10 de abril de 2008

10 de abril: seis meses de La Paz...



… das cholas com seus bebês levados nas costas, dos morros (ou montanhas?) completamente tomados ao seu redor, das manifestações de rua quase diárias. La Paz das crianças com as bochechas queimadas pelo frio, do sol forte, da presença eterna do Illimani nevado, das vans que te levam para todos os lugares.

La Paz da nação e da língua aymara, dos meninos engraxates que cobrem seus rostos por vergonha dos colegas de escola, dos pedintes com cara de enorme sofrimento. Dos carros tirando fina um dos outros no trânsito caótico, da buzina incessante, das infinitas barraquinhas de rua, dos cachorros com e sem dono, das pichações políticas nos muros.

La Paz da aventura cotidiana em atravessar a rua, do sobe-e-desce de suas ladeiras, das lindas praças. Das pessoas na praça, brincando, lendo, conversando, manifestando, namorando. Esperando. Do sorvete de canela, da fila interminável no Bits & Cream, da salteña de frango, do brownie com sorvete do La Terraza, da cerveja morna.

La Paz do Bolívar e do The Strongest, do estádio Hernando Siles, do futebol na altura. Do Huyustus, um dos maiores mercados de rua do mundo, da salchipapa, da cerveja Paceña (e da Huari). Da feira de miniaturas, dos casacos de alpaca a 80 bolivianos, da Calle de las Brujas, do Gota de Agua, do Ojo de Agua.

La Paz da Festa das Ñatitas, da colorida (e sagrada) whipala, da fé católica, mas também andina. Da total ausência de McDonald’s, bicicletas e pontualidade. Do passeio noturno no El Prado, da ida à cinemateca, do jantar no Calicanto. Da Calle Jaén, da Plaza Murillo, da vista da Puente de las Américas, do Mirador Killi-Killi e do Montículo. Da sopa que antecede e da gelatina que sucede qualquer almoço.

La Paz dos turistas, dos gringos moradores, da ligação ao Brasil a 60 centavos de boliviano por minuto. Dos ótimos CD’s e DVD’s piratas, das pessoas chegando no cinema meia hora depois do filme começar. Dos “buenos días”, “buenas tardes” e “buenas noches” cada vez que alguém sobe numa van, e do “provecho” cada vez que alguém entra ou sai de um restaurante.

La Paz do sorojchi, da falta de oxigênio, do clima seco, do “calor” e do frio no mesmo dia. Da folha de coca, do mercado da coca, da vizinha El Alto, do praticamente vizinho Titicaca. Dos desfiles de bandas para comemorar qualquer coisa, das vendedoras de milho para as pessoas jogarem às pombas que inundam a Plaza Murillo. Da cerveja verde do Green Bar, do Chapare Libre do Ja Ron Café.

La Paz do sotaque “choroso”, do apthapi, a comida compartilhada, do apoio quase unânime ao Evo. De Sopocachi, Tembladerani, Villa Fátima, San Pedro, Miraflores, Villa San Antonio, Obrajes, Calacoto e Achumani. Da relativa segurança nas ruas, das distâncias pequenas, das festas nas casas. Da carne de lhama, do Pique a lo Macho, do churrasquinho no Honguito.

La Paz da perfeita acolhida a um jovem jornalista militante.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Socialistas, nós?

É engraçado. As propagandas a favor do “Sim” à nova Constituição que vi até agora na TV são para refutar “acusações” da direita.

Sempre em forma de historinha, com duas pessoas conversando, uma delas diz que, ao contrário do que fala a oposição, o novo texto garante a propriedade privada. Outra das propagandas reafirma que a educação privada também será respeitada.

Ou seja, a direita acusa o governo Evo de "comunista", "socialista" etc. Este, por sua vez, quer deixar claro que não pode ser definido por nenhum desses palavrões.

Pelo menos não na prática. Pelo menos não ainda.

terça-feira, 8 de abril de 2008

A vitória que virou empate (algumas horas depois do jogo terminar)

Pai e filho, domingão no Hernando Siles, o estádio a 3600 metros acima do nível do mar. Chegam uns 10 minutos atrasados, pois haviam decidido ir no jogo de última hora.

Bolívar, o time boliviano que o filho escolheu para torcer, contra o Real Potosí. Os dois mal na tabela. Primeiro tempo sofrível. Erros de passe bizonhos, bola na trave metida pelo adversário... nos últimos minutos, pênalti a favor do Bolívar. “Só assim mesmo”, comenta um torcedor indignado, sentado duas fileiras à frente.

Quase que previsível, a cobrança é perdida. O primeiro tempo acaba logo em seguida. A torcida revoltada xinga os jogadores na entrada do vestiário.

– O Bolívar não ganha faz tempo – explica o filho ao pai, que está de visita à cidade.

No segundo tempo, nada muda. A torcida vaia cada jogada errada. Até que, faltando alguns minutos, sai o gol do Bolívar. Comemoração, gritos de incentivo, mas, pouco tempo depois, o Real Potosí empata.

– Pô, ganhando o jogo e toma contra-ataque? – comenta o pai.

– Pois é, ridículo – concorda o filho.

O torcedor indignado, sentado duas fileiras à frente, levanta e vai embora.

Um tempo depois, no finzinho, outro improvável gol do Bolívar. De novo, comemoração e gritos de incentivo.

Mas o time do filho continua atacando e tomando contra-ataques.

– Que técnico burro, devia mandar o time segurar a bola! – espanta-se o pai.

– Claro! ­– exclama o filho. E, num estalo do cérebro, lança a dúvida: – Só se o Real Potosí fez um gol no comecinho e a gente não viu.

Pai e filho se olham. Com medo de apanhar, decidem não perguntar a ninguém, aos 49 minutos do segundo tempo, quanto está o jogo.

Chegam em casa com a interrogação na cabeça. “Nunca saí de um estádio de futebol sem saber exatamente quanto foi a partida”, pensa o filho, um tanto envergonhado.

Umas duas horas depois, ligam a TV. Começava, justamente, os melhores momentos.

– Ei, a gente não viu este gol! – grita o filho.

Pai e filho se olham novamente. Era o primeiro gol do Real Potosí, aos 2 minutos de jogo.

domingo, 6 de abril de 2008

Seis meses

Completo hoje meio ano de Bolívia, desde que desembarquei em Santa Cruz sem saber muito bem como raios eu faria para ir até La Higuera no dia seguinte, para cobrir as celebrações de 40 anos da morte do Che.

Foram três dias muito cansativos, incluindo as quase 10 horas de viagem num ônibus precário por desfiladeiros convidativos e uma noite bastante mal dormida no depósito/quarto de hóspedes da casa de um morador do vilarejo.

Mas valeu muito a pena estar onde estava nessa importante data. Assim como valeu muito a pena esses seis meses por aqui (espero que os próximos seis sejam igualmente recompensadores).

Meio ano se foi, e a sensação é de que o tempo passou, ao mesmo tempo, muito rápido e demorado. Rápido porque os anos estão cada vez mais curtos. Demorado pela quantidade de experiências novas vividas.

Para comemorar, a visita do pai, outra ida a Tiwanaku e outro jogo do Bolívar no estádio, dessa vez com vitória.

Não poderia ter sido melhor.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Cinco anos de resistência



Vixe, vou falar um negócio. Ser mídia alternativa no Brasil não é nada fácil. Não tem dinheiro, não tem pessoal suficiente, não tem anúncio, e ainda precisa enfrentar a força tremenda da grande mídia, controlada por algumas poucas famílias.

Esperava-se que, com o governo Lula, tal realidade mudasse um pouco. A expectativa era que algum naco dos milhões e milhões de publicidade governamental (que engordam os cofres da Globo, Folha, Estado, Veja e cia) fosse direcionado para o fortalecimento da imprensa alternativa. Ledo e ivo engano.

Em relação às TVs, acho que ninguém tinha a ilusão que o sistema de concessões ia ser democratizado. E, claro, não só não foi como se está trabalhando para se consolidar ainda mais o poder das redes existentes, como no caso da TV Digital.

Por isso tudo, um jornal como o Brasil de Fato completar 5 anos de idade é digno de muita comemoração. Então, se você mora em São Paulo, ou perto, ou estiver de passagem por lá no dia 17, dê um pulo no Tuca, no ato político-cultural do aniversário do BF. Vão estar por lá João Pedro Stédile, Plinio Arruda Sampaio, Alípio Freire, José Arbex e outros. Com certeza vai ter muito violeiro também.

Prestigie!

Santa Cruz "socialista"


Ontem, Rubén Costas, o governador de Santa Cruz, disse em um comício que, a partir de 4 de maio, quando será realizado o referendo pela autonomia do departamento, "começará uma revolução cujo eixo será uma doutrina social e produtiva, no marco de um socialismo democrático e humanista".

Diante disso, só me resta um comentário: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

De novo: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

Uma última vez: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

ps: Vejam, acima, o naipe do cidadão. Chamá-lo de "coronel", no caso, não é nenhuma metáfora.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Ainda longe de uma revolução

O governo Evo teve uma perda considerável ontem. O porta-voz da presidência, Alex Contreras, pediu demissão. Era um cara bem importante, sempre estava na mídia fazendo declarações veementes em defesa do governo e contra a oposição.

Mas o pior foi a carta que ele leu no ato de demissão. Diz que no início se deu “passos firmes e altivos” em direção a “medidas estruturais em benefício das maiorias”, mas que, ao mesmo tempo, “descuidamos de grupinhos ligados à fracassada política neoliberal e também de inimigos internos que, agora, se converteram em um obstáculo ao processo de transformações”.

Engraçado que já ouvi tais observações diversas vezes, em entrevistas ou conversas informais com políticos, dirigentes de movimentos sociais etc que fazem críticas à esquerda contra o governo Evo.

Muitos me disseram que um dos principais problemas da falta de maiores avanços no país é que justamente o Evo estaria cercado por um grupo apegado ao poder e ligado aos governos anteriores, neoliberais. Uma “burguesia burocrática”.

Convenhamos. O governo Evo não é nenhuma revolução, como alguns defendem. É inegável que, simbolicamente, um indígena na presidência é algo espetacular. As simbologias podem não ter resultados práticos imediatos, mas têm um poder de ir criando mudanças na consciência coletiva que pode servir pra gerar algo consolidado no futuro.

No caso da vitória eleitoral do Evo, acho que ela ajuda a empoderar a maioria indígena do país, a fazê-la acreditar que é possível sim influir nas decisões que a afeta. A nova Constituição, por exemplo, é inovadora no sentido do reconhecimento dos direitos dos povos indígenas.

Mas não se limita a garantir o direito a, por exemplo, educação, emprego, saúde. Vai além. Garante a autonomia, o auto-governo, a justiça comunitária. Ou seja, reconhece que eles têm o direito de viver como viviam antes da invasão espanhola e do ataque a suas culturas. Esse aspecto, sim, pode ser considerado revolucionário.

No entanto, por outro lado, o novo texto ainda é liberal. Isso é reconhecido até por apoiadores do governo, como Lucila Choque, quem entrevistei sobre o assunto. Ao mesmo tempo, muitas medidas de Evo, ou a falta delas, ainda contribuem para manter o esquema Estado burguês – neoliberalismo – oligarquia latifundiária – transnacionais.

Um dos exemplos é a chamada nacionalização dos hidrocarbonetos. Para muitos, não teve nada de nacionalização, apenas um ajuste (importante, claro), nos impostos cobrados às petroleiras. Alguns dizem que, por meio de mecanismos fiscais, hoje o governo fica com muito menos do que se propaga.

Além disso, o dinheiro do gás ainda não se reverteu em fortalecimento da estatal boliviana, na industrialização do gás ou na criação de empregos. O pior é que a Bolívia segue enviando quantidades imensas do recurso à Argentina e, principalmente, ao Brasil (a pressão do Lula para tal é gigantesca). Enquanto isso, inúmeras comunidades rurais sobrevivem com energia à lenha.

O governo ainda promete tudo isso: fortalecer a estatal, industrializar o gás, garantir a soberania energética do país etc. Vamos ver se em 2008 pelo menos os primeiros passos serão dados nesse sentido.

segunda-feira, 31 de março de 2008

De volta

Já tinha ouvido, várias vezes, comentários de pessoas que tinham viajado ou morado um tempo na Europa ou nos EUA dizendo que, quando voltaram ao Brasil, ficaram um pouco impactadas. Com a pobreza, as favelas, o caos urbano etc.

Senti um pouquinho disso agora. Fiquei em Buenos Aires por 8 dias, e confesso que ontem e hoje, de volta a La Paz, tive uma sensação talvez não de impacto, de choque, mas de um certo estranhamento. Como se não fosse a cidade na qual vivo há quase seis meses, à qual me adaptei muito bem e onde gosto bastante de morar.

Mas foi isso. Vi o caos do trânsito, as infinitas barraquinhas de rua e a pobreza de La Paz quase como se tivesse chegando pela primeira vez. Claro que Buenos Aires não é nenhum primeiro mundo. Mas o contraste entre as duas cidades é marcante.

Antes, só tinha saído daqui para outros lugares na Bolívia e para o Peru. Daí a diferença.

Mas no pasa nada. Sei que esta semana mesmo estarei plenamente readaptado e pronto para continuar a viver as experiências incríveis (na vida e na profissão) que vivi até agora. A ver.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Os falsos heróis

De vez em quando não tenho nada a dizer. Aí, o remédio é ir publicando as matérias que fiz por aqui. A que vem abaixo é sobre um momento chave da história recente da Bolívia. A reivindicação da capitalidade pra Sucre, cidade onde estava instalada a Assembléia Constituinte – por causa dessa demanda, ela ficou travada por meses.

Pessoalmente, acho que a questão da capitalidade foi a melhor e mais eficiente cartada da direita boliviana nos últimos anos (possivelmente, a mais eficiente no mundo todo). Foi assim: Em agosto de 2006, a Constituinte foi instalada. A oposição tentou travá-la como pôde. Até que lançam essa de devolver os poderes Executivo e Legislativo para Sucre. Na mosca.

Quando os governistas decidiram excluir esse tema dos debates, em agosto do ano passado, começou a revolta na cidade, puxada por estudantes universitários de “esquerda”. O tema uniu, de uma forma impressionante, a cidade (inclusive as classes populares) contra o MAS, o Evo, La Paz e os indígenas. O regionalismo e o racismo chegaram ao extremo.

Quando o MAS resolve reinstalar a Assembléia de qualquer jeito, estoura uma rebelião em Sucre. Eu estava lá. Parecia guerra. Barricadas, pneus queimados, fumaça negra cobrindo quase todo o centro. Os manifestantes achavam realmente estar fazendo uma revolução. Não percebiam que estavam servindo como fantoches à oligarquia que sempre mandou no país.

Três pessoas morreram. Até hoje não se sabe direito quem os matou. A perícia deu que as balas não vieram de armas usadas pela polícia. Mas isso não importava. Na hora, para a imprensa e autoridades locais, o governo boliviano virou a pior das ditaduras, e os falecidos, mártires da democracia. Nojento.

Resultado. Tal conflito ainda incide decisivamente no impasse atual. A Constituição foi aprovada, mas é considerada ilegal pela oposição, por causa dos enfrentamentos em Sucre. Isso está servindo de excelente pretexto para a direita não aceitar as mudanças e pôr em dúvida o caráter democrático do governo Evo. Ao mesmo tempo, o regionalismo e o racismo acentuado inviabilizam a unidade do país.

É exatamente o que eles querem. Separar a Bolívia em duas. Do lado deles, a Bolívia rica em gás e latifúndio. Do outro lado... bem, que se fodam do outro lado.

Brasil de Fato, edição 247 (de 22 a 28 de novembro de 2007)

Uma cidade que quer o retorno do protagonismo

Há meses, não há sessão na Assembléia Constituinte devido aos protestos de Sucre pela capitalidade; para setores da esquerda, tema é jogada da direita

Igor Ojeda
de Sucre (Bolívia)

“Nenhum passo atrás!” grita a população de Sucre. E, de fato, nada indica que irão retroceder. O que exigem não é pouco: que a Cidade Branca, como é conhecida, pela cor de suas construções históricas, volte a ser a capital da Bolívia, condição que lhe escapou em uma guerra civil ocorrida há mais de cem anos.
No centro da cidade, para todos os lados para o qual se olha, percebe-se a reivindicação pelo retorno dos poderes Executivo e Legislativo. Pichações, adesivos nos carros, cartazes na janelas de farmácias, cafés, restaurantes, cabeleireiros, faixas em prédios de órgãos públicos, escolas, sindicatos... As mensagens, quase todas acompanhadas pela bandeira de Sucre, uma cruz vermelha sobre fundo branco, demonstram a firmeza de posição.
“Sucre resiste! Nenhum passo atrás”. “A sede, sim, se move!”. “Capitalidade plena para Sucre!”, Bolívia, sim, quer a capitalidade para Sucre”. Toda a cidade parece estar unida em torno de uma mesma luta.
Luta que é liderada, desde o início, por uma entidade criada especialmente para tal: o Comitê Interinstitucional de Chuquisaca, encabeçado pela prefeita de Sucre, Aydeé Nava, pelo presidente do Comitê Cívico de Chuquisaca, Jhon Cava e, sobretudo, por Jaime Barrón, seu presidente.

Desenvolvimento

Barrón, segundo o qual o Comitê Interinstitucional é composto pelas “65 instituições mais representativas” do departamento, é reitor da principal universidade local, a San Francisco Xavier, e grande líder da demanda sucrense pela capitalidade – as reuniões do Comitê, inclusive, ocorrem nas dependências da Universidade.
“É uma reivindicação para Sucre, que tem caráter nacional e não só regional, ao representar, a partir de sua aplicação, uma opção de desenvolvimento, superando assim a marginalização que esta cidade sofre por causa dos governos de turno”, diz. A favor de sua imagem frente aos habitantes de Chuquisaca, conta o fato de não ser político e não pertencer a nenhum partido.
Dessa forma, nega qualquer vinculação da demanda pelo retorno de Sucre à condição de capital boliviana com uma jogada da direita, principalmente da chamada media luna (meia lua, alusão ao formato geográfico conformado pelos departamentos oposicionistas de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija), para travar a Assembléia Contituinte – há mais de três meses, quando o tema foi excluído dos debates, o foro não sessiona, devido aos protestos na cidade.

Oposição

“Chuquisaca tem uma postura inteiramente regional e cívica. Nao se deve confundir o apoio da meia luna à democracia e à legalidade com um discurso interessado do governo. O presidente do Comitê é apolítico”. Da mesma maneira, nega relações diretas com o Comitê Cívico de Santa Cruz, hoje uma das principais forças da oposição.
No entanto, seu posicionamento em relação ao governo do MAS e de Evo Morales é clara. Diz que o Comitê é contra diversas medidas tomadas pelo atual presidente, e cita como exemplo uma das mais recentes: o corte dos recursos petrolíferos destinados aos departamentos para a ampliação do valor e da abrangência de uma bolsa concedida aos idosos do país. Hoje, o tema é uma das principais bandeiras da oposição boliviana, especialmente da media luna e dos departamentos de Cochabamba e Chuquisaca, exatamente os mesmos que defendem a capitalidade para Sucre.
Barrón está certo de que “todos os habitantes da cidade e do departamento” apóiam a demanda. A vigília realizada nos dias 13 e 14 em torno do Teatro Gran Mariscal é uma pequena amostra disso. Embora a grande maioria dos participantes fosse claramente de estudantes, podia-se ver de tudo. Crianças, idosos, brancos, indígenas, diferentes classes sociais.

Massacre

No dia seguinte, durante o auge da manifestação, cerca de 2 mil pessoas chegaram a se concentrar no local, inclusive participantes de marchas de trabalhadores do Mercado Central e de comerciantes, que também protestavam contra a alta do preço da cesta básica.
Seus argumentos centrais são dois. O primeiro diz que Sucre é a capital histórica da Bolívia, condição que lhe foi roubada por La Paz após a chamada Guerra Federal ocorrida no fim do século XIX. Conflito em que, frisam constantemente, os pacenhos massacraram os chuquisaquenhos.
O segundo é o da legalidade. “[A presidente da Constituinte], Silvia Lazarte, junto com La Paz, anulou este tema da Assembléia com a resolução de 15 de agosto. Isso é ilegal, e por isso estamos aqui, queremos legalidade. Queremos que respeitem o regulamento que aprovamos em sete meses, e esse regulamento diz que não se pode apagar nenhum tema sem debater”, protesta Sabina Cuellar Leaños, constituinte de Chuquisaca e que participava da vigília.
Detalhe: ela pertence ao Movimiento Al Socialismo (MAS), partido de Lazarte e do presidente Evo Morales, e já foi dirigente camponesa. Pela capitalidade, chegou a ficar oito dias em greve de fome. “A capital da República boliviana nasceu aqui em Chuquisaca. Os pacenhos levaram-na à força, matando os chuquisaquenhos. Estamos reclamando nossos direitos, não estamos pedindo esmola”, justifica. Intencionalmente ou não, o tema definitivamente exacerbou a rivalidade regional entre sucrenses e La Paz.

Palavras de ordem

A noite do dia 13 avança, e os manifestantes nao dão sinais de que pretendem ir embora. Os estudantes, o grosso da vigília, batucam, cantam, soltam rojões. Nas paredes do teatro, diversas faixas penduradas, principalmente das muitas faculdades da Universidad San Francisco Xavier. Quase todos os carros que passam buzinam em apoio.
As palavras de ordem são duras: “Isso é Sucre, porra! E Sucre se respeita, porra!”. Ou então: “Evo, Evo, cabrón. Você é um filho da puta, da puta mãe que te pariu!”. Ou ainda: “Vamos ver, vamos ver, quem leva a batuta. O povo unido? Ou o governo filho da puta?”.
Em nome desses estudantes, quem lidera a luta pela capitalidade e participa ativamente das reuniões do Comitê Interinstitucional é a Federação Universitária Local (FUL), principal entidade estudantil da universidade e, conseqüentemente, de Sucre e de Chuquisaca.
Seu executivo, Álvaro Ríos, também justifica a exigência da volta da condição de capital à cidade com o fato de La Paz ter massacrado os sucrenses na Guerra Federal do fim do século XIX. “Historicamente, legitimamente, a sede dos poderes tem que voltar novamente à sua cidade, que sempre foi Sucre”, diz.

“MAS reformista”

Segundo ele, a quase totalidade dos universitários apóia a demanda. Em relação à FUL, afirma que antes de tudo é uma organização progressista, formada por estudantes de diversas tendências de esquerda e vinculados à luta popular.
“Historicamente, a universidade pública na Bolívia, e a Universidad San Francisco Xavier sempre tem estado ligado aos setores populares. Há um pacto histórico com os camponeses e com a classe operária que se fez há muito tempo”, explica.
Mais: diz que os universitários consideram o MAS um movimento reformista. “É administrador da pobreza, continuador das políticas neoliberais, porque na realidade não solucionou o problema da pobreza, o de terras para os camponeses. Existem muitos problemas de fundo que ainda não foram resolvidos”.
Sobre a acusação de setores estudantis que apóiam a Constituinte de que a FUL é assessorada por jovens de Santa Cruz e paga para defender a capitalidade, Ríos é enfático: “Isso é totalmente falso”. E contra-ataca: “Existem alguns dirigentes de tendências trotskistas que estão contra tudo isso. Sempre foram caracterizados por serem muitos sectários, muito dogmáticos”, critica.

Para a esquerda, capitalidade é jogada da direita

de Sucre (Bolívia)

Ainda que a primeira impressão é de uma cidade totalmente unida em torno do tema da capitalidade, Sucre está longe da unanimidade. Muitas forças de esquerda e movimentos sociais locais ligados ao MAS, apesar de defenderem o retorno dos poderes Executivo e Legislativo, são veementes em priorizar o sucesso da Assembléia Constituinte.
Em menor número, é verdade, nota-se pela cidade pichações principalmente contra a Federação Universitária Local (FUL), principal movimento estudantil de Sucre e de Chuquisaca, que mergulhou de cabeça na briga pela capitalidade.
“FUL oportunista”. “FUL + Media Luna = Ditadura”, “FUL vendida!”, “Querem legalidade os que sempre agiram na ilegalidade”, lê-se nos muros da sede da entidade e seu entorno.
“Alguns grupos minoritários estão querendo manipular a população. Geram-se correntes de idéias, de pensamentos, para que toda a população siga nessa mesma linha”, alerta Ruben Darío Egüez Gonzalez, da juventude do MAS de Chuquisaca e do Coletivo Che Guevara, uma das 16 entidades de jovens que assinam um manifesto contra o Comitê Interinstitucional e a favor da Constituinte, divulgado no dia 12.

Divisão

Segundo ele, os interesses dos que encabeçam a luta pela capitalidade são políticos. “Pretendem ser prefeitos, governadores, deputados, senadores... Este é o afã deles. Buscar uma imagem política. Mas não estão vendo o interesse coletivo”, critica.
Nicolás Limón, segundo vice-presidente da direção departamental do MAS de Chuquisaca, denuncia que a reivindicação de que Sucre volte a ser capital da Bolívia está sendo usada pela direita. “Os grupos de poder, como a mal chamada media luna, têm utilizado o tema para fazer com que pacenhos e chuquisaquenhos, quéchuas e aymaras, os pobres, no fim das contas, se enfrentem”, lamenta.
“É uma jogada, porque as profundas mudanças que nosso governo está fazendo na Bolívia está fazendo doer até os ossos desses oligarcas que até agora tiveram o poder político, econômico, social. E as mudanças que se está fazendo, necessária e obrigatoriamente têm que se legalizar, que se legitimizar, com a Constituinte”, opina Damián Condori, dirigente da Federação Única de Trabalhadores de Povos Originários de Chuquisaca (FUTPOCH), que recentemente rompeu com o Comitê Interinstitucional: “Fizeram queda-de-braço com a gente estrategicamente para nos demobilizar”.

Chantagens

Em relação à Universidad San Francisco Xavier, que lidera as manifestações, Condori diz que seu reitor, Jaime Barrón, também presidente do Comitê, pertence à mesma oligarquia que não quer transformações para o país. Além disso, segundo ele, são comandados por Santa Cruz.
“A FUL é paga pelo Comitê Cívico de Santa Cruz, tem interesses políticos”, concorda Gonzalez, do Coletivo Che Guevara, que denuncia que há jovens infiltrados da União Juvenil Crucenista, também de Santa Cruz, de tendência fascista.
Além disso, revela que professores estão chantageando os estudantes com as notas. Nicolás Limón, do MAS, relata: “Há amigos, moradores da minha comunidade que estão na universidade que denunciam que se os alunos não vão às marchas, suas notas são abaixadas”.
Chatangem que também é feita, segundo Limón, contra os setores populares de Sucre. “Há companheiros que estão denunciando que existem ameaças por parte da prefeita nos bairros mais marginais. Se não apóiam a capitalidade, não vão fazer projetos, obras no local”, afirma.
Para o dirigente do MAS, mais além dos interesses regionais, deve estar a nova Constituição. Por isso, explica que as bases dos movimentos sociais estão dizendo que, se possível, a irão defender com sangue: “Porque, para nós, a Assembléia Constituinte é de vida ou morte”. (IO)

------

ps: Hoje parto para uma semana de Buenos Aires com a Tati. Então, provavelmente (só provavelmente), fico uma semana sem postar.